João e Fux, dois brasileiros
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João e Fux, dois brasileiros

Unidos pelo destino, separados pela Previdência

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 João é um brasileiro comum. Trabalha duro. Perde empregos. Sonha. Acredita nas autoridades. É patriota. Ouviu o ministro Luiz Fux, do STF, afirmar que a reforma da Previdência é fundamental e que deve ser feita por amor ao Brasil e para combater os privilégios e as distorções. João ama o seu país como poucos. Na Copa do Mundo, enrola-se na bandeira nacional e chora quando ganha ou perde. Fux recebe R$ 33 mil mensais, fora os penduricalhos, não pode ser demitido, salvo catástrofe nacional, e não será atingido pela reforma da Previdência, pois está acima do bem e do mal, num espaço togado onde tudo é extraordinário. João dormiu a cinco anos da sua aposentadoria. Ganharia em torno de R$ 1.800. Acordou a dez anos do último dia de trabalho, com o benefício rebaixado para R$ 1.200.

      Fux tem rotina de trabalho, com os melhores vinhos importados e lagosta no vale-alimentação, garantida até os 75 anos de idade. João precisará ter sorte para não ser demitido na reta final de sua laboriosa vida profissional duplicada agora com um pedágio de cem por cento. Se não morrer na labuta ou sem ela, verá algum documentário sobre crustáceos e dar-se-á, como dizia o outro, aquele que foi presidente pela porta dos fundos, por feliz. Fux continuará dando cartas, conselhos, orientações e cardápios com otimismo e ternos impecáveis. João é ignorante, inculto, estudou pouco, ilude-se com facilidade e viaja na esperança por ser a única coisa gratuita de que dispõe. Ele achava que ministro do STF não podia fazer manifestações políticas. Mais uma vez, enganou-se. Ele se engana todo dia. Ou é enganadoi. Fux está no topo da pirâmide, diz o que bem entende, ele entende de tudo, ainda mais que será o próximo presidente do Supremo Tribunal Federal.

      João é homem razoável, dotado de bom senso, que confunde, muitas vezes, com o senso comum. Defende uma idade mínima para a aposentadoria.
Só não compreende a razão de um pedreiro se aposentar aos 65 anos de idade e um policial federal aos 53, ainda mais que existem os burocratas. Fux é a favor da reforma trabalhista e da terceirização, que, mais uma vez, nunca o atingirão, exceto, quem sabe, como patrão. João já trabalhou em terceirizadas. Homem simples e rude, não gostou da experiência. Sentiu-se desemparado quando a empresa sumiu. Era de fachada. Fux associa flexibilização e modernidade. João via na CLT a sua proteção. O cálculo do benefício da aposentadoria considerando 80% dos melhores salários, ou dos menos piores, era bom para ele. A nova fórmula, que não preocupa Fux, fará uma média de cem por cento dos salários e aplicará um redutor.

      Fux ganhará como sempre. João perderá. Também como sempre. João tem por sobrenome Silva, mas é simples João para os que lhe dão ordens. Só é Silva quando lhe cobram contas. Fux nunca é chamado de Luiz. São dois brasileiros. Um vive na disneylândia. O outro, num barraco. Um, considerado ninguém na cadeia alimentar, leva o país nas costas. O outro faz parte de uma das espécies mais adaptadas da evolução, o burocrata, o poderoso, o bacharel, o doutor, o juiz, o togado, também catalogado pelos certamente “ressentidos” como “homo cinicus”. João resmunga. Fux discursa. João erra. Fux pontifica. João padece. Fux decide. No trabalho, João não pode fazer manifestações políticas. Fux defende sua ideologia em palestras para os poderosos. João corre atrás. Fux anda sempre na frente. A reforma da Previdência coloca-os mais uma vez em campos distintos, o do perdedor e o do ganhador.