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Mercosul ganhou?

Acordo com a União Europeia enfrentará resistências

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Estive na França. Em Paris, em Montpellier e na campanha. Rodamos bastante. Conversei com intelectuais, com ecologistas e até com agricultores. O acordo firmado entre o Mercosul e a União Europeia foi recebido com surpresa. A aprovação não será fácil. A união entre ecologistas e agricultores, quando acontece, pode ser explosiva. O Brasil, por exemplo, tem péssima fama na Europa, acusado de desmatar a Amazônia e de produzir utilizando pesticidas (não são utilizados eufemismos) proibidos em agriculturas limpas. O jornal Le Monde resumiu assim a situação: “Em seis meses, o Brasil homologou 239 pesticidas, dentre os quais uma boa parte é classificada como tóxica ou altamente tóxica para a saúde e a ecologia”. Além disso, 31% deles estão banidos na Europa.

      Os agricultores franceses têm um argumento contundente: produzir sem pesticidas custa mais caro. Como ser competitivo quando as portas são abertas para quem se permite usar o que torna mais barato obter maiores quantidades de produtos à custa da qualidade, da saúde e do meio ambiente? O presidente francês Emmanuel Macron falou inicialmente grosso com o colega Jair Bolsonaro, exigindo a permanência brasileira nos acordos climáticos de Paris. Ao final, estava manso e cordato. Acontece que os franceses não parecem convencidos da súbita conversão de Bolsonaro aos cuidados com o meio ambiente. O jogo não está jogado. ONGs pedem boicote a produtos sul-americanos que não estejam conforme as normas europeias.

      O deputado verde Yannick Jadot, destacado pelo jornal Le Monde, declarou no twitter guerra ao acordo Mercosul-União Europeia. Para ele, é vergonhosa a atitude da Comissão Europeia de negociar com quem ataca a democracia, os LGBT, as mulheres, a Amazônia e libera pesticidas. Pode ser apenas uma postura ideológica, mas ela não é isolada. Christiane Lambert, presidente do principal sindicato agrícola da França, foi enfática no seu twitter: “Algumas semanas depois da eleição europeia, inaceitável assinatura de um acordo Mercosul–EU que vai expor os agricultores europeus a uma concorrência desleal e os consumidores a uma enganação total”. Como conciliar interesses tão diversos? Como fechar a conta? Como ir em frente?

      Os europeus querem produtos mais baratos. Um agricultor encontrou as palavras simples para revelar o seu desgosto: “Seremos os trouxas da história”. O Mercosul pode fazer como o time beneficiado por um erro de arbitragem e dizer que nada tem a ver com as polêmicas dos europeus. O problema é que tem o VAR. O acordo terá de ser confirmado pelos interessados. O clima vai esquentar. Como explicar a contradição criada: regras duras para produzir em casa; regras flácidas para produtos estrangeiros? Os verdes têm muito força no parlamento europeu. É verão na Europa. A temperatura tem chegado a 46 graus. É a tal da canícula. Muita gente vai refrescar a cabeça na montanha ou na praia. Franceses dividem-se em julhetistas e agostistas. Metade tira férias em julho. Outra metade, em agosto. Em setembro, estarão todos juntos fazendo manifestações. Aguardem.

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Hoje, 19h30, estarei em Campo Bom, no Sindicato dos Sapateiros, falando sobre Felicidade e Política.