Vista de Penedo

Pérola barroca

Penedo, à margem do São Francisco, é uma joia brasiliera

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 Encontro um conhecido que eu não via desde tempos imemoriais. Ele está numa fase europeia radical. Quer ir embora para Portugal. Dispara:

– Por que não fica na França?

– Sou brasileiro.

      Ele não se conforma. Não lhe entra na cabeça que um brasileiro queira viver no Brasil. Desconverso. Aí ele me pergunta de supetão:

– Que achas de Annecy?

– Um lugar lindo.

– Já foste lá?

      Resolvo dar o troco. Um dedo de provocação não mata. Solto:

– Que achas de Penedo?

– Penedo?

– Em Alagoas.

– Só faço a Europa.

      Então eu desando a falar como se fosse uma máquina desgovernada. Digo que Penedo é uma pérola barroca, rugosa, às margens irisadas do Velho Chico, cujas águas, apesar da perda de oito metros, espalham vida e espelham o céu com algumas nuvens. Explico que Penedo é uma cidade capaz de botar muitas das joias europeias no bolso. Garanto que não encontro termo para qualificar a paisagem que não seja o francês “paisible”. Mas aceito me referir ao cenário como suave, doce, majestoso sem pompa, mescla perfeita entre natureza e cultura, obra de arte. Afirmo que o teatro Sete de Setembro, com seu coração italiano em forma de ferradura, nada deve ao São Pedro. Comento que o altar da igreja Nossa Senhora da Corrente, do século XVIII, com seus folheados a ouro, é uma página da maestria estética humana. Não por acaso o historiador Germain Bazin teria qualificado esse templo de “o mais belo do Brasil”. Isso li foi no folheto turístico.

      O importante é que vi com meus olhos. Vi o oratório dos condenados à forca, onde fujões e preguiçosos, esses seres que tentavam escapar à tortura do trabalho, podiam orar antes de morrer fora da cidade. Vi a Casa da Aposentadoria, que era de aposentos para ouvidores. Vi o convento dos franciscanos, a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, onde negros ganhavam direito de falar com Deus, o Museu do Paço Imperial, onde D. Pedro II dormiu duas noites, na época em que o sobrado pertencia à elite do São Francisco, deixando rastros de sofisticação, de móveis e pratarias a imagens do imperador no auge do seu garbo. Vi a esplêndida igreja de São Gonçalo Garcia dos Homens Pardos. Vi as bordadeiras trabalhando, a população comprando na feira de sábado, os pescadores lembrando dos tempos de fartura de peixes, ouvi moradores do Barro Vermelho recordando das quatro fábricas dos grandes tempos, da plantação urbana de arroz até para exportação, do Círculo Operário pujante, que também visitamos. Tudo isso.

      Meu conhecido quase bocejava. Eu jorrava mais. Se ele me falava do lago de Annecy, eu rebatia com odes ao Velho Chico, gigante aturdido por hidrelétricas, pela transposição das suas águas e por muitas outras maldades que o homem de negócios chama de desenvolvimento ou de progresso. Falei da catedral diocesana, das trinta e seis igrejas de uma cidade de 60 mil habitantes, das suas festas, das suas comidas, da sua arte, da sua imponência sem arrogância, das suas noites frescas e dos seus dias quentes, dos barcos singrando um mar de água doce sem pressa nem tristeza.

Pedra de cantaria – Eu me lembrava ainda de tudo o que lera e do que me contaria o guia à sombra das mangueiras, um alagoano apaixonado por sua terra e por suas pérolas de imenso valor. O meu conhecido fazia cara de entediado. Eu me animava ainda mais. Soltei uma verdadeira dissertação quase poética sobre negros cantando e talhando pedra, pedra de cantaria, arte de sofrimento e de extrema precisão, homens orando antes de marchar para a força, a elite do sertão martirizando seus escravos, árvores tombando para servir de vigorosas linhas der sustentação de telhados, tudo à beira do rio imortal. Até quando? No Brasil, até a imortalidade morre.

      Aí me lembrei dos cartazes na parede do restaurante dos filmes de aventura que passavam no Cine Penedo. Fiz outra manifestação. Declarei meu amor ao Nordeste, ao litoral, ao sertão, ao Velho Chico, aos cactos, aos jegues, aos barquinhos, a Sergipe, do outro lado do rio, à cultura popular, a esses homens como meu pai, meus tios, meus parentes. Foi então que me veio à memória a rua dos Banheiros, primeira via de Penedo, descendo do alto para o rio, por onde corriam os excrementos dos moradores, e as casinhas restauradas pelo município ou pelo Estado, mas com as portas concretadas, pois as de madeira nobre foram roubadas, e pensei nos holandeses assediando Penedo, que se defendeu e ganhou. Meu conhecido falou algo sobre gastronomia e eu lhe disse que comi jacaré, mas jacaré criado em cativeiro, que achei com gosto de lagosta ou de frango.

      Meu conhecido ainda falou em ir embora. Concordei com ele. Também quero me mudar. Para Penedo. Quero escrever olhando para o Velho Chico.

– Só faço a Europa – repetiu meu conhecido.

– Vira-lata – eu gritei, em pensamento.


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895