Fronteiras da vida e da imaginação

Fronteiras da vida e da imaginação

Na flor da pele

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Custei a dormir naquela noite. Acampamos no Passo da Alma de Gato. Palomas ressonava às nossas costas. As fazendas em torno do arroio eram tão grandes que não adivinhávamos qualquer limite ou divisa. Medíamos as distâncias pelas estrelas. Demorei-me na beira da água vendo fluir o mundo. A tristeza me mordiscava o coração sem que eu atinasse o motivo. De morte, já não queria tratar. O ruído moroso da correnteza me aconselhava a aceitar o destino. Me parecia que nada mudava no curso dos séculos. Cada novo homem revivia a angústia dos antepassados. Sem querência nem pátria, sem escrúpulos nem religião, torto de nascença, via refletidos no caudal os gestos que a lua enviava para denunciar as minhas contradições.

      Perdi o fio das reflexões quando o vozeirão de Paulino Macedo revelou mais uma discórdia no bando. Aflitos ou temerosos, os homens mal disfarçavam a tensão. Vez ou outra, a gabolice reinava e todos louvavam as guerras e o gosto pelas refregas. Depois, passado o entusiasmo dos primeiros mates, a angústia se reinstalava. Ao primeiro grito, pensei em recuar para não me meter em briga alheia. Os insultos embaralhavam-se numa algaravia bem conhecida. Acuña, soldado normalmente caladão, para não dizer taciturno, tropeçou nos apetrechos de Paulino. Este, nervoso que andava, mais do que qualquer um, sentou-lhe um pelego na cabeça. O outro não se fez de rogado:

— Assim é que se comanda, sargento?

— Pelo menos quando se leva uma tropa de bestas — devolveu Paulino.

— Até hoje não tinha vista asno com divisas — insistiu Acuña.

— Castelhanos... — lamentou-se Paulino. — Em 93, vieram ajudar a nos matar. Agora, de pelego virado, querem nos defender. Só não sei qual a real serventia desses mercenários.

— Mercenários, nós? — a indignação arrancou um urro da garganta do uruguaio. — Vocês nunca resolvem sozinhos as confusões que arrumam. Decerto, somos mesmo burros, pois atravessamos a fronteira para entregar a alma em peleias de bárbaros que nem conhecemos.

— Bárbaros, nós? — atacou-se Paulino. — Vocês que nos trouxeram a degola, com requintes de assustar, vão agora nos chamar de bárbaros? 

— Nem degolar vocês sabem fazer direito — gracejou Acuña. — Já vi gente sua, sargento, errar o talho por tremer a mão. 

— Estás nos chamando de covardes?

— Não sei. Talvez alguns tenham pena dos que vão morrer. Se tiver de ser morto por um brasileiro, espero que tenha vergonha na cara e não se apiede de mim.

— Posso te fazer esse serviço agora mesmo, Acuña. Assim, não correrás o risco de escapar. Coragem é o que não nos falta. 

— Sem dúvida, sargento. Basta pensar na maneira como alguns se salvaram em Poncho Verde. Vi gente rastejando que nem cobra nas macegas.

— Pena que não te esmagaram a cabeça quando te meteste assim a lamber o chão — empertigou-se Paulino.

      Luziram os facões. Já não éramos os sobreviventes de uma batalha militar, mas simplesmente os remanescentes do inferno limitado de uma derrota. Cada um nutria pelo outro um latifúndio de desconfianças inconscientes. Desapegados de tudo, em princípio, viam uns nos outros o bode expiatório a entregar às forças do além. Entregar, dado que não se tratava de delatar ou de trair, não é a boa palavra. A morte rondava e cada qual esperava não ser o escolhido. Paulino e Acuña enfrentavam-se como que numa antecipação do combate final. Quem sobreviveria? Escudos contra o destino, as diferenças sobressaíam. De repente, os campos intermináveis tornavam-se uma caixa pequena e opressiva onde sufocavam leões transformados em ratos.

      Retiniram os metais. Humanos, miseravelmente humanos, aqueles valentes se expunham precocemente à morte por causa de um inconfesso e incompreendido medo da morte. Já não havia termo capaz de exprimir as nuanças daqueles sentimentos imprecisos e profundos. Medo, de fato, eles eram incapazes de sentir. O temor que os devorava era apenas um instinto sem nome nem legitimidade. Estremeci. Acendeu-se uma luz num subterrâneo do meu coração. A morte pareceu-me, por um instante supremo, a libertação de uma aventura fadada ao esquecimento. O vento fazia oscilar os galhos dos salsos. A noite assobiava uma canção morna e repetitiva. Frente a espectadores imóveis, duas sombras dançavam na correnteza. Fecho os olhos e me revejo nesse momento que não existiu.

*

      Escrevi muito. Quando não criava, traduzia. Descontruí muitas verdades. Não surtiu efeito. Toda semana alguém me diz exatamente o contrário daquilo que mostrei ser falso. As mitologias resistem. Elas se reconstituem como um tecido que se regenera depois de danificado. O imaginário não deixa de ser uma ampla rede de fake news indestrutível.

*

Arranco folhas do corpo,

Aquilo que idade não poda

Cresce como semente nova

Até que exale o jasmim.

*

      Parabéns a Jeferson Tenório pelo prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira, por livro “O avesso da pele”.

 


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Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895