Inverno no Rio de Janeiro

Inverno no Rio de Janeiro

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 Por mim, passava todo inverno no Rio de Janeiro. Esperava o frio ir embora para retornar ao Rio Grande do Sul. Quando me pedem dicas sobre Paris, a única que não me recuso a dar é: a melhor época para ir é no fim de maio ou no começo de junho. Primavera, sol, temperatura pelos 25 graus, flores, alegria, a vida brotando por todos os lados, charme. Em julho e agosto faz um calor do cão. O inverno é deprimente. Sei que muitos discordarão de mim. Sem problemas. Conheço professores aposentados que fazem isso: mudam-se para o Rio de Janeiro em junho. Voltam em setembro. Quando eu me aposentar, tentarei fazer isso.

A minha intuição diz que velho não gosta de frio. Sei que não é uma verdade absoluta. Se fosse, não seria uma intuição. Passei da idade de crer em verdades absolutas, salvo a de que não há verdades absolutas. Encurto caminhos, pego atalhos, jogo com a vida. Só retenho o que interessa para as minhas teses menos sustentáveis. Passar o inverno no Rio de Janeiro tem riscos: não se tem certeza da volta. Sempre se pode tropeçar numa bala perdida. Nada de que se esteja livre em Porto Alegre. Tenho comigo que estatisticamente falando o Rio de Janeiro ainda é um lugar habitável, aprazível, civilizado, acolhedor e algumas coisas mais desta ordem e de outras menos cotadas. Vejo idosos passeando com seus cães e fico otimista. Ainda dá para sair às ruas sem guarda-costas.

Muito me falam das delícias do inverno: vinho, lareira, elegância e chocolate quente. São aspectos respeitáveis da vida civilizada. O verão, porém, tem a elegância da nudez, vinho branco ou rosé, espumante, sorvete de todo tipo e a climatização natural das noites estreladas. Gosto de chocolate. Mas não entendo a fissura dos chocólatras. Acho maracujá muito melhor. Assim vamos conversando. Eu conto uma coisa, falo de um gosto, confesso algo. O leitor diz outra. Identifico calor com vida. A falta da luz solar me deprime. Sou como uma planta. Eu me sinto mais vegetal do que animal ou mineral, ou seja, dependendo de fotossíntese ou algo assim que já esqueci.

Nunca andei no trilho da moda e das convenções por falta de tato e dinheiro. Outro dia, confessei que gosto mais de Tom Wolfe que de Philip Roth, mais de Michel Houellebecq que de Paul Auster, mais de Chico Buarque que de John Lennon, mais do futebol brasileiro que do europeu, mais de socialdemocracia que de neoliberalismo e comunismo, mais de calorão que de friagem. É verdade que contraditoriamente não entendo muito a moda das bermudas. Canela não sente calor nem frio. As minhas não sentem. Tanto faz cobri-las ou descobri-las com uma calça. Por mim o sol brilhava 18 horas por dia. Ficavam seis horas escuras para o sono.

O inverno é como um longo túnel suíço, como uma profunda estação de metrô sem aquecimento. Vejo os moradores de rua e fico apavorado. Penso naquela velha frase sobre o melhor dos mundos possíveis. Este!? Sei que é melhor termos estações bem definidas. Procuro me convencer racionalmente. Depois de três dias de inverno, porém, começo a exclamar: que inverno longo e rigoroso! Esse negócio nunca termina. Já estou certo de que este é o mais longo e gélido inverno da nossa história. Só pode ser culpa do resfriamento global. Ou do Temer.

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