Sobre o grande Aldir
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Sobre o grande Aldir

Compositor partiu cedo

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      Sou fã de muita gente. Admirador de muitos gêneros, estilos e artes. Um eclético. Ando cada vez mais encantado até com talentos que antes não me deslumbravam. Divido os grandes criadores musicais em duas categorias bizarras: os que eu levantava para procurar um disco (na época do vinil) e os que, embora gostando muito, não me dava o trabalho de sair de cadeira, esperando que, cedo ou tarde, tocassem no rádio. Aldir Blanc, que o coronavírus levou nesta semana, aos 73 anos de idade, era do primeiro grupo. Sou louco pelas suas parcerias com João Bosco. Aldir era poeta em todos os sentidos possíveis dessa bela palavra. Incendiava a cultura com suas sacadas. Fazia tudo mais lindo.

      Um cara que, médico que largou a profissão por se sentir impotente diante das mazelas humanas, botou o seu nome em composições como “O bêbado e a equilibrista”, “Resposta ao tempo”, “Amigo é pra essas coisas”, “Dois pra lá, dois pra cá” e “Corsário”, para não encompridar demais a lista, não foi pouca coisa. A vida pregou-lhe peças: perdeu filhas gêmeas recém-nascidas, sofreu acidente que lhe endureceu uma perna, passou a enfrentar fobias variadas, recuou para um mundo de grande isolamento, com muitos livros e poucos, mas queridos, amigos. Era um gênio sensível, meio esquisito e sofrido. Só por versos como estes a sua arte já valeria a pena e exigiria a reverência de quem ama a poesia: Meu coração tropical está coberto de neve, mas/Ferve em seu cofre gelado, a voz vibra e a mão escreve”. É Monet, Manet, sei lá.

      Admirado por Chico Buarque, Elis Regina, Caetano Veloso e todo mundo que curte, canta ou faz letras capazes de tornar o mundo mais belo, Aldir Blanc foi um “gauche” na vida. Quem não lembra do uso dessa expressão por Carlos Drummond de Andrade? Eis: “Quando nasci, um/anjo torto/desses que vivem na sombra/disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida”. Dá uma tristeza. Vem aquela vontade de cometer um clichê: os bons estão partindo. Cedo. Arrastados por desgraças inimagináveis. Quem poderá negar que sem Aldir Blanc o mundo fica mais cinza e mais árido? Fica mais pobre, mais feio, menos complexo, muito menos sensível.

      Fã de compositores como Belchior, que eu considerava um filósofo do cotidiano, sempre vi em Aldir Blanc um cronista, aquele que conta a vida como ela pode ser e muita gente não vê apesar de ela estar diante dos seus olhos. O cronista engana o tempo e tira o véu que encobre cada dia, trazendo à tona o que se esconde sob uma camada espessa de familiaridade ou de prosa seca. O seu instrumento de descobrimento é a palavra poética, essa rede que resgata significados. Há quem ache estranho falar de poesia em tempos de pandemia e de desatinos políticos. Aldir Blanc era poeta. Impossível falar dele sem comentar a sua intimidade com as palavras. Eu rotulo de simplesmente genial estes versos: “Batidas na porta da frente/É o tempo/Eu bebo um pouquinho pra ter/Argumento/Mas fico sem jeito, calado/Ele ri/Ele zomba de quanto eu chorei/Porque sabe passar/E eu não sei”. Aldir Blanc não passará. Boêmio por uma vida, sem plano de saúde na velhice, Aldir era um brasileiro como tantos que viveu o que foi possível e criou beleza.