Kafta, o húngaro, e o ministro da Educação
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Kafta, o húngaro, e o ministro da Educação

Abraham Weintraub está desmontando a pós-graduação brasileira

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 Na última sexta-feira, no Esfera Pública, na Rádio Guaíba, que vai ao ar todos os dias das 13h10 às 15 horas, Taline e eu entrevistamos o ministro da Educação, Abraham Weintraub. Foi um “case” para estudos em Comunicação. Ele parece um sujeito muito à vontade com as suas gafes e com o seu estilo papo reto. De cara, afirmou que está sempre de bom humor. O barato da sua vida é provocar os “vermelhinhos que não são do Inter”. Enquanto falava, de Brasília, foi atrapalhado pelo barulho de uma sirene. Aproveitou para fazer piada: “Devem estar indo para o Congresso Nacional”. Diante da pergunta – tem muito ladrão lá?  –, desconversou com um riso maroto.

      De quebra, criticou a arrogância de especialistas em pedagogia, esculhambou, como gosta de fazer, Paulo Freire, destacando que sua única formação seria em Direito, com uma porção de doutorados Honoris Causa, que comparou a prêmios de participação, não de competição, e realçou a dificuldade das crianças brasileira com a ortografia. Nesse dia, porém Weintraub estava nos jornais por ter escrito “paralização”, em lugar de paralisação, em correspondência ao colega Paulo Guedes. O ministro da Educação assumiu o erro, mesmo alegando que o texto teria sido escrito por um subordinado. Várias vezes, referindo-se aos críticos do governo Jair Bolsonaro e à esquerda, usou o termo “tigrada”. Economista, a sua pedagogia é a canelada.

      Para mostrar que reconhece os seus limites e que não é vaidoso, lembrou um dos seus erros mais comentados: “Chamei de Kafta um escritor húngaro, o Kafka”. Advertido de que Franz Kafka era tcheco, safou-se com um “me enganei”. Definitivamente, o autor de “A metamorfose” não faz parte das referências literárias do ministro. Ele nunca deve ter ouvido falar em Gregor Samsa e na sua metamorfose em inseto. É um homem prático, caçador de comunistas, crítico em tempo integral do petismo e do seu legado ao país e determinado a salvar nossas crianças da doutrinação marxista e dos métodos não científicos aplicados pelos esquerdistas em economia e em educação.

      Na busca de analogias para facilitar a compreensão das suas ideias, que não apresentam grande dificuldade em função da simplicidade ou do simplismo, explicou que médicos tratam pacientes recorrendo à ciência, enquanto que outros preferem acreditar em “vodus”. O liberalismo econômico seria científico. O resto, puro vodu. Em termos cartesianos, científico é quem está no seu campo ideológico. Abraham Weintraub garantiu que não pretende expulsar os “vermelhinhos” das universidades públicas nem diminuir os seus ganhos, mas tratará de garantir espaço para quem pensa diferente.

      Para ele, as denúncias sobre cortes nas universidades são exageradas, alarmistas. As restrições nada mais seriam do que contingenciamento para cumprir a lei dos gastos e não expor o presidente da República a um crime de responsabilidade capaz de levar a processo de impeachment. Ao ouvir Weintraub pode-se ter a impressão de estar no labirinto de “O processo”, obra do tcheco Kafka – não confundir com o húngaro Kafta. O acusado não sabe a quem recorrer.

O folclórico Abraham Weintraub está desmontando a pós-graduação brasileira com os sucessivos cortes de bolsas. Tudo indica que é vingança contra a ciência.