Manifestações e país dividido
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Manifestações e país dividido

Brasil mostrou sua polarização em estado bruto

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Os analistas ditos sensatos adoram dizer como a sociedade deve ser. Acontece que a realidade costuma não se dobrar. Durante anos, em tom definitivo, ouviu-se que as pessoas estavam cansadas de polarização e que as ideologias estavam mortas. O mundo era outro. O passado fora enterrado. As manifestações de domingo, em favor do governo Jair Bolsonaro e em contraposição aos atos antigovernistas do último dia 15, provaram fartamente o contrário: o Brasil continua dividido como sempre esteve. De resto, parte considerável do mundo também. É ideologia contra ideologia, direita versus esquerda, uns contra os outros, sem disfarce. Realidade em estado bruto.

      As manifestações deste domingo não foram gigantescas. Nem pequenas. Se não deram vitória a Bolsonaro, também não lhe tiraram o fôlego. Na literatura política, jogar as ruas contra as instituições é recurso populista, coisa de Hugo Chávez e Nicolas Maduro. Quem nunca? Direita e esquerda sempre flertam com essa linha direta. Sobrou, pelo Brasil inteiro, para as lagostas do Supremo Tribunal Federal – uma casta indigesta e dada a oportunismos –, para o Congresso Nacional e para a mídia, que está acostumada. Não faltaram cartazes pedindo o fechamento do Congresso e do STF. Se não foram dominantes, apareceram. Sobraram faixas contra a corrupção, a favor de Sérgio Moro e do seu pacote anticrime represado nas comissões de Maia.

      Sim, de Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, o mais criticado dos “velhos” políticos. A oposição acusa os manifestantes de hipocrisia. Combateriam a corrupção sem citar o caso do filho do presidente da República, Flávio Bolsonaro, e do seu desaparecido faz-tudo Queiroz, ambos investigados pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. As manifestações confirmaram também um racha na direita: o MBL, que capitaneou os movimentos pela derrubada de Dilma Rousseff, não compareceu. Temeu a pauta antidemocrática. Foi atacado. Kim Kataguiri, o jovem líder do MBL, agora deputado pelo velho DEM, já recebeu o rótulo de comunista.

      Dia 30, tem mais. Qual será o tamanho do contra-ataque? Os opositores ao governo voltarão às ruas. Será o terceiro round. Para quem tem dúvidas sobre o que ainda separa e esquerda e direita, ainda que seja por ideologia, basta acompanhar cartazes e faixas de cada manifestação. As ruas dão aulas de ciência política. Mostram como os eleitores lidam com as ideologias. Revelam os sentimentos profundos da massa. Plasmam os desejos dos cidadãos. Cristalizam uma separação que não será superada tão cedo. Indicam que o Brasil é dividido por um fosso, um abismo social, cultural, econômico, político e ideológico. O resto é conversa para tentar induzir cada um a ser o que não é. A era das redes sociais não tolera pensamento mole. Requer atitude.

      Jair Bolsonaro ganhou a eleição por encarnar essa pegada ao gosto dos seus adeptos. O jogo político, porém, exige, certas vezes, mais jeito do que força. É essa sutileza que as ruas não toleram e contestam. Sutileza que pode atender pelo nome de toma-lá-dá-cá ou de negociação democrática. O passado brasileiro, contudo, não tem bons antecedentes. As ruas continuarão a roncar, rugir ou urrar. A divisão é um estado crônico. Os três poderes resolveram fazer um pacto pelas reformas. O STF assumiu-se como corte política? O legislativo capitulou? O executivo dará as cartas? Em Curitiba, manifestantes retiraram uma faixa em Defesa da Educação? O que isso sinaliza?

Numa semiótica simples, elogio ao ignorancialismo.