BRM P142: carro secreto da F1 não foi precursor do efeito-solo por birra de piloto
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BRM P142: carro secreto da F1 não foi precursor do efeito-solo por birra de piloto

Projeto de Tony Rudd e Peter Wright estava pronto para estrear em 1969, há 50 anos

Por
Bernardo Bercht

Projeção em 3D mostra como seria o BRM P142

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Tal qual um videogame, vamos desbloquear carros secretos da Fórmula 1. Todo mundo que acompanha o esporte conhece os carros-asa de Colin Chapman com a Lotus. O gênio/chefe de equipe foi o primeiro a "dominar" o conceito do efeito-solo para criar um dos bólidos mais legendários da história, o Lotus 79. Mas dez anos antes, 50 anos atrás, um outro time britânico de prestígio, a BRM, não colocou na pista o carro-asa por birra de um piloto, o campeão John Surtees.

Eram os meados de 1969 e a dupla que eventualmente traduziria o cérebro de Chapman para a prática já flertava em conjunto com o carro-asa. Peter Wright fez experimentações com grandes caixas laterais no formato de asa invertida no túnel de vento do Imperial College. Os resultados saíram da escala de medição do aparelho, ainda muito rudimentar na comparação com os modernos.

Eufórico e intrigado, Wright chamou seu amigo Tony Rudd (na foto ao lado de Graham Hill), especialista em aerodinâmica. "Ele estava investigando as laterais do March de um ano antes, que tinham formato de asa invertida, mas abertas, sem resultados convincentes", lembrou Rudd em seu livro "It was Fun" (Foi divertido). "Peter, então, usou fibra para fechar as laterais num túnel que cobria parcialmente as rodas traseiras. Os resultados foram tais, que ficamos céticos", comentou.

Rudd, principalmente, não acreditava que um carro de rodas abertas teria aqueles resultados comprovados na pista. "Mas aí, Peter fez um segundo teste e imediatamente decidi que tínhamos que construir aquele carro". Seria o BRM P142. "Mandei cancelar a construção de um segundo chassis P139, arrumei alguns chapeadores e mandei para a fábrica com a ordem de ficarem de boca fechada. Se o carro fosse tão bom quanto mostrava o túnel de vento, em alguns meses lançariamos algo matador", narrou Rudd.

O engenheiro pensou em manter o projeto em segredo até 1970, mas a antiga gigante BRM encontrava-se em problemas financeiros e precisava de resultados. "A gente precisava ter um carro para Monza e ganhar umas corridas. Comentei com Alfred Stanley (dono da equipe) o que estava fazendo e o perigo de qualquer um saber. Ele deu o aval para a construção."

O renascimento da BRM e o nascimento do carro-asa, entretanto, foi postergado pelo ranço de um piloto. John Surtees, multicampeão das motos e campeão de F1 com a Ferrari foi contratado a peso de ouro pela BRM, não gostou da aparência do carro. "John veio à oficina para fazer os ajustes de cockpit. Não falou nada, mas claramente não estava impressionado. Dias depois, fui convocado por Stanley a uma reunião. Surtees estava lá e a ordem foi de parar imediatamente o que estava sendo feito no projeto secreto e focar tudo no P139 convencional."

Rudd e Wright foram alguns anos depois para a Lotus revolucionar o esporte como a história conta. No mesmo ano, porém, Stanley resgatou os planos dos engenheiros e foi fabricado um chassis-asa com ideias similares à do Lotus 79 campeão em 78. Batizado de P230, foi testado pelo desconhecido Neil Betteridge, que representou o time na Aurora Series, campeonato europeu com carros mais antigos.

A BRM raspou os cofres para terminar o projeto e um carro foi enviado para Donington Park. Depois do shakedown para conferir os sistemas e o velho motor BRM V12, saiu para mais quatro voltas a pleno. Na terceira delas, a suspensão traseira colapsou pelas forças-extremas exercidas sobre o carro e quase causou um acidente. Pensando ter um carro perigoso, e sem dinheiro para continuar o desenvolvimento, Stanley mandou o último BRM voltar para a garagem, de onde não mais sairia.