Manifestações deviam acontecer?

Manifestações deviam acontecer?

Jair Bolsonaro pediu que não houvesse aglomeração


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      Quando Hugo Chávez conclamava o povo a manifestar-se contra o parlamento venezuelano, a direita brasileira, com toda razão, denunciava a manobra autoritária, populista e antidemocrática. Quando Maduro recorre ao povo contra o sistema eleito, novamente com razão os democratas de direita reprovam a sua atitude golpista. Ao empurrar o povo brasileiro contra o Congresso Nacional, o presidente da República está abertamente praticando o “bolsochavismo”. Se fosse Lula ou Dilma, por exemplo, os mesmos que hoje apoiam o chamamento de Bolsonaro estariam falando em venezuelização do Brasil. E teriam inteira razão.

      Dizer que faz parte do jogo democrático um presidente estimular a população contra o parlamento, cujo crime é divergir do governo ou não votar as matérias do seu interesse, não passa de sofisma. Toda vez que um político tenta governar diretamente com o “povo”, sem a mediação dos representantes eleitos, flerta com o golpismo. Se quem fizesse isso fosse um presidente de esquerda haveria provavelmente abertura de processo de impeachment com base na lei 1.079, de 10 de abril de 1950, que prevê os crimes de responsabilidade do mandatário da nação. As manifestações previstas para este domingo têm um objetivo claro: intimidar o Congresso Nacional. Não deixa de ser engraçado ver deputados governistas, inclusive gaúchos, jogando contra a casa que integram, deixando vazar antigos e mal dissimulados sentimentos.

      A jornalista Vera Magalhães, do Estadão, revelou em primeira mão as conversas de WhatsApp de Bolsonaro apoiando as manifestações deste domingo. Passou a ser vítima de insultos dos bolsonaristas. O presidente também atacou a jornalista. Depois, sem o menor constrangimento, provando que ela estava certa, declarou publicamente o seu apoio aos atos deste domingo. O que quer Bolsonaro? O mesmo que Jânio Quadros queria em 1961: quebrar a resistência do parlamento aos seus projetos e ambições. Jânio escolheu mal a estratégia. Renunciou para tentar voltar nos braços do povo, que nem lhe acenou quando tomou o caminho do exílio. Bolsonaro tem tropa nas redes sociais. Não usa mesóclises nem pretende renunciar. O último presidente a usar mesóclises também não renunciou. Findo o mandato, dormiu na cadeia.

      Pelo que Bolsonaro está brigando com o Congresso Nacional? Por reformas cujos textos nem enviou ao parlamento? Pela liberação geral do uso de armas pela população? Pelo “direito” de falar o que bem entender sem ser constrangido pela Constituição? Na democracia, fazer política é a regra do jogo. A nostalgia de 1964 ronda o imaginário de muitos. A suposta perfeição do regime assentou-se neste tripé: política sob controle, censura à imprensa, não se podendo divulgar durante um bom tempo casos de corrupção, tortura e supressão de adversários. O atual regime não quer tanto. Ficaria contente em neutralizar o parlamento. Até agora o governo pediu muito e entregou pouco. Fez a reforma da Previdência para gerar crescimento, mas só gerou um pibinho sem sal. 


Neste momento de coronavírus, Jair Bolsonaro precisava pedir que não acontecessem aglomerações. Não era hora de medir popularidade.