O ocaso de Ronaldinho

O ocaso de Ronaldinho

Craque vive crepúsculo paraguaio


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      Não paro de pensar no caso dos passaportes paraguaios de Ronaldinho e de seu irmão Assis. Conheci Assis no começo da sua carreira. Eu era repórter esportivo e cobria o dia a dia do Grêmio. Na primeira vez que vi Ronaldinho ele devia ter uns sete anos de idade e espichava-se para tentar acertar uma bola numa mesa de sinuca. Essas lembranças me levam a ter sempre certo carinho por esses irmãos talentosos que saíram da pobreza para a riqueza graças ao futebol. Além disso, Dona Miguelina, mãe de Ronaldinho e Assis, trabalhou na cozinha da escola da Cláudia, minha mulher, durante muitos anos. Enfim.

      Por que alguém que está de posse do seu passaporte nacional usa um passaporte estrangeiro falso para entrar num país no qual poderia ter ingressado com uma simples carteira de identidade? Não li em lugar algum na mídia qualquer hipótese capaz de servir de resposta razoável. Seria um treino para alguma urgência futura? Adultos conscientes, em princípio, não apresentam documentos falsos a autoridades. O mais perto que se chegou de uma explicação foi a de que os irmãos teriam pedido para ser naturalizados paraguaios. Mas eles teriam negado. O que me chama a atenção é a falta de questionamentos e reflexões na imprensa.

      Confesso que fiquei acabrunhado ao ver a foto dos irmãos algemados. Ronaldinho é um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos. As imagens que guardo dele são quatro: a da mesa de sinuca já citada, a do chapeuzinho no Dunga, num Gre-Nal, a do gol contra a Venezuela, o seu primeiro pela Seleção, e a do famoso gol contra a Inglaterra, aquele que suscita dúvidas: ele teria cruzado ou chutado a gol? Lembro-me de ter encontrado Assis em Paris nos anos 1990. Perguntei-lhe pelo pai. Com ar compungido, ele me respondeu em francês:

– Il est mort.

      Apesar de todas as polêmicas envolvendo os dois, guardei esses flagrantes do passado. Não fui amigo deles. Quem sou eu para isso! Já falei aqui de outra lembrança: Assis voltando da Itália, sendo carregado do aeroporto na carroceria torta de um caminhão, um monte de gente entrando na casa humilde e parte dela cedendo. Eram os tempos do chamado à aventura. Depois, veio a ascensão, a glória de Ronaldinho e a mitologia. Tudo isso não casa com passaportes paraguaios falsos, algemas, silêncios e transferências de responsabilidade. Que lance foi esse? Que bola fora foi essa? Que gol contra. Que triste canelada.

      A mídia parece constrangida. O herói entra em decadência, afunda-se em processos judiciais, patina. O povo que o admira só pergunta uma coisa: por que tudo isso, com tanto dinheiro? Talvez, quando o leitor estiver terminando este texto, tudo já esteja esclarecido. Não é disso que trato. Ocupo-me dos pensamentos que tenho tido sobre o caso. Malandragem ou burrice? A consciência brutal retruca: crime. Insiste: pode alguém apresentar voluntariamente um passaporte falso, não tendo direito a esse documento, sem ter conhecimento da sua falsidade? Era tão mais interessante só pensar nos gols e dribles de Ronaldinho.

No Paraguai ele sofre por sua incompetência existencial, mas também é vítima de uma espetacularização policial e judicial. Para que algemas?


Mais do que tudo, Ronaldinho é prisioneiro da sua eterna imaturidade.