Por música

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Vivendo em letras e notas

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    Então ela sorriu como havia muito não sorria e disse como se desde sempre quisesse dizer o que lhe vinha finalmente com tanta naturalidade:
– Explode coração.
    Ele se ajeitou na cadeira como se procurasse a posição mais confortável de toda a sua vida, não tão longa, mas intensa, e sussurrou:
– Não dá mais pra segurar.
    Estavam na longa estrada do amor desde quando se sentiam jovens e corajosos, época em que tudo lhes parecia possível e a felicidade era uma calça velha azul e desbotada e tudo o que se queria era um cantinho, um violão, detalhes tão pequenos como uma casa no campo ou um mato com gosto de framboesa pra correr entre os canteiros enquanto os anos ainda não passavam e roubar-te um beijo, sem forçar o momento, fazia parte de uma verdade, a mais pura verdade de quem já havia perdido a noção da hora e juntos jogado tudo fora. Enfim, a banda tinha passado e não voltaria mais.
– Outra vez.
– O quê?
– Nós chegamos ao fim.
    Ela se ajeitou na cadeira como se desse gesto dependesse o seu futuro, o seu destino, o resto de sol no mar diante do qual contemplavam as velas lembrando de uma canção de Belchior e Fagner e viam o trem azul desaparecer na esquina do tempo apagando estrelas e cavaleiros no céu. Cantarolaram desafinados e se consolaram em tom de bossa nova enquanto Teresa da praia e Joana francesa desapareciam no calçadão das lembranças.
– Você vai lembrar de mim?
    Ele sorriu com o seu melhor sorriso, sabendo que já não era o mesmo da época das curvas da estrada de Santos nem das jovens tardes de domingo, quando as rosas apenas exalavam o perfume roubado de ti, e confessou:
– Na parede da memória você já é a lembrança que mais dói.
    Foi a vez de ela sorrir. Não, rir mesmo. Sabia que aquela confissão soava falsa, sofrimento antecipado, mentira sincera, cantiga de ninar. Então se viram como um dia haviam sonhado, apenas um rapaz latino-americano, leãozinho, menino do Rio, calor provocando arrepios, cabelo ao vento, gente jovem reunida, coisas assim. Só que o tempo já não era o mesmo e cada um podia pesar os anos passados distantes da gente da sua rua.
– Peça a alguém para me contar sobre o seu dia.
    A vida era arrastão. Como, porém, saber de tudo antes de ter vivido, de ter feito com o próprio braço o seu viver? Sim, a vida era travessia, luar do sertão, casinha de sapê, lembrança de um tempo em que ele cantava:
– Meu limão, meu limoeiro, meu pé de jacarandá.
– E você repetia sem parar o refrão que me arrancava risos intermináveis: uma vez, esquindô lelê, outra vez, esquindô lalá.
– Você queria saber o que isso significava e não tinha significado.
– Agora sei o quanto significava.

Cantiga de roda
    
Tudo parece dito, mas há sempre um interdito, algo que se esconde sob um poema todo sujo de batom ou de uma história perdida nos jardins da solidão, nos confins da lua, da qual sobra inteiro um fragmento cruel:
“Bela, bela Mais que bela Mas como era o nome dela? Não era Helena, nem Vera Nem Nara, nem Gabriela Nem Tereza, nem Maria Seu nome, seu nome era
Perdeu-se na carne fria Perdeu-se na confusão De tanta noite e tanto dia Perdeu-se na profusão Das coisas acontecidas...”
    Era sempre ela que cantava a segunda parte como se tivessem ensaiado em algum momento da vida num jogo de duas vozes silenciadas pela sorte.
“Mudou de cara e cabelos Mudou de olhos e riso Mudou de casa e de tempo Mas está comigo
Perdido comigo Teu nome Perdido comigo Em alguma gaveta”.
    Foi assim quando a poesia realmente fez folia em nossa vida.
A gente vivia e falava por música sem saber que já era tarde.
– Chega de tentar dissimular.

 


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DESDE 1º DE OUTUBRO 1895