Esquecimento e lembrança

Esquecimento e lembrança

Romance sobre memória e perda

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O romance me povoa como um lugar em que todos gritam querendo ser ouvidos. Eu o concebo como uma sinfonia (ou cacofonia) de vozes ansiosas por expressão. Não creio que só o emocional, o instintivo, tenha direito de cidade na ficção romanesca. Tudo que cabe na vida, cabe no romance. Publique possivelmente meu penúltimo romance, “Memória no esquecimento” (segue trecho). O último deverá ser “Inferno no paraíso”. Promessas de escritor não valem muito, pois se é escravo de necessidades internas.

*

Voltei a pé sorvendo a violência do calor. Era como se tudo aquilo me pertencesse, especialmente os cheiros daqueles campos. Vez ou outra, um pássaro levantava voo ou planava no céu de um azul tão profundo que parecia um mar colado no alto do mundo. Cheguei a me ver de ponta-cabeça. Até me agarrei num tufo de vegetação para não cair. Um lagarto exibiu-se e sumiu num desvão. Eu me sentia parte daquilo tudo como um bicho ou uma planta. Eu era um bicho voltando para o ninho. Não voltava, me arrastava. Sempre me senti bicho. Tem alguma coisa nos animais que me fascina, uma regularidade, uma certeza, uma identidade, talvez. Bicho não trai, não muda, não esquece. Bicho vive e morre. Pronto. A noite me pegou no caminho. Era noite de lua cheia.

Por que eu não sumi no mundo naquela noite? Por que não despenquei numa ravina? Por que não mergulhei na água escura do açude? Eu segui dentro da noite como uma alma despenada, sem peso, sem dimensão, etéreo. Um carro esmagou um preá diante de mim. Ficou uma gosma no asfalto. Outro veículo, uma camionete azul, parou a uns dez metros de mim, corri, o motorista arrancou e se foi buzinando.

Hoje, da minha janela, vi chegar o carro cinza que agora usam para levar os nossos mortos. Antes, era um veículo preto. Um carro fúnebre atroz, embora sem o barroquismo daqueles que aterrorizavam a minha infância. Não sei a marca deste mais discreto que entrou no jardim silenciosamente. É um automóvel elegante com a parte traseira abaulada e fechada, perfeito para receber um caixão. Disfarçam como podem. Esperam a hora da sesta para levar os despojos. O cadáver sai dentro de um envelope de plástico fechado com um zíper. Soube, depois, que o falecido era o Martins, do 312, com quem nunca falei.

Vi, da minha janela, no começo da tarde, as folhas amareladas do plátano cobrindo o chão. Elas farfalhavam quando pisoteadas. Vi o céu nublado como uma antiga moeda sem valor. Vi as outras janelas fechadas, de costas para uma despedida sem pranto nem cerimônia. Vi árvores, pessoas atarefadas, uma poça de água, bancos úmidos. Havia um pássaro de peito amarelo nos galhos curvados da cerejeira. Um pássaro mudo de olhar vítreo e bico reto e curto como um risco de lápis feito de um traço. A vidraça ainda continha alguns pingos da chuva fina de pouco antes. Um súbito facho de luz natural incendiou o tapete de folhas no chão acendendo reflexos vermelhos, castanhos, dourados, irisados. Encostei o rosto ao vidro e ali fiquei como uma estátua aguardando o crepúsculo. Dois enfermeiros de branco da cabeça aos pés acompanharam o transbordo do corpo da maca ao veículo.


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Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895