O centenário do Zorro
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O centenário do Zorro

Personagem de capa e espada ainda anda por aí

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Um dos personagens mais conhecidos da história mundial dos quadrinhos, Zorro, o de capa e espada, o do cavalo negro Tornado, do mordomo mudo Bernardo, o perseguido pelo Sargento Garcia, faz cem anos. Eu sempre preferi o outro, o que não era Zorro, mas passou também a ser por aqui, o amigo do índio Tonto, o do cavalo branco Silver. Por quê? Não sei. O Zorro, identidade secreta de Don Diego de La Veja, nasceu em 9 de agosto de 1919, criado por Johnston McCulley.

      Volta e meia, alguém tenta ser o Zorro na dita vida real, que é uma ficção escrita a cada dia e apresentada na televisão. O herói combatia a corrupção, defendia a dignidade humana e enfrentava os desmandos dos poderosos. Sérgio Moro e Deltan Dallagnol encarnaram nos últimos anos, em dueto, o Zorro brasileiro. Como o Brasil carnavaliza tudo, as revelações do site The Intercept estão arrancando as máscaras dos nossos heróis. Eles não viram bandidos. Mas aparecem como adeptos de métodos alternativos. O sargento Garcia nunca prendeu o Zorro. Moro e Dallagnol fizeram o que parecia impossível: prenderam Lula. Há quem diga que entre nós o desafio maior seria prender Aécio. Ou o Queiroz.

      Nos dias atuais, Don Diego de La Vega teria a sua identidade revelada rapidamente. Não escaparia da câmera de um celular ou da curiosidade de um hacker em busca de fama ou dinheiro. Na série da Disney que consagrou definitivamente o cavaleiro mascarado, a música informava sobre as suas atribuições: "Em um cavalo subindo a montanha, vem chegando então o Zorro/Por onde passar, a justiça se fará, deixando a marca do Zorro!" Não cabia recurso. Não trancava no STF. Quando Zorro voltava para casa, a sentença transitava em julgado. Zorro era, como o nome em espanhol indica, uma raposa, mas não cuidava do galinheiro nem dava palestras. Também não participava de jantares em trajes casuais. Era de uma moral estrita e discreto como um poste.

      Bernardo, o fiel mordomo, fingia-se de surdo para ajudar nas apurações, mas, mudo, não produzia qualquer tipo de vazamento. Não consta que Garcia tenha encontrado qualquer conversa secreta comprometendo a biografia do nobre justiceiro. Pensando bem, os métodos do Zorro não eram muito ortodoxos. Dúvidas: seria o Zorro um adepto da ideia de que os fins justificam os meios? Teriam Deltan e Moro lido e visto muito o Zorro quando crianças? Não creio. Don Diego não gostava de holofotes nem dava entrevistas. Moro e Deltan adoram aparecer. O procurador, segundo uma das suas conversas reveladas pelo The Intercept, chegou a mesclar conteúdo e entretenimento no programa do Jô Soares para encantar o público e conquistar mais audiência.

      Passados cem anos, o destemido Zorro, com o sargento Garcia na sua cola, cavalga sempre em nossa imaginação. Deltan e Moro já terão esgotado os seus 15 minutos de fama e glória? Há 15 anos, o Zorro brasileiro era negro e integrava o STF: Joaquim Barbosa. Ninguém mais fala dele. Pela discrição do personagem é de imaginar que seja o verdadeiro Don Diego tropical. Nunca confundir de La Vega com de Las Vegas. A vida virou um cassino. Perde-se e ganha-se em segundos.

Zorro não é o Fantasma, mas ainda anda por aí.

A bala de prata era do outro, mas este, com sua capa e espada, tinha o coração de ouro. Mora para sempre na imaginação dos que com eles conviveram.

Como eu.