Um belo livro em tempos horrendos
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Um belo livro em tempos horrendos

Novela de José Alberto Wenzel pede leitura

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Belo livro

 

      Enquanto Jair Bolsonaro abala o país com suas declarações horripilantes, belos livros são publicados. Por que eu leio? Porque os dias são longos e lentos. Há três maneiras de torná-los mais curtos e suaves: ler, ouvir música e conversar com amigos. Ler e ouvir música casam bem. Sonatas vão bem com romances introspectivos. Quase toda leitura funciona bem com piano. A escolha dos livros obedece a critérios variados. Há quem goste de recomendações. Outros, mais raros, escolhem aleatoriamente sobre uma pilha. Confesso que dicas de especialistas não me impressionam. Estudei sociologia. Desconfio que todos operam como grupos de pressão. Recebi o livro de José Alberto Wenzel, “Cheguei, posso partir” (editora Gazeta). Deixei-o dormir alguns dias sobre a bancada preta de minha sala.

      Wenzel foi prefeito de Santa Cruz do Sul e chefe da Casa Civil do governo Yeda Crusius. Além de professor universitário e funcionário da FEPAM. A minha questão era cruel, admito: pode um ex-prefeito, um ex-gestor, um homem que exerceu funções administrativas, enfim, escrever um bom romance? Sou humano. Tenho muitas limitações. Não as escondo. Deixei a minha mão me conduzir. Ela pegou o pequeno livro de Wenzel. Era domingo. Não havia jogo do Inter ou do Grêmio. O sol estava morno. A minha poltrona vermelha pedia uma boa leitura. Entrei no livro, a história de um homem no fim da vida que recebe um cuidador substituto.

Depois de algumas páginas, a primeira impressão: uma linguagem firme, concentrada, forte, precisa, sem excessos, um tour de force. Assim se falava quando eu era velho. Sei que me entendem. O tempo passa. Rejuvenesço para não me perder no tempo. Pulei o clássico Corinthians e Flamengo para continuar lendo. Um tom de mistério suave me pegou. Um cuidador chamado de lenheiro por um idoso desmemoriado, mas sábio. Uma enchente que devasta um cemitério. Uma reflexão sobre a vida e a morte. Belo e enternecedor livro. Nada a ver com planilhas e relatórios. Nada contra prefeitos e seus informes. São fundamentais. Outra lógica.

Roger Scruton, cujas ideias políticas me provocam engulhos, faz, em “Beleza”, um ótimo comentário sobre literatura. Ficamos interessados na “ordem em que a história se desdobra, o suspense, o equilíbrio entre narrativa e diálogo e entre ambos e os comentários – todos esses traços sensoriais, uma vez que dependem da expectativa e do alívio, tal como do desdobramento ordenado de uma narrativa em nossa percepção”. Forma e conteúdo fazem parte de uma operação de sensibilização. Só forma, resulta em vazio. Só conteúdo não é literatura, talvez um ensaio.

O pequeno livro de Wenzel é um grande romance. Quem quiser, pode chamar de novela. Ou de narrativa curta. Esse é um problema para os que catalogam. Chamam a atenção a ternura, a doçura e a sensibilidade do narrado. O autor escolhe boas e discretas metáforas. Nunca eleva o tom. Parece sussurrar a sua história. Uma declaração de amor à natureza. Até uma aroeira merece viver e ser amada. Quem ler, entenderá. Li “Cheguei, posso partir” ouvindo Debussy, Satie, Faure, Ravel e Saint Saens. Quando terminei, o sol já havia sido engolido pelo lerdo retorno do inverno. E o Brasil já estava agredido por mais um coice do presidente da República, desta vez no presidente da OAB. Uma tirada violenta e de mau gosto.

Poderia ser diferente?