Sobre obras no Hospital de Clínicas

Sobre obras no Hospital de Clínicas

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Quem, em sã consciência, ousaria questionar a ampliação de um hospital , principalmente em se tratando da nossa dura realidade em que as pessoas  que não dispõem de recursos, até mesmo aquelas que pagam planos de saúde, são obrigadas a esperar por atendimento, não raro, além do tempo  necessário para algum procedimento que evite o óbito, ou são atendidas nas mais precárias situações?

Evidentemente ninguém teria essa ousadia, pois isso significaria, no mínimo, execração pública. Da mesma forma, ninguém ousaria discordar de acordos firmados para garantir empreendimentos imobiliários em troca de apoio a instituições filantrópicas., como audazmente fez o prof. Júlio Curtis, em reunião do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico e Cultural – COMPAHC - , no final  dos anos 1980, ao posicionar-se contrário à construção de ginásio esportivo no terreno do Pão dos Pobres.  Lembro-me bem do estranhamento causado por esse posicionamento entre os membros do Conselho, como lembro também da relevância dos argumentos utilizados por esse defensor do patrimônio cultural de nossa cidade que, entre outros bens, contribuiu para evitar  a demolição da Usina do Gasômetro, em um momento em que preservação era vista como interesse apenas dos chamados, na época, “barões do cupim”.

Voltando  à ampliação de hospital, todos devem estar acompanhando pela imprensa notícias sobre o projeto  que permitirá ao Hospital de Clínicas aumentar o número de leitos e a sua emergência. Fato esse, com certeza, louvado por toda a população de Porto Alegre e do nosso Estado, haja vista a quantidade de ambulâncias e veículos de prefeituras do interior que trazem, diariamente, pessoas para serem atendidas nesse já enorme hospital.

Evidentemente,  considerando-se todos os benefícios que essa ampliação, espera-se,  trará em termos de atendimento à saúde da população, ninguém ousará  propor que se reflita sobre os efeitos dessa transformação na paisagem urbana ,sobre exemplar da arquitetura Modernista, obra o arq. Jorge Moreira;, sobre o impacto ambiental que o entorno do hospital sofrerá; sobre o fluxo de trânsito para acessar, por vias já congestionadas,esse equipamento de atendimento à saúde. Causaria  espécie alguém alegar que as alterações acima mencionadas poderiam ter alguma relevância diante da magnitude e da envergadura  de tal empreendimento.

Além das transformações mencionadas, há de  se pensar também em outros  aspectos que deveriam ser levados em conta quando da elaboração do projeto de ampliação do HCPA.  Um desses aspectos é a concentração dos serviços de saúde em nosso Estado. Claro que um grande centro para atendimento à saúde pode, e deve, dispor de  equipamentos e recursos humanos qualificados   No entanto, essa centralização faz com que não haja investimentos na construção  e aquisição de equipamentos para outros  locais de prestação de serviços  à saúde, principalmente  mantidos pelo poder público,  o que poderia evitar  deslocamentos de pessoas vindas de longe para receber esse atendimento. Parece-me, ainda, que essa concentração é muito bem-vinda para profissionais da saúde que não querem afastar-se dos grandes centros urbanos; já os pacientes podem viajar quilômetros e quilômetros na busca por atendimento. Situação essa que  levou o Governo Federal a instituir o programa Mais Médicos, criticado por alguns e, pelo impacto e benefícios que pode causar, bem recebido por muitos; só que esses não conseguem dar, como os que criticam,  a devida publicidade ao seu contentamento.

Caberia, ainda,  nessa reflexão considerar-se  também o que significa, em termos amplos, saúde para a população. Até quando vigorará a cultura da saúde curativa em detrimento da preventiva, para qual, sem dúvida, as condições ambientais  e urbanísticas  devem ser consideradas.

Todas essas questões deveriam  fazer parte dos estudos que antecedem a elaboração de projetos que têm impactos sobre a cidade. No entanto, valendo-se de nossas carências e mazelas, muitas vezes,  esses estudos são descartados ou considerados irrelevantes ou parciais.O futuro e, principalmente as gerações que ainda não estão aqui para opinar sobre as condições do mundo que encontrarão para viver, é que dirão dos erros e acertos que ,hoje ,cometemos  ainda que com as melhores intenções.

Baiard Brocker

 

 

 

Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895