Serotonina é tristemente belo
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Serotonina é tristemente belo

Romance de Michel Houellebecq é genial

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      Quase todo dia alguém me perguntava: “Gostaste do último livro do Michel Houellebecq?” Eu não o tinha lido. Nesta passagem por Paris, fui direito do aeroporto para a livraria Gibert Joseph. Comprei “Serotonina”. Li aos poucos. Não se deve consumir os livros de Houellebecq de uma vez só. Doses grandes demais podem provocar alucinações. Dez ou vinte páginas por dia é o adequado. Diagnóstico: simplesmente genial. Como sempre. Michel Houellebecq é o melhor de todos, no mundo, atualmente. Cada livro seu envolve um drama individual imerso numa grande questão social. Já foi a solidão e as revoluções tecnológicas, a sexualidade e o consumismo, a busca de referências e o terrorismo, a perda de sentido e a eutanásia.

      Desta vez, é simplesmente a depressão. Michel Houellebecq é um escritor social. Daí o seu imenso sucesso. Nunca fala do seu umbigo. Disseca o mundo em que vivemos com suas dores e tragédias. “Serotonina” é genialmente doloroso e triste. É de ler chorando. Trata da vida de um homem devorado pela depressão em meio ao contexto social da globalização e da crise da agricultura francesa em função das regras, acordos e metas da União Europeia. Como sempre, não parece literatura. É só a vida. O leitor vai encontrar o humor típico do autor, a sua visão politicamente incorreta, as suas provocações, que enfurecem o mundo cultural feito de modas sofisticadas de estação, e sua análise sociológica contundente.

      O livro poderia ter até subtítulo: como se produz o desespero no apogeu da sociedade tecnológica e materialista. O personagem não tem problemas financeiros. O que lhe falta é apenas uma razão para viver. A química farmacêutica garante-lhe um prolongamento da vida. Só não lhe oferece emoções nem desejos. O medicamento, um poderoso antidepressivo, “um pequeno comprimido branco, oval, divisível”, 10 ou 20 mg, “ajuda os homens a viver ou, ao menos, a não morrer, por algum tempo. A morte, contudo, acaba por impor-se”. Esse é o tom. A depressão do personagem e narrador do romance não é o produto exclusivo de uma crise de civilização ou trauma. Resulta de uma disfunção orgânica, cerebral, que se agrava com a solidão. Michel Houellebecq não cansa de repetir que acredita no amor.

      Nada mais estranho do que ainda questionar a qualidade literária de Houellebecq. O que ele faz é encarnar em personagens os nossos medos e dramas mais pessoais e, ao mesmo tempo, sociais: o que estamos fazendo? O que ainda podemos desejar? Por que fazemos o que fazemos? Como sair dos buracos em que a vida nos mete? Michel Houellebecq alia escolhas temáticas precisas com comentários judiciosos, ironia devastadora e descrições exatas de coisas vividas por qualquer um. Quando descreve os dilemas de um agricultor francês, a gente sente o cheiro da terra e das vacas no estábulo. Quando fala de uma arma, sente-se a frieza do metal.

      Há uma poética da melancolia que faz da descrição de um dia cinzento um quadro expressionista. Tem razão quem rotula Michel Houellebecq de entomologista. Somos insetos observados por ele. “Serotonina” é um dos livros mais belos e tristes que li. Pura dor.