Nos sertões do Velho Chico

Nos sertões do Velho Chico

publicidade

      Faz mais de 20 anos que eu venho ao Nordeste todo ano.

Já estive em todas as capitais nordestinas muitas vezes.

Sempre procuro conhecer um pouco mais. Nem Porto Alegre, onde vivo há quase 40 anos, eu conheço realmente. Então, prefiro dizer que estive nos lugares, não que os conheço.

Nunca tinha me imaginado escrevendo uma crônica com o sertão de Alagoas e o rio São Francisco na janela. É o que estou fazendo agora, instalado num hotel na cidade de Piranhas, no sertão alagoano. O Velho Chico me parece um enorme mistério. Como pode ser quase um mar em certos trechos e um cão tão magro em outros? O Velho Chico carrega um Novo Chico em seu curso por causa das seis hidrelétricas que abriga. Mas isso não explica todas as suas variações. Como consegue sobreviver no semiárido nordestino? Um rio em meio a uma paisagem seca e austera é como uma poesia feita de contrastes. Fomos à foz do São Francisco, em Sergipe, e aos cânions do Xingó. Este São Francisco rudemente sertanejo, porém, é o que mais me fascina. Essa beleza é singular.

Vou ferir sensibilidades: uma beleza que o Sena e o Reno não têm. Uma alma mais do que tropical. A temperatura é inclemente. As pessoas preparam-se para o carnaval nas ruas como se nem sentissem o calor. Essa alegria contagiante contrasta com a dureza do cenário e impõe uma determinação: uma alegria de viver, um vitalismo colossal. Escancaro a janela e deixo o ar quente entrar. O vento sopra um imaginário, um jeito de viver, uma solidão povoada de resistências. A vegetação rala agarra-se aos morros como se temesse despencar. Não conto novidades. Registro apenas o que a minha subjetividade recolhe.

Tenho a convicção de que nascer e crescer num cenário assim marca as personalidades das pessoas tanto quanto o Pampa se inscreve para sempre nos seus nativos. É uma tatuagem na alma. Acordarei de madrugada para ver o dia nascer nesta paisagem para mim irreal. Depois, brincarei de caminhar na rota do cangaço. Sei que é só turismo. O terreno e a temperatura, no entanto, são ardorosamente verdadeiros e realistas. Quando estive em Quelimane, em Moçambique, fiquei apaixonado pelo grande Rio dos Bons Sinais, que me pareceu um gigante triste. O trecho do Velho Chico que contemplo como se estivesse numa moldura não esconde certa melancolia.

São meus olhos?

Enquanto escrevo e me afundo imaginariamente nestas águas tão próximas, sinto algo estranho me invadir, um sentimento inesperado de exaustão: estou cansado dos homens e das suas racionalizações, das suas ideologias e dos seus ódios permanentes e irredutíveis. Estou saturado de ler coisas esdrúxulas como esta que vejo agora mesmo no celular: um juiz recebe auxílio-moradia de mais quatro mil reais e é dono de 60 imóveis em São Paulo. Ele se justifica alegando como uma criança que os outros também recebem e que vale como reposição de salário. É correto tomar uma coisa pela outra? Não frauda a moralidade pública? Por aqui, nestas margens antigas, a quantia em questão é uma fortuna incomensurável. O Velho Chico não lava esse tipo de vergonha.

Cinco Estados na sua longa travessia desde Minas Gerais, 168 afluentes, o São Francisco padece. O homem pode destruí-lo. Quem conseguirá deter a sanha do chamado “progresso” sem ser rotulado de anacrônico ou de ecologista sem os pés no chão? Que linda fotografia.

Uma fotografia do imaginário.

Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895