Olhares sobre a estética do viver
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Olhares sobre a estética do viver

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Pedro Gonzaga - Livro das Coisas
Pedro Gonzaga lança nesta quarta, às 18h30min, na Palavraria sua primeira obra de crônicas, "O Livro das Coisas Verdadeiras"

 

Por Luiz Gonzaga Lopes

 

Pedro Gonzaga é uma criatura rara. A sentença é em ordem direta e poderia remeter a mil interpretações. Professor de Literatura, Doutor em Literatura pela Ufrgs, músico, poeta e cronista, entre outras tantas habilidades aqui não expostas pelo exíguo espaço. Pedro carrega o legado literário da convivência de pouco mais de 40 anos com o pai, o contador de histórias, escritor, cronista, professor de Literatura Brasileira na Ufrgs, Sergius Gonzaga, o Sergião como ele o chama carinhosa e maiusculamente. Todos estes prolegômenos são para situar um pouco no tempo, no espaço, na velocidade das letras a criatura rara suprassentenciada. Pedro Gonzaga está lançando o seu primeiro livro de crônicas "O Livro das Coisas Verdadeiras" (Arquipélago Editorial),  com sessão de autógrafos, nesta quarta-feira, dia 5 de outubro, às 18h30min, na Palavraria (Vasco da Gama, 165).

 

Do livro, posso dizer que porta 52 crônicas escritas quinzenalmente no jornal Zero Hora e um texto escrito para a revista Norte sobre como ele se tornou um poeta. Sou leitor regular de Pedro nas crônicas para a imprensa, como sói aos grandes cronistas e ensaístas, desde Nelson Rodrigues até Paulo Mendes Campos e Moacyr Scliar. Desta obra em específico, li apenas uma amostragem enviada pelo autor para apreciação, mas por conhecer a lírica, a prosa e o olhar do escrevinhador, posso batizar as suas crônicas de "Olhares sobre a estética do viver"

 

Vejamos ao acaso uma destas crônicas: "A Música da Garota Estranha". O cronista ouve no rádio uma canção deixada por uma garota estranha de cabelos curtos:

 

"talvez um pouco estranha à minha congênita caretice, uma canção que mesmo depois de tanto tempo vivifica em mim seu nariz coberto de sardas e uns olhos pequenos que pareciam abertos a estilete na face, e também umas sensações periféricas no tato, no paladar, convertendo-me, pelos três minutos e vinte e dois segundos de duração da faixa, em poeta simbolista, senhor das mais agudas sinestesias".
A reflexão do cronista embebida de sua porção eu lírico é sobre os casais que possuem a "nossa música" e sobre a crueza do mundo que subjuga o piegas, mas não combate a resiliência de quem mantém os afetos acima da objetividade. Uma pequena crônica quinzenal de imprensa nos remete ao mundo de reminiscências e nos mergulha em uma mensagem sensível e de humanismo ímpar. A crônica é encerrada com estas lenhas de letras queimando a nossa indiferença às melodias e a estética do viver recordando o que é humano demasiadamente humano:

 

"Porque só há uma maneira de sentirmos mais. É sentirmos
juntos. Dos cultos religiosos aos concertos de rock, dos bailes
carnavalescos a um par de dançarinos sozinhos na sala
de um apartamento, só a música pode operar essa forma
suprema de comunhão.

Mesmo entre uma garota estranha e o cronista mais
quadrado."

 

Pedro Gonzaga, eis o homem. Ao final de cada crônica ele apresenta pós-escritos estabelecendo uma conversa franca com o leitor sobre a crônica. "O objetivo desses comentários é repercutir tanto as reações dos leitores a determinados temas, como também admitir os fracassos que o espaço por vezes exíguo do jornal me impôs. É uma crença útil que mantenho: tivesse mais espaço e tudo estaria resolvido", explica Pedro na apresentação.

 

O lirismo do autor ora crônico também se autoficcionaliza (pera lá, autoficção na crônica? Isto mesmo, com grifo do resenhista) em textos como "Eu, Gordo" e "Óculos". Em "Eu, Gordo", a pedra de giz de Pedro coloca na lousa a divisão entre os gordos constrangidos e libertados. Ele se coloca inicialmente no primeiro grupo, oprimido, que não ocupa o seu espaço, que aceita calado, que pratica dietas e tenta academias. A redenção da crônica é quando a libertação é proposta:
"Basta!
Anuncio aqui minha pública conversão aos libertados.
Ungir-me-ei em gordura trans, saboreando uma luminosa
costela. Com os beiços besuntados, beijarei o auriverde
pendão de minha terra.
Cuidem-se, magros do mundo. A opressão daqueles
manequins deformados das lojas de tamanhos especiais
não surte mais efeito.
Um destino se cumpre.
Tremam, donos de bufês livres.
Armem-se, patrões de churrascarias.
Escondam-se, vendedores da Herbalife."

 

Há espaço nas crônicas para as doces ruas de seu bairro porto-alegrense, as musas do seu passado e de agora, as lembranças de um encontro às escuras e um inesquecível ano-novo na praia. O poeta cronicamente viável é definido por Fabrício Carpinejar como "este tenor das miudezas, este poeta puro do diálogo". Para o poeta, mestre em Literatura Brasileira e cronista, Pedro "enxerga o que ninguém vê porque sempre estamos concentrados no efeito, jamais nas causas. Gonzaga procura as causas da verdade, a beleza da banalidade. Enquanto você somente escuta a música de um saxofone, Pedro enxerga a saliva do esforço do músico escorrendo da boquilha. Com uma franqueza reservada a poucos e raros, ele ensina que mais vale perder ao lado das pessoas certas a ganhar solitariamente”.

 

Enfim, Pedro Gonzaga é um esteta das vivências que nos banha com as doses líricas de cotidiano que por vezes não enxergamos sem o microscópio de sua pena e que necessitamos amiúde para seguir em frente neste mundo inóspito e acachapante. Viva os poetas cronistas!!! Um Salve àqueles que consideram as coisas com ênfase, como Pedro ao seguir o conselho ora epigráfico de Drummond em "A Flor e a Náusea" e deixar o mundo menos triste, com menos opacidade.

 

Pedro Gonzaga

 

O AUTOR
Pedro Gonzaga nasceu em Porto Alegre, em 1975. Professor e escritor, com
quatro obras publicadas, entre prosa ("Cidade fechada" e "Dois andares: acima!")
e poesia (A última temporada e Falso começo), também exerce a atividade
de tradutor, tendo vertido mais de 20 livros para o português. Doutor em
Literatura pela UFRGS, atualmente é cronista do jornal Zero Hora.

 

SERVIÇO
O LIVRO DAS COISAS VERDADEIRAS, de PEDRO GONZAGA - Coleção Arte da Crônica - Arquipélago Editorial
SESSÃO DE AUTÓGRAFOS - PORTO ALEGRE
DATA: 5 de outubro (quarta-feira), às 18h30
LOCAL: Palavraria (Rua Vasco da Gama, 165)
FORMATO: 14 x 21 cm
PÁGINAS: 160
PREÇO: R$ 39,90