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Paz nas escolas

Novo ano letivo. E todos os dias, armados apenas de conhecimento e paixão, cérebro e alma, professores entram em sala de aula no país. Metade deles já foi vítima de violência.

Por
Oscar Bessi Filho

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A cada ano letivo que inicia, velhos desafios retornam aos bancos escolares. Principalmente na rede pública. Os problemas de sempre se unem a novas demandas e se tornam pedreiras que, se ainda não esmagam o ensino como um todo, é porque, no cerne da resistência, da persistência e da teimosia em mudar o destino de tantos, há professores. Engajados, ainda que pouco valorizados. Extenuados, porém jamais desmotivados. Idealistas. Sonhadores. Esperançosos, mesmo que vilipendiados por décadas. Mas esse povo é humano também. E se há algo que abala qualquer convicção, que faz pensar trocar uma batalha desleal por qualquer esconderijo, é o medo. Armados apenas de conhecimento e paixão, cérebro e alma, homens e mulheres, jovens ou veteranos, entram todos os dias em salas de aulas nos lugares mais longínquos, inóspitos, no seio de territórios adversos e sob o domínio de estados paralelos do crime. Mesmo assim acreditam e oferecem aos filhos desta pátria a chave da perspectiva. E em mais casos do que se poderia aceitar como exceção, são atingidos em cheio pela violência.

O Brasil nunca priorizou enfrentar a violência sofrida por seus professores. Nem um crime específico definiu em lei. Pesquisa da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apresentou nosso país como o pior do mundo em índice de violência praticada contra professores. Outro título infame que sustentamos sem mostrar muito interesse em reverter, feito a praga do crack e a violência no trânsito. A causa principal apontada no levantamento? Impunidade. Já estudo da UNESCO, transformado no livro “Violência nas Escolas”, aponta haver, no Brasil, uma temerária tendência de considerar isto como algo natural. Brigas, furtos e agressões são episódios triviais. Então se banaliza e legitima a violência como mecanismo de solução de conflitos e relações. Uma tragédia para a cidadania, democracia e liberdade. A ditadura do medo e a Lei do Mais Forte se ensaiam como praxe. Pavoroso! Nenhuma chance para a Educação de fato em ambientes assim.

Graves agressões a professores ganharam a mídia, recentemente, e chocaram. Nas redes sociais, leio brigas chatas que ainda lambem feridas da última eleição, mas não ouço muitas vozes clamando contra essa triste realidade. E os principais debates políticos são outros. Umbigos não foram à sala de aula? Novo ano letivo. E o maior desafio ainda é reverter esse quadro. Zerar a violência é utopia, mas saber que quase metade dos professores brasileiros já foi agredido, física ou verbalmente, é inadmissível. Está na hora de agir. De verdade. Ou protegemos os professores agora, e com eles protegemos a escola, o ensino, a educação e a cidadania, ou muito em breve nem nós mesmos poderemos mais nos proteger.