La Rochefoucauld, domina o teu orgulho

La Rochefoucauld, domina o teu orgulho

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O que pode fazer um homem nascido em berço esplêndido? Agitar-se até poder refletir sobre a vida. François VI (1613 – 1680), duque de La Rochefoucauld e príncipe de príncipe de Marcillac, seguiu essa ideia: filho da alta nobreza, casou-se com uma prima aos 15 anos de idade, amou várias mulheres, fez intrigas perigosas contra poderosos, foi à guerra dos trinta anos quando tinha apenas 16, esteve preso na Bastilha, escreveu e renegou seu primeiro livro, publicou o segundo anonimamente e destilou fel e humor em suas frases certeiras, máximas feitas com o mínimo de palavras.

A prima deu-lhe oito filhos. As intrigas contra o Cardeal de Richelieu deram-lhe oito dias de cana na Bastilha, a prisão que seria tomada em 1789 pelos revolucionários. Durante a Fronda, a guerra civil que dividiu a França durante a minoridade de Luís XIV, La Rochefoucauld aliou-se aos revolucionários para agradar a amante, a duquesa de Longueville, que lhe deu mais um filho, batizado Charles Paris. Os campos de batalha deram-lhe muitos ferimentos e quase a cegueira. Cansado de guerra, retirou-se para escrever as suas memórias. A publicação fez tanto escândalo que ele negou a autoria. Na agitação que foi a sua vida, teve um caso com Marie de Rohan, senhorita de Chevreuse, foi confidente da regente Ana de Áustria e frequentador dos salões das marquesas de Sévigné e Sablé e da condessa de La Fayette.

Sobrou tempo para cortejar as senhoritas Scudéry e Montpensier.

Quem foi mesmo La Rochefoucauld? Um bon-vivant que sofria de gota e de humor ácido e cruel. Um rapaz que amava os clássicos, a política, as mulheres e as coisas do espírito. A vida nos salões mundanos garantiu-lhe vastos conhecimentos sobre as grandezas do luxo e as baixezas humanas, o que lhe forneceu munição para escrever as suas “Reflexões ou sentenças e máximas morais”. Influenciou com seus aforismas pessimistas dois caras que se fizeram um sobrenome: Friedrich e Emil, mais conhecidos como Nietzsche e Cioran.

Passou a história como moralista e memorialista, ou seja, escritor.

Orgulho e paixão – Se tudo o que se quer é ser feliz, o que mais atrapalha?

Segundo La Rochefoucauld, o amor-próprio. As nossas boas ações seriam sempre interessadas e interesseiras. Um comércio em troca de admiração. Quem já não citou esta máxima: “Hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”? Ou esta: “O amor-próprio é o maior de todos os aduladores”?

O homem, entre entediado e satisfeito com sua verve, metralhava o mundo com sua inteligência assassina: “Nossas virtudes são, o mais frequentemente, apenas vícios disfarçados”. Por que ficamos infelizes? Porque sentimos inveja, ciúmes e somos devorados por paixões violentas, fugazes e incontroláveis. Os gregos falavam para homens racionais. La Rochefoucauld só via fantoches das paixões: “A duração de nossas paixões depende tanto de nós como a duração de nossa vida”. As paixões cegam, imbecilizam, transformam e comprometem: “Essas grandes e deslumbrantes ações que ofuscam os olhos são julgadas pelos políticos como efeitos de grandes propósitos, sendo em geral do temperamento e das paixões.  Assim, a guerra de Augusto e de Antônio, que se atribui à ambição que tinham de se tornar senhores do mundo, talvez fosse apenas consequência do ciúme”.

Não estamos no comando de nós mesmos, parecia dizer todo tempo. Dá para ser feliz assim? Depende do que se entende por felicidade. La Rochefoucauld achava que a felicidade atraía mais felicidade e a infelicidade era um grande imã da infelicidade. Dinheiro chama dinheiro. Infelicidade chama infelicidade. Se não se tem dentro de si, não adiantaria ir procurar fora. Jogo duro: como passar a ter o que ainda não se tem? A felicidade dependeria do humor de cada um e da sorte. O olhar do moralista não era generoso: “A inveja dura sempre mais do que a felicidade de quem invejamos”. Precisamos relativizar: “Nunca se é tão infeliz quanto se crê nem tão feliz quanto se espera”. Por que choramos a morte de alguém? Segundo nosso moralista, para podermos chorar por nós mesmos. Todo tempo ele denuncia nosso egoísmo, nosso narcisismo, nosso amor por nós mesmos.

Através dos mortos, afirmava o nobre pessimista, choramos nosso destino, lembramos o quanto o falecido gostava de nós, assim como quando vibramos com a felicidade de um amigo esperamos que logo chegue a nossa vez. Choramos para que chorem por nós. Em vida. Que coisa! Tudo é tão sombrio assim? Depende de cada espírito, de cada personalidade, de cada percurso. Os velhos aposentados da época de La Rochefoucauld costumavam se retirar e escolher ocupações que pudessem dominar sem resistência como cuidar de plantas ou dos seus campos. Já não queriam controlar o mundo. Sabiam que muitos caminhos se tinham fechado. Depois de tantos amigos perdidos, havia menos ilusões com as amizades.

Era-se mais feliz assim?

Psicólogo antes da psicologia, freudiano antes de Freud, La Rochefoucauld sabia que há quem experimente felicidade na infelicidade, assim como se coce até sangrar pelo prazer sentido nessa bizarra operação.

Ele sugeria que para muitos a maior alegria consiste em passar a vida choramingando, queixando-se reclamando, vitimizando-se: “É um tipo de felicidade saber até que ponto se deve ser infeliz”. Velhos chegam a amar as doenças de que são vítimas e a dedicar-se a elas com devoção e carinho.

As máximas de La Rochefoucauld parecem dar mínimas possibilidades de felicidade a todos, ainda mais aos velhos. Por trás do discurso pessimista, contudo, surge uma luz: se o amor-próprio, o orgulho, a inveja e as paixões nos arrasam como tempestades, destruindo nossas melhores intenções, a paz de espírito, como uma forma de felicidade, não estaria justamente em domar esses monstros que habitam em nós? François La Rochefoucauld foi feliz.

O homem não era fácil nem queria sê-lo: achava a paz ou doçura de espírito pode ser uma boa, se não levasse ao tédio. O amor pode ser uma bela aposta, desde que a gente não imagine com a pessoa amada estará em alguns anos. La Rochefoucauld não resistia às boas frases que lhe pingavam da mente sem que precisasse invocar os deuses da inteligência. A sua felicidade maior parece ter consistido em descrever sombriamente a vida. E nós? Que podemos aprender lendo esse moralista? Talvez que não somos responsáveis por tudo o que nos acontece, mas também que as paixões são fugazes. Podemos nos controlar? Somos capazes de frear nossas vontades? Infeliz é quem não curte o nascer do sol só por saber que ele vai se por. Feliz pode ser quem sabe que a felicidade é passageira, mas real como a chuva, como as flores. La Rochefoucauld acharia piegas essa definição.

 

 

 

 

 

Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895