Cosmovisão e Makunaima por Jaider Esbell em Porto Alegre

Cosmovisão e Makunaima por Jaider Esbell em Porto Alegre

Exposição, com abertura neste sábado, dia 14, traz a obra do artista e ativista makuxi

Luciana Vicente

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A exposição “As mil faces de Makunaima” é uma oportunidade singular para apreciar a criação de Jaider Esbell (1979 - 2021), artista makuxi falecido precocemente aos 41 anos de idade no ano passado. Idealizada por Jaider, a mostra foi desenvolvida e finalizada pelos artistas e produtores culturais Mishta e Manatit, como um manifesto de afeto ao amigo. Realizada pelo MACRS, a abertura é neste sábado, às 16h, na Galeria Augusto Meyer, terceiro andar da Casa de Cultura Mario Quintana (Rua dos Andradas, 736).

Serão exibidas cinco obras da série “Transmakunaima: o buraco é mais embaixo”, de 2018, na qual Jaider apresentava a descaracterização da entidade Makunaima (Makunai’mï) e propunha uma reformulação do mito brasileiro publicado no livro “Macunaima” por Mário de Andrade em 1928. Com a intenção de difundir a arte indígena contemporânea de Jaider foi utilizado um processo de animação de suas obras pintadas manualmente em acrílica com posca. 

A mostra, para expor e aprofundar as questões identitárias e cosmológicas dos povos indígenas do Brasil, dispõe da mediação de um avatar feito em realidade aumentada. A intenção é estabelecer uma relação interativa e sensível e criadora com as obras. 
Os artistas Mishta e Manatit, do Rio Grande do Sul, estabeleceram amizade e vivência com Jaider durante a produção da série “TransMakunaima – o buraco é mais embaixo”. Ao finalizar as telas, Jaider comunicou a Mishta: “essas obras devem ser animadas, para que as crianças possam ver”. Mishta conta que, em 2017, ela e Manatit viviam em Boa Vista (Roraima) e tiveram a oportunidade de se encontrar com Jaider. Desde o primeiro encontro as produções dos três foram se dando naturalmente, numa troca mútua de afeto. “O encontro foi uma abertura para o mundo Makuxi, o mundo de Makunaima, que também faz parte do universo dos povos Taurepang, Wapixana, Patamona, Ingaricó, povos do lavrado, da região do Monte Roraima, o jardim de Makunaima”, diz ela. 

Segundo Mishta, o afeto entre os artistas, unidos ao movimento da arte indígena contemporânea, pauta central de Jaider, os levou a rasgar o Brasil durante os anos de convivência, onde realizaram três exposições com a “TransMakunaima”, duas em Manaus e uma no memorial dos povos indígenas em Brasília (DF). 
Em 2021, o projeto “As mil faces de Makunaima” foi selecionado no edital de arte e tecnologia no Instituto Ling e TecnoPUC, quando começaram a animar a obra “A Liberdade”. Mishta lembra que durante este processo veio a notícia da morte de Jaider. “Tivemos a sua súbita e dolorosa partida para o mundo dos encantados nos deixando ‘essa roça para cuidar”', como Jaider Esbell dizia, recorda ela. 

Para Manatit, Makunaima” é uma cosmovisão específica de povos que circundam o monte Roraima que foi relida por Mário de Andrade para ter este mito na formação da arte moderna no Brasil e na busca de uma identidade cultural. “Mas o que Jaider traz é a atenção para a pluralidade de cosmovisões. São 300 etnias e todas têm o direito de existir e de buscar dentro de si a sua própria cosmovisão. Existem intelectuais e artistas indígenas autorizados a falar sobre esta entidade. A gente está aqui apontando o dedo para eles, para que as pessoas os ouçam”, enfatiza Manatit. 
Mishta explica que esta exposição traz um pouco sobre a cosmovisão de Jaider e da sua relação com Makunaima. Ela detalha que: “tudo é Makunaima, toda a expressão de vida é Makunaima, todo o ser vivo é um ser criado e feito, apresentado por e como Makunaima. É como se Makunaima fosse o tudo. Ele vem do tudo. Então ele não tem face. Ele tem mil faces. Todas as faces são de Makunaima”. 

Manatit completa que a intenção não é traduzir ou interpretar Jaider, mas mostrar a relação com este escritor, educador, ativista e artista extemporâneo e contemporâneo que revolucionou a arte. A proposta é ressaltar o convite de Jaider para que cada um busque dentro de si a sua cosmovisão e tenha a liberdade para expressá-la em contraposição à sociedade colonial. “Para Jaider, esse manifesto de liberdade é Makunaima, mas necessariamente não vai ser Makunaima para todos”, finaliza. Visitação à exposição entre 15 de maio e 26 de junho, sempre das 10h às 18h. 



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