A riqueza dos miseráveis

A riqueza dos miseráveis

Oscar Bessi

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Esta semana a Polícia Federal e a Receita Federal detonaram mais uma fábrica clandestina de cigarros. Lembro que há pouco mais de dois anos, não muito longe do local interditado pela PF, participei de uma ação conjunta da Brigada Militar com a Polícia Civil onde estouramos uma fábrica semelhante. Com maquinário caríssimo, produção milionária e escravos estrangeiros. Um esquema criminoso lucrativo que se perpetua. Mesmo com os golpes pesados da polícia. Segundo a Polícia Federal, os bandidos montavam essa estrutura em um lugar, operavam por uns poucos meses, depois se mudavam, e assim sucessivamente. Só esta ação policial deu um prejuízo de pelo menos R$ 600 milhões ao grupo que comanda esse esquema. O faturamento deles gira em torno de R$ 50 milhões mensais.

Aí a gente para pra pensar na coisa como um todo. Eles vendem cigarros de contrabando, mais baratos, pra gente pobre. Ou seja, pro brasileiro comum. Gente como eu e o caro leitor, ou leitora, que vive de salário contado ou pensão. Que fica sofrendo, ainda mais hoje em dia, com essa situação econômica absurda, com o preço do gás, da gasolina (quem já não desistiu de andar de carro), da luz, da comida, de tudo. Nós, que contamos moedas pagando contas para sobreviver com algum resquício de dignidade. Esses criminosos vendem tanto cigarro não é para magnata, podem ter certeza. Nós é que compramos os cigarros e sustentamos esses crimes. Assim como sustentamos o comércio ilegal de celulares roubados, que mata vítimas de assalto todo dia neste país. Nós que sustentamos o comércio de peças irregulares vindas de desmanches que compram carros roubados, cujas vítimas são mortas ou agredidas todos os dias no Brasil. Nós, que aceitamos as drogas no nosso convívio e sustentamos a guerra milionária e cercada de corrupção de quadrilhas do tráfico de entorpecentes.
É preciso botar a mão na consciência e refletir. No simples gesto de comprar um maço de cigarro barato, de origem ilegal, estamos bancando uma rede de crime imensa. E enquanto nós apenas gastamos nossos míseros trocados, eles enriquecem. E matam. E escravizam. Então, assim como precisamos ser irredutíveis com os corruptos que nos assolam e nos deixam a ver navios nos serviços essenciais que merecemos, precisamos ser irredutíveis também conosco. Cobrar de nós e dos nossos a legalidade de tudo, do pequeno ao maior gesto cotidiano, do comprar cigarro ao comprar um carro. Não é da cidadania e da liberdade ser intolerante com questões de sexo, raça ou credo. Mas é da cidadania ser intolerante com o que é crime ou com o que traz consigo uma sustentação criminosa. Porque a cada escândalo de desvio de verbas ou a cada rede milionária de crimes, vemos o quanto nós somos ricos. E a miséria, em muitos aspectos, pode ser mera consequência de nossas escolhas equivocadas. 


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Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895