A máscara do monstro

A máscara do monstro

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Coluna publicada na edição impressa de 29/30 de agosto de 2020.

 

Recebi um grande número de e-mails, por conta do tema abordado na coluna da semana passada. A maioria revela indignação, decepção e tristeza com a realidade da violência sexual contra crianças e adolescentes. Mas uma, em especial, precisa ir ao encontro dos leitores e merece reflexão. É a palavra de um agente penitenciário, que lida diretamente, praticamente convive, com esses criminosos. Por questões óbvias de respeito – e até de segurança – vou preservar seu nome e o local onde exerce suas funções. Ao leitor, basta saber que é alguém de larga experiência na área criminal e com atuação no front da segurança pública gaúcha. E, aproveitando uma frase sua, é quem está na linha de frente da segurança que lida com as vítimas desses abusadores em seu estado mais debilitado.

Os criminosos sexuais são, em geral, os mais “dóceis” dentro de uma penitenciária. São disciplinados e voluntariosos, o que permite que sejam usados como trabalhadores. O que não é fácil conseguir entre tantos criminosos, alguns mais violentos e avessos à subordinação ou qualquer disciplina. Talvez pela covardia que os caracteriza, afinal violentam crianças que não podem se defender, não ousam enfrentar um agente, não os desacatam, sequer os encaram. Assim, com o trabalho e a disciplina, diminuem sua pena. A legislação os ampara e beneficia. Outra amiga que conversou comigo sobre a coluna relatou que, no trabalho que desenvolvia numa penitenciária, conheceu um senhor que fazia de tudo por lá, era o chamado “pau para toda obra”. E se destacava por ser extremamente gentil e solícito com todos. Ao procurar saber qual o crime daquele bondoso senhor, descobriu que ele havia violentado todas as suas filhas durante muitos anos.

Tudo bem que a ressocialização dos presos seja uma busca constante e necessária de qualquer nação essencialmente democrática. Porém, há que se rever os tradicionais benefícios. Não é só aqui no Brasil que a reincidência no crime é alta, apesar dos dados confusos que se dispõe sobre o assunto devido às diversas interpretações do que é reincidir. Mas o caso específico do sujeito que violenta sexualmente uma criança, aí é preciso se reconsiderar tudo isto. Não dá para liberar um criminoso desses, não é possível oferecer um monstro de volta à sociedade apenas porque a letra fria da lei não se importa com particularidades. Não adianta tratar um crime como hediondo e perdoar seu criminoso. Se há uma questão humanista em jogo, é a que não se pode oferecer outras crianças ao horror das garras de um monstro apenas porque ele está disfarçado com máscara de cordeiro. A realidade já é dura demais, já oferece muitos obstáculos a este crime que, apesar de tudo, segue muito pouco punido no país.

 


Correio do Povo
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