Falero, um grande escritor na área
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Falero, um grande escritor na área

Autor de Vila Sapo surge com uma prosa avassaladora

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 Um dos melhores livros que li neste ano é de um gaúcho: José Falero. Seis narrativas sob o título “Vila Sapo”. A obra ganhou agora nova edição pela Figura de Linguagem. A narrativa de Falero tem algo de desconcertante: acelerada, vertiginosa, implacável. Reproduz as gírias e a sintaxe de guris de periferia com perfeição e ouvido. Jovem, nascido na Lomba do Pinheiro, estudante de EJA, Falero é o nome artístico de José Carlos da Silva Júnior. A escrita de Falero tem o realismo cru de um Michel Houellebecq e a fúria coloquial de um Céline. É pau puro. Ouvi o escritor fazendo uma leitura de um texto seu. Perde-se o fôlego captando cada fragmento de um jorro vulcânico.

      A vida real salta em cada palavra. Há uma estranha poesia nessa literatura sem enfeites. O que mais impressiona é o ritmo. O fruto dessa vertigem parece ser resumido numa frase de Caetano Veloso: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Não me canso de citar Platão e Caetano Veloso. Platão só por ser lembrança de um baiano na Sorbonne que exclamava: “É Platão e Caetano, meu rei”. Quando apertado, concedia generoso e risonho: “Tem Lampião também”.

Jogo que segue. Falero tem tudo para se tornar um dos grandes escritores brasileiros, se não for preterido por ser negro, pobre e periférico. Literatura no Brasil é sistema de hierarquia social. A FLIP, festa da elite cultural, vai homenagear a poetisa americana Elizabeth Bishop, que se derreteu para o golpe de 1964: “Foi uma revolução rápida e bonita”, escreveu. A direita, que desconhecia Bishop, só não a adotou por ter ficado sabendo que ela era lésbica. Era também alcóolatra, mas isso o pessoal até que leva na boa.

      Falero é voz da periferia de Porto Alegre. Ele prepara um romance. A pegada é a mesma. Nisso reside o essencial: narrar como quem espera na fila da emergência, jogar o bagulho para fora como se fosse a única coisa a fazer antes de entregar a alma. Faz a literaturinha de apartamento ficar roxa de vergonha e de inveja. Se duvidar, ganha os prêmios, que sempre acabam nas mãos dos donos do campinho. Mas aí precisa duvidar muito e ter uma sorte danada.

Um trecho: “A fome não é tão ruim assim. Ao contrário: a ligeira sensação de vazio nas entranhas serve como um lembrete até animador de que logo, logo haverá o prazer de comer alguma coisa bem gostosa! Não é verdade? Ruim, ruim mesmo, é não ter perspectiva de saciar a fome: isto, sim, é terrível! A cada hora que passa sem que a boca mastigue, mais e mais se revolta o estômago, que a princípio apenas reclama ruidosamente, mas depois começa a espalhar pelo corpo inteiro uma alarmante sensação de fraqueza, ameaçando interromper para sempre o fornecimento de energia. A pessoa logo se torna incapaz de pensar em qualquer coisa que não seja dar um jeito de arranjar comida; entretanto, por mais fortemente que mentalize os alimentos, nunca é o suficiente para materializá-los. Não há forma de obtê-los. Simplesmente não há forma de obtê-los”. Literatura do olho da rua.