Uma vida de entrevistas

Uma vida de entrevistas

Da arte de fazer falar

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    Velhas histórias. Tenho passado a vida fazendo entrevistas. Publiquei dois livros desse gênero: “O pensamento do fim do século” (L&PM, 1993) e “Visões de uma certa Europa” (Edipucrs, 1998). Eram entrevistas com monstros do pensamento, da arte e do entretenimento: Umberto Eco, Jürgen Habermas, Cornelius Castoriadis, Niklas Luhmann, José Saramago, Sidney Sheldon, Edgar Morin, Jean Baudrillard, Karl-Otto Appel, Michel Maffesoli, Astor Piazzola, Goerges Duby, Jacques Le Goff, Régis Debray, Pierre Bourdieu, Elisabeth Roudinesco, Claude Lefort, Mempo Giardinelli, Lobo Antunes, Alain Touraine, Jacques Derrida, François Furet, Mario Vargas Llosa, Michelle Perrot e brasileiros do quilate de Luís Carlos Prestes, Darcy Ribeiro, José Guilherme Merquior, José Arthur Gianotti, Haroldo de Campos e o intrépido Gerald Thomas.
    Depois desses livros segui a vida de entrevistador. No Caderno de Sábado, tenho exercido essa atividade com gente do porte do prêmio Nobel da literatura Wole Soyinka e do economista Thomas Piketty. Ou de brasileiros como Conceição Evaristo e Itamar Vieira Júnior. No rádio, com Taline Oppitz, em dez anos, fizemos mais de dez mil entrevistas. Fazer outros falarem, eis a meta. Uma das primeiras grandes entrevistas que fiz foi com o filósofo alemão Habermas. Eu era muito jovem. O editor-chefe não queria. Achava que o leitor mais simples confundiria o entrevistado com algum jogador de futebol, enquanto os mais sofisticados não veriam em mim alguém capaz de fazer perguntas relevantes a um pensador. Parte da velha guarda do jornalismo nunca pôs fé em mim. Consegui duas páginas. Quando vi, dois terços eram de anúncios. Briguei, ameacei pedir demissão. Por clemência, não aceitaram e deram o espaço.
    Fiz mais de uma entrevista com Umberto Eco. Uma vez, ele me convidou a ir à casa dele em Milão. Levei Clóvis de Barros Filho comigo. Estávamos em Paris juntos. Fiz o curso de Eco no Colégio da França. Queria entrevistá-lo. Negociava com a assessoria. Um dia, fui direto nele. Eco fez uma gritaria de bom italiano. Aí, disparou esta:
– Claro que vamos fazer. Por que não pediu antes?
– Falei com a assessoria.
– Ah, minha assessoria só dá entrevistas para o New York Times.
    Certa vez fui entrevistar um executivo da L’Oréal. Pretendia escrever um livro sobre a Histórias das Vaidades, que ficou pelo caminho. A assessora não me achou à altura do desafio. Eu estava de havaianas. Curioso, o entrevistado bancou a conversa. Ao final, disse:
– Adorei nosso encontro.
    O mesmo aconteceu com uma importante intelectual feminista de passagem por Porto Alegre. Já o alemão Appel quis explicar melhor o que dizia. Saímos para comprar mais fitas cassete numa tarde quente. Foram três. E assim se passaram os anos. Continuo fazendo entrevistas com o mesmo ardor, com o mesmo frio na barriga e com a mesma vontade de conhecer as pessoas e de falar com elas. Quem eu gostaria de entrevistar? Chico Buarque de Holanda, Paul Auster e Angela Davis.
    Cantarolo: “Começaria tudo outra vez...”
    

 


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