Fábrica americana
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Fábrica americana

A vida real nas telas grandes

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O excelente documentário brasileiro “Democracia em vertigem” tem pela frente na luta pelo Oscar um concorrente poderoso: Fábrica americana, filme produzido por Michelle e Barack Obama. Documentário é grande reportagem. O casal Obama investiu numa história desconcertante. Depois da falência de uma unidade da GM, chineses assumem o controle na produção de vidro automotivo. O choque de culturas é imediato. Duzentos chineses, instalados na América, controlam o trabalho de dois mil norte-americanos. Comunistas, os chineses não querem sindicato nem legislação trabalhista atrapalhando suas metas. Liberais desesperados por emprego, os americanos entram no jogo com a boa vontade possível.

      Não demora muito para que o conflito se instale. Os chineses acham os americanos lentos, de dedos gordos, pouco produtivos, cheios de regalias, com oito folgas por mês (sábados e domingos) e exigências excessivas de segurança no trabalho. Um grupo é levado à China para conhecer os métodos da empresa em seu berço. O que aprendem? Um processo brutal de adestramento. Os empregos vivem para trabalho, fazem ordem unida, entoam cânticos de amor à firma, trabalham 12 horas por dia, pouco convivem com as famílias e estão cobertos por sindicatos pelegos atrelados ao Partido Comunista, que faz dobradinha com a empresa. Uma engrenagem que não suporta falhas nem reivindicações.

      Na filial americana, a empresa chinesa joga pesado para impedir que os funcionários criem o seu sindicato. Semeia o pavor e ganha. O capitalismo chinês é o sonho de muito patrão ocidental. Empregados que se organizam e reclamam são demitidos. A legislação trabalhista é apontada como fator de baixa produtividade e fracasso empresarial. A mensagem é simples: quer emprego? Abra mão de “privilégios” e garantias. Por fim, entra em campo a automação. As chefias programam demissões e vibram com braços mecânicos que não se sindicalizam nem quebram preciosas placas de vidro por cansaço, depressão ou erro.

      Para onde irão esses novos desempregados. Os deslumbrados tecnológicos citam exemplos do passado para dizer que sempre surgem novas possibilidades. Será que o passado garante o futuro? Nunca houve um salto tecnológico tão radical quanto o atual. É questão de escala e de natureza: passagem do humano ao artificial total. O amanhã está mais para as distopias em tom fascista enuncias por Yuval Harari do que para as utopias ociosas de Dominique di Masi ou para as divagações científicas colaborativas de Bruno Latour. Seremos todos inúteis, vigiados permanentemente e domesticados para a sobrevivência?

      “Democracia em Vertigem” tratam de um drama nacional com projeção global: o uso de mecanismos legais para fins nebulosos. “Fábrica americana” explora um tema cotidiano e universal: o fim do trabalho. Antes do fim, paradoxalmente, um retorno ao século XIX social. O completo a essas reportagens no Oscar é “Coringa”, ou a vingança do perdedor. Em 2020, a festa de Hollywood abraçou a política de vez. Sinal dos tempos? Sintomas de uma crise que não para de assustar.

E Regina Duarte: de namoradinha do Brasil a noivinha da tentação autoritária?

No seu pior papel, na eleição de 2002, ela disse: "Tô com medo".

Agora, está animada.