Mulheres empilhadas
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Mulheres empilhadas

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Tenho uma teoria: os homens que fazem leis não podem ler apenas leis. Precisam ler poesia. Entender corações, desesperos, desatinos. Seus códigos seriam mais enxutos, o mundo mais justo e a concepção de estado mais humana. E livre. Mas é só uma teoria. Como a do professor que pede aos alunos que leiam ficção. A boa ficção. Bem escrita. Bem sentida. Costumo indicar obras fantásticas aos meus colegas de trabalho, livros com temas que tratam, direta ou indiretamente, a realidade violenta de nossos dias com profundidade. Sem sensacionalismo ou oportunismo. Sem panfleto. Com densidade. Com alma. Os policiais precisam, por necessidade do ofício, se entupir com as leituras de legislações e técnicas de todo o tipo. Necessário. Mas brecha para a percepção das realidades diversas é que tornará sua atuação mais cidadã.

Fiquei onze dias confinado, sob suspeita de estar com coronavírus (por isso falhei uma semana aqui com vocês) e aproveitei para colocar as leituras em dia. Comecei por “Mulheres empilhadas”, de Patrícia Melo (Editora Leya). Indico. Eu a considero o maior nome vivo da literatura policial brasileira, com as partidas de Rubem Fonseca e Garcia-Roza. Eu tinha só o livro “Sobrevivi, posso contar”, autobiografia de Maria da Penha, e o pungente romance “A ponta do silencio”, de Valesca de Assis. As únicas referências literárias sobre o tema da violência contra a mulher no Brasil. Pois Patrícia não me decepcionou. Sua linguagem sabe ser dura, poética e satírica na medida certa em todos os três paralelos do livro que se intercalam: os capítulos numéricos (1 a 11), que trazem casos reais noticiados na imprensa; o índice grego (alfa a etá), com os eventos oníricos da protagonista numa tribo de guerreiras indígenas da Amazônia; e o índice alfabético (A a Z), que conta a história central da narrativa, uma advogada paulista no Acre a pesquisar sobre feminicídio.

Vou contar um pouco do livro. Preciso. Uma jovem advogada paulista resolve terminar seu relacionamento quando, numa festa, o namorado lhe dá um tapa no rosto. Algo acende nela. Criança, sua mãe foi assassinada pelo pai, mas ela era muito pequena. Agora o seu passado retorna, ao mesmo tempo em que aceita a empreitada de ir ao Acre fazer uma pesquisa sobre feminicídio. A partir daí, mesclando narrativas reais e ficção, a autora nos dá um baile sobre nossa cultura, nossos erros mínimos, a repetição da violência como normal, a aceitação disto impregnada no cotidiano de tantos brasileiros. São mães, filhas, mulheres, avós, netas, alunas, professoras, chefes, subordinadas, profissionais corajosas, mulheres submissas. A violência atinge todas. Não poupa. Não faz triagem. Há certos trechos em que o leitor fatalmente diz “eu já vi isto”. No mínimo. “Mulheres empilhadas” é leitura obrigatória para quem estuda o fenômeno. E para quem trabalha com proteção a vítimas dessa violência que, nesses tempos de quarentena, infelizmente tem aumentado.

(publicado na edição impressa de 16/05/20)