Sinais de lealdade

Sinais de lealdade

Estratégias de adesão e confirmação de apoio

publicidade

    Prêmio Nobel de economia, Paul Krugman é aquele cara que incomoda os neoliberais por uma razão muito simples: não pode ser neutralizado com o rótulo de ignorante na matéria. Ele nega todos os clichês da direita em economia, a começar pelo papel do Estado. Mas essa é outra conversa. Em artigo recente nesses jornais que lhe dão espaço, como o New York Times, baseado num estudo de Xavier Márquez, “Os Mecanismos de Produção de Cultos”, Krugman fala dos sinais de lealdade emitidos pelas elites em relação aos seus líderes e guias. Em todos os tempos, em qualquer tipo de regime, um padrão aparece: a bajulação extrema, chamada de “inflação da lisonja”, para indicar o quanto se é fiel ao poderoso e o quanto se pode fazer por ele.
    Paul Krugman resume essa “sinalização”, conceito que “dispõe que as pessoas às vezes se engajam em comportamento dispendioso e aparentemente despropositado como forma de provar que têm atributos a que os outros conferem valor”. Se aquele a quem se quer provar lealdade defende absurdos, o súdito leal repete esses disparates. Se o chefe apoia remédios considerados ineficazes por grande parte dos cientistas do mundo inteiros e por entidades como a Organização Mundial da Saúde, para mostrar lealdade, inflacionando a bajulação, até profissionais da área em questão passam a propagar a sabedoria do condutor. Danem-se as evidências. O importante é amparar o líder.
    Demonstrações de lealdade são apostas numa bolsa de valores. Há quem invista no mercado futuro. Quem apoia um candidato azarão e chega com ele ao poder recebe as melhores recompensas. Quem lhe dá sustentação pública na contramão da tendência desbanca rivais, elimina concorrentes, abre espaços antes indisponíveis e ganha acesso aos benefícios disponibilizados pelo guru, inclusive, claro, ele mesmo. Há quem mude de posição ou adapte a sua ao ver o cavalo passando encilhado. Como o cavalo não passa duas vezes, alguns se apressam.
    Paul Krugman questiona: “Como é que vacinas destinadas a salvar vidas foram politizadas? Jonathan Bernstein, da Bloomberg, aponta que os republicanos atuais estão sempre em busca de maneiras de provar que seu comprometimento para com a causa é maior que o de seus colegas — e se considerarmos até que ponto o partido já afundou, a única maneira de fazê-lo, agora, é ‘insensatez e niilismo’, e a defesa de políticas loucas e destrutivas como a oposição às vacinas”. A lealdade exige ir sempre mais longe. A oportunidade gera oportunismo. Todos se atolam. Se Nero põe fogo em Roma, a lealdade manda aplaudir as labaredas. Para aquele que deve lealdade existe verdade absoluta: aquela que coincide com os delírios do amado mestre. O resto é só intriga da oposição.
    Seria por lealdade que o ministro da Defesa, general Braga Neto, teria mandado recado à Câmara dos Deputados condicionando as eleições de 2022 ao voto impresso? Conclusão de Krugman: “Os republicanos criaram para eles mesmos um reino político no qual demonstrações dispendiosas de lealdade transcendem as considerações da boa política ou mesmo da lógica mais primária. E todos nós talvez tenhamos que pagar o preço”. Ainda bem que isso é só lá com esses estadunidenses.


publicidade

Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895