O acaso em nossas vidas
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O acaso em nossas vidas

Leonard Mlodinow e as circunstâncias fortuitas

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Leonard Mlodinow é autor de três best-sellers sobre neurociência: “O andar do bêbado: como o acaso determina nossas vidas”, “Subliminar, como o inconsciente influencia nossas vidas” e “Elástico, como o pensamento flexível pode mudar nossas vidas”.

Recomendo todos. São deliciosos. Em “O andar do bêbado”, ele conta uma bela anedota: um espanhol acertou na loteria. Lacrou o 48. Como foi que acertou? Segundo o próprio, por ter sonhado com o número sete durante sete noites. Que método usou para chegar ao número sorteado? Multiplicou sete vezes sete. Uau! Precisa dizer mais?

A sociedade atual trouxe de volta a crença, em titês (linguagem do Tite, treinador do Brasil), na “calculabilidade” de tudo. Brinco com os comentaristas de futebol que chamo de neotáticos: eles acreditam que tudo é calculado pelo treinador. É uma herança dos videogames. Quando, recentemente, um lateral cobrou improvisadamente o escanteio que resultou na classificação improvável do Liverpool contra o Barcelona, o comentarista brasileiro neotático enlouqueceu. Jurou que o lance só podia ter sido ensaiado pelo treinador. O futebol é um grande campo para a neurociência. Os torcedores são os últimos positivistas. Acreditam em fatos nus e crus, endeusam especialistas e creem na certeza científica.

Mlodinow informa: “Nos esportes, criamos uma cultura na qual, com base em sensações intuitivas de correlação, o êxito ou o fracasso de um time é atribuído em grande medida à competência do técnico. Por isso, quando um time fracassa, normalmente o técnico é demitido. A análise matemática das demissões em todos grandes esportes, no entanto, mostrou que, em média, elas não tiveram nenhum efeito no desempenho da equipe”. A crença no poder do cérebro organizador, porém, prevalece. Ela é forte.

O próprio Mlodinow sugere uma explicação: “Nadar contra a corrente da intuição é uma tarefa difícil. Como veremos, a mente humana foi construída para identificar uma causa definida para cada acontecimento, podendo assim ter bastante dificuldade em aceitar a influência de fatores aleatórios ou não relacionados. Portanto, o primeiro passo é percebermos que o êxito ou o fracasso pode não surgir de uma grande habilidade ou grande incompetência, e, sim, como escreveu o economista Armen Alchian, de ‘circunstâncias fortuitas’. Os processos aleatórios são fundamentais na natureza e onipresentes em nossa vida cotidiana”. Em geral, o time não ganha por ter demitido ou mantido os técnicos – eles fazem praticamente o mesmo trabalho –, mas em função de uma série de elementos imprevisíveis.

O planejamento diminui a margem de erro. Não garante o sucesso. Os treinadores mais experientes sabem que precisam usar como argumento de venda dos seus serviços a cientificidade do que fazem. Feito isso, contam com a sorte e não dispensam superstições. Vez ou outra, erram no cálculo e ganham na loteria. O torcedor que diz que o seu oponente não entende nada é o que menos entende. Não sabe que confunde sua crença com racionalidade. Edgar Morin já havia dito tudo o que Mlodinow conta. Só que em francês.