Anjos de prontidão

Anjos de prontidão

Os policiais militares têm uma das profissões mais difíceis em nosso modelo social

Oscar Bessi

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Sexta-feira, 11 de dezembro, foi um dia especial. Significativo. A formatura da primeira turma de Capacitação em Saúde Mental do Programa Anjos, da Brigada Militar. Oficiais e praças que, de agora em diante, estarão em mais de 50 cidades gaúchas, contemplando todos os comandos regionais e todos os departamentos da BM. Eles atuarão como facilitadores para todas as questões complexas, e complicadas para quem vive ou convive com elas, e que envolvem a saúde mental, como encaminhamentos necessários e corretos, reconhecimento prévio do que pode ou não pode ser, e do que talvez precise de ajuda urgente, o amparo e a desmistificação de tratamentos cercados de tabus e preconceitos, como contra o estresse, a ansiedade, a depressão e muito mais. Um trabalho tão belo quanto difícil e necessário. 

Os policiais militares têm uma das profissões mais difíceis em nosso modelo social. Ao se colocarem fardados nas ruas, e assim visivelmente identificados como a representação do Estado, eles estão entre as raras presenças públicas,  em muitos lugares a única, a não escolher onde e nem quando se faz presente. Vai das áreas nobres para as de maior exclusão e esquecimento, vai às zonas conflagradas, vai ao encontro da violência da qual todos fogem, vai ao encontro do perigo para tentar restabelecer a paz. Atua, quase sempre, como presença antipática, que corrige, que encerra a bagunça, a desordem, que ouve desaforos e ofensas, insatisfações, queixas. Que se interpõe entre os que brigam. Os policiais militares fazem isto nas 24 horas do dia, e não importa se é sol escaldante, se não há sombra, se chove torrencialmente, se neva. Não tem como sair impune de uma rotina assim. Não há como colocar a própria alma em conflito e confrontos diários sem que seja necessário, e muito necessário, um amparo para que ela permaneça bem. E não gere reflexos negativos para si e para os outros por conta dessa exposição contínua ao que há de mais negativo nas relações humanas.

Acompanhei minha formatura ao lado da soldado Elisandra, que além de colega de trabalho, já vinha desempenhando seu papel de anjo entre os colegas de trabalho e alunos soldados pelos altos conhecimentos em saúde física e nutrição, formações que ela buscou para incrementar ainda com mais qualidade o seu trabalho policial militar. Particularmente, sou apaixonado pelo tema, até por ser um sobrevivente da depressão, que já quase me derrubou. E só não caí por conta de anjos de prontidão que fazem o trabalho de acolhimento e amparo na biopsicossocial da Brigada Militar. Interessante: escrever foi uma das ferramentas que me ajudou a vencer, mas ainda não tive coragem para escrever sobre o que vivi. E me emocionei com a chegada deste programa na BM. E com a paixão do comando para que o programa Anjos se torne uma grande rede de apoio ao policial. É a vida falando mais alto.


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895