O medo das crianças
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O medo das crianças

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As crianças de um tempo nem tão distante tinham medos, digamos, talvez mais fantasiosos. O escuro, as criaturas monstruosas que nele habitavam e dele surgiam, como nos contos fantásticos lidos por nossos pais. Ou que vigiavam os lugares cujo acesso os adultos proibiam. Particularmente, eu tinha medo de tubarão. Eu era muito pequeno quando lançaram o primeiro filme do Spielberg. Também tinha medo de uma loja cuja propaganda dizia que as pessoas, ao passarem na frente, ficariam com o pescoço paralisado sem conseguir parar de olhar suas ofertas. Eu achava aquilo assustador e devo ter feito algum berreiro pra mãe não passar lá perto. Nunca tive medo foi do velho do saco, sempre achei que devia ser um cara simpático, talvez injustiçado pelo mundo. E me prometia levar um papo cabeça com o velho do saco, caso ele aparecesse. Nunca tivemos a oportunidade de nos encontrarmos.
Hoje, segundo a Unicef, as crianças do mundo temem a violência, o terrorismo e a pobreza. Eles não querem morrer numa guerra, nem passar fome. Ninguém quer. É o que o mundo adulto lhes apresenta como assustador. Dá medo. E esse medo que aflige as crianças não é um mal exclusivamente brasileiro. Nosso problema, aqui, é a elevação absurda de índices que passam a ser tratados como normais, a ser perigosamente aceitos, enquanto configuram um absurdo. O Brasil lidera o ranking de muitos crimes contra crianças e adolescentes. E é onde há mais crianças com medo de serem vítimas de agressão, crimes ou abusos de toda ordem. Medo que nasce da realidade vivida por eles. Experimentada por eles. Quando a investigação policial revelar o que houve com a menina raptada em Porto Alegre, por exemplo, saberemos como, por que ela morreu e quem cometeu essa barbárie. Mas nenhuma revelação mudará a monstruosidade do ocorrido. Foi monstruoso, sim, seja o que for. E nos traz medo.
Na escola da Lomba do Pinheiro, onde uma professora foi agredida, mais uma vez, num ato criminoso e selvagem no seu próprio local de trabalho, o medo vai além. Ele passa a conviver com o cotidiano de um coletivo de crianças, de pais, de professores que precisariam estar tranquilos para construir essa magia humana chamada educação. Mas não estão, não estarão, seus alunos saberão disso e sentirão todos os dias. E o que era para ser construtivo de repente se esfacela, tenso, deteriorado, arrancado de suas raízes. Professores precisariam ser bem protegidos. Escolas precisariam. Nossos filhos estão lá. Mas estão com medo. E o medo é uma muralha que impede a descoberta de mundos melhores, que inibe a evolução. Que distorce sentimentos e faz palco para intolerâncias e outros graves equívocos. Há que se pensar nisso, nessa nebulosa de medo que nos impede de ver futuro.