Evocações de tempos extremos

Evocações de tempos extremos

Crônica de uma nostalgia sem precedentes

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      Tentarei nesta noite escrever, outra vez, talvez a mais suave das minhas crônicas, aquela em que falarei dos anos perdidos projetando o futuro. Confessarei que vivo refugiado no meu mundo, cercado de livros, de um lado as obras completas de Borges, do outro, todos os livros de Machado de Assis. Na retaguarda, os poetas Rimbaud e Baudelaire, com suas visões sobre o outro lado do paraíso. Na frente, as estantes carregadas de realismo fantástico, de surrealismo e de nostalgia. Contarei que sonhei em reformar o mundo, em formar, informar e iluminar. Hoje, no crepúsculo do dever, quero apenas realizar a mais comovente e difícil tarefa que se pode atribuir um homem: distrair. Nada é mais útil para quem já não quer revolucionar.

      Revelarei minha admiração por frases e versos como “há vento e há cinzas no vento” (Borges), “e se a comunicação não remetesse mais a uma mensagem?” (Baudrillard), “o pássaro olha o sol com indiferença” (Miguel Tomás), “céus cinzentos de cristal” (Rimbaud), “sei que há uma pessoa que, dia e noite, me busca em sua mão” (Vallejo), “deixa em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoas” (Chico Buarque), “minha juventude não passou de um furioso temporal” (Baudelaire), coisas assim, soltas, evocativas, perdidas na sombra dos livros fechados. Escreverei, antes da meia-noite, com uma manta sobre os joelhos, ouvindo os sons vindos das ruas, cacos de voz e de medo. Então sobreveio um golpe de tristeza tão forte que me restou buscar alívio nas palavras mais livres, aquelas que não precisam provar utilidade nem professar qualquer credo, correndo ao sabor da viagem.

Andávamos, tu e eu, em busca de um cão

Um cão azul que nos olhasse de soslaio

E coubesse como um gatinho num balaio

Para ser embalado no trem das horas

Vagas que se levantam e assim se vão.

Nessa procura se foi langoroso o verão,

Um verão, uma primavera, um inverno,

Um ano, dez anos, todos de estação.

O outono nunca parei para contemplar

Eram só folhas amarelas tão passageiras

Costumeiras tardes de amor nas soleiras

De portas entreabertas ao deserto dos anos.

Às vezes, teu olhar me afagava triste

Às vezes, eram os teus seios em riste

Que me anunciavam a morte do homem.

Assim, entre chuva, vento, bruma e sol

Uma cordilheira de rugas no rosto

Me devastou na mesmice do posto.

Até que me tombou junto aos pés

Um suspiro sem o menor desgosto

E o beijo no varal do que não esqueci.


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895