Pelo interior do Rio Grande
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Pelo interior do Rio Grande

Viagens para espalhar livros

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Tenho viajado muito pelo interior do Rio Grande do Sul para falar de livros, de cultura, de jornalismo, de política, de Brasil, de preconceitos, da necessidade de tolerância.

Estive em Três Passos, na semana passada, participando do seminário Cidadania, Democracia e Direitos Humanos, na Unijuí, promoção da Câmara Municipal de Vereadores. Minha quarta fala na cidade. Recebi, na ocasião, o “Diploma de Honra ao Mérito”, por iniciativa do presidente da Câmara de Vereadores, Vinícius Araújo, uma homenagem, entre outros aspectos citados, pelo meu “intenso trabalho literário e de pesquisa”. Em Três Passos, já fui patrono da Feira do Livro, a Fetreli, já lancei livro sobre a Legalidade e sobre o golpe midiático-civil-militar de 1964.

      A gente ignora boa parte das coisas que são feitas nas cidades do nosso interior. Em Três Passos, o Cine Globo, com fachada restaurada, funciona ininterruptamente há 65 anos, sempre administrado pela família Levi. Quantos lugares ainda possuem um cinema pujante com porta para a calçada, entusiasmo e ótima programação? Está passando, no momento, entre outros filmes, “Coringa”. Tem muito público. Um coletivo local, o Pró-Arte, realiza um festival de cinema, que está na quinta edição. Recebeu 700 curtas para seleção. Para a mostra competitiva foram selecionados 60. Acontecerá de 5 a 9 de novembro. Participam realizadores de toda parte.

      Essa pulsação, essa efervescência, nem sempre é destacada. O coletivo Pró-Arte é composto por voluntários. A ideia é fomentar a cultura, dinamizar a cidade e sentir prazer. Cultura faz pensar, viver e sentir prazer. Quem vive fazendo isso, com paixão, sabe. Vira razão de existir. Fui de manhã. Voltei de madrugada. Quase mil quilômetros com uma interrupção: a visita, a palestra e o breve convívio com amigos constituídos nessas quatro visitas, o Vinícius, o Clóvis Machado. Valeu a pena. Estudantes e professores calorosos. Perguntas interessantes. Preocupações pertinentes com o presente e com o futuro do Brasil.

      Na viagem de ida, nos intervalos das boas conversas com o motorista Maurício, li uma centena de páginas de um romance fascinante, “Torto arado” (Todavia), do escritor baiano Itamar Vieira Júnior. Uma história de negritude, espoliação, sonhos e luta pela sobrevivência. Gosto dessas viagens rápidas, frenéticas, cansativas para um velhinho quase sexagenário, obrigado a trabalhar mais dez anos pela reforma da Previdência, enriquecedoras. Levo, para o retorno noturno, uma mantinha para colocar nas pernas, que é onde o frio sempre me pega. Durmo. Conheço de cor a quilometragem da 386. Ela desemboca na 448 no quilômetro 440. Vez ou outra, olho uma plaquinha e sei automaticamente a que distância estou de casa, onde entro como um gato para encontrar a Cláudia quentinha.

Estive em Nonoai neste semana, na primeira feira do livro do Município, obra de idealistas com o professor Nelso, como a Gabriela, tantos outros.

Nonoai, como se diz, fica no teto do Rio Grande.

Região de muita produção, de devoção religiosa e culturas indígenas.

      Assim é a vida. Assim tem sido a vida. Outro aspecto legal das viagens de carro é ter tempo para degustar a programação da rádio Guaíba. Ouvir o Nando, a Ananda, o Ganhando o Jogo, a Taline, o Gutieri, Samanta. Talvez por isso eu esteja sempre a três passos de uma nova viagem. Pé na estrada, música na alma, amigos por toda parte, livros como pontes, ideais como passarelas.

Enquanto isso, o Brasil se esfarela. Tudo que parecia sólido pinga como goteira.

Até quando?