Rambo e Chardin: apaixonados pela natureza

Rambo e Chardin: apaixonados pela natureza

José Alberto Wenzel*

Balduino Rambo

publicidade

A obra do gaúcho Balduino Rambo (1905-1961), de tempos em tempos, é comparada à do francês Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955), jesuíta como ele. De fato, vamos encontrar diversas similitudes entre os dois. Todavia, seria injusto ombreá-los linearmente em sua busca por uma síntese, até porque em muito se distinguem, particularmente no que entendiam por evolução. Chardin chegou a elaborar uma síntese sustentada por duas obras orientadoras, “O Fenômeno Humano” (1) e o “Meio Divino” (2), além de outras que se somam ao mesmo empenho. Por sua vez, Rambo, se não alcançou a universalidade teilhardiana, nos legou a magistral “A fisionomia do Rio Grande do Sul” (3), além de outras publicações que nos conduzem pela compreensão holística. Tanto o botânico Rambo, e como tal reconhecido internacionalmente, quanto o geólogo Chardin, volveram seu conhecimento enciclopédico e ação transformadora para uma busca incessante: compreender o universo sem fragmentá-lo em estanqueidades religiosas e científicas.

Assim, providos da cautela necessária, podemos traçar proximidades entre os dois pesquisadores, sendo que, para tal, importa ter em mente o cenário mundial de então, pois ambos tinham ciência do que acontecia para além de seus países de origem.
O mundo passava por modificações de toda ordem. A Revolução Industrial instaurada inicialmente na Inglaterra (1760-1840) se estendia pelos demais países. A cultura agrária cedera espaço para a técnica, promovendo o deslocamento de pessoas. Do esvaziado espaço de trabalho originário havia que se buscar oportunidades nas cidades onde as máquinas passaram a imperar. Novas relações trabalhistas se fizeram soar veementes, o que gerou desconfianças, oportunizando movimentos populacionais de massa e novas proposições, como a marxista. 

A industrialização não chegou sozinha. Na França explodira a Revolução Francesa (1789-1799) que determinaria o fim do absolutismo – sustentado pelo clero e nobreza – e promoveria a universalização dos direitos civis e liberdades individuais. Abrira-se o caminho para a representação popular através da democracia representativa. Logo eclodiriam as duas guerras mundiais (1914/1918 e 1939/1945), que impactariam fortemente na percepção de mundo dos dois jesuítas. 

Estava configurado o cenário propício ao materialismo assentado sobre a utilidade dos bens e recursos e sua usufruição ao limite das oportunidades dadas e surgentes. A filosofia tradicional perdeu generosos espaços para o cientificismo e o positivismo, processo acompanhado pela laicização e novas descobertas científicas de monta, como a vacina anti-rábica (Louis Pasteur (1822-1895), a psicologia do inconsciente (Freud, 1856 -1939) a relatividade (Einstein, 1879-1955) e a mecânica quântica (Heinsenberg, 1901-1976).

Acrescente-se ao cenário instalado o rescaldo da “Kulturkampf” (luta pela cultura) encetada por Bismarck na Alemanha (1871-1887). Como não associar a “perseguição aos jesuítas” com sua expulsão de outros países, como do Brasil em 1759, e seu posterior retorno? Por sua característica de ordem fiel ao papado e nutrida pelo espírito missional, por certo, o jesuitismo sofrera duros baques acompanhado por vigorosas restaurações. O cristianismo como um todo passava por evidentes dificuldades, pois o “Homem e Deus” já não se relacionavam como antes, além do que os ditames da escolástica (Tomás de Aquino, 1225-1274) também desatendiam ao espírito cientifico da época.

Este o panorama genérico de Chardin e Rambo, devendo se acrescentar circunstâncias influentes como os nacionalismos em curso. Os dois se tornariam cientistas, místicos e escritores. Mais do que isso, ambos seriam movidos pelo desejo instaurador de uma nova ordem emprenhada por um sentido existencial capaz de conciliar o cristianismo com a efervescente informação científica. Típica de seu tempo, a busca por uma Síntese Universal se fazia evocar aos ouvidos atentos à nova realidade mundial. Se o “ser jesuíta” os congregava, não o fazia de todo, a começar pelos “Exercícios Espirituais” de Ignácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus em 1534. Ambos entendiam, ainda que diferentemente reticentes, que aqueles já não correspondiam ao fluxo móvel próprio da natureza, percebendo-os fixistas em demasia. Igualmente estava sendo contestado o caráter da “indiferença” do “Princípio e Fundamento” Ignaciano, pois não se poderia conceber a natureza como mero recurso utilitarista da criação divina, mas enquanto imanência co-evolutiva.

Se convergentes em muitas de suas percepções, também as incompreensões se fizeram pesar. Chardin foi obstruído em diferentes momentos, particularmente quanto à publicação do “O Fenômeno Humano”, que só viria a lume após sua morte. Rambo, não raro, foi mal compreendido por seus contemporâneos. Mesmo após sua morte, as cartas referentes aos períodos de seus retiros espirituais (compiladas por Arthur Rabuske em três volumes intitulados “Em busca de uma grande síntese”) foram desaconselhadas aos possíveis leitores.

Irmanados pela batina e profundo empenho na busca por uma nova síntese, podemos dizer que Chardin a elaborou e Rambo a alinhavou. As obras de Chardin “Meio Divino” e “Fenômeno Humano” se complementam em fluxo evolutivo de complexidade convergente. Já “A Fisionomia do Rio Grande do Sul” de Rambo, se constitui em uma síntese de caráter regional. A obra de Chardin encontra-se assentada sobre quatro pressupostos: a unidade do mundo, pois tudo se encontra em relação transitiva em que o “fora das coisas” – “dehors des choses”– através da energia tangencial, e o “dentro das coisas” – “dedans des choses” através da energia radial, interdependem num processo a um tempo bifacial, e a outro, uno e homogêneo (a matéria ao ritmo da energia tangencial se apresenta ponderável, mensurável e passível da entropia, enquanto que a energia radial se manifesta criativa e livre como um princípio ativante – ambas as energias se conciliam entre o amor cósmico do mundo e o amor celeste de Deus); a lei da complexidade/consciência, em que tudo evolui do menos complexo e menos consciente para o mais complexo e mais consciente; a evolução, em que ao invés de um cosmos temos uma cosmogênese em devir histórico espaço/temporal filiforme e não puntiforme, e o Humano como centro/eixo da evolução, num processo de ortogênese orienta-se de alfa para ômega, nutrido pela incursão da consciência/pensamento reflexo social crítico. Com o que, estamos em condições de “Ver”, termo fenomenológico precioso para Chardin. No contexto do cristianismo Teilhardiano, “Ver” o Cósmico direcionado para o Humano e para o Crístico num movimento de unificação partir da dispersão eivada pelas diminuições (pecado, mal, morte,...) se constituiria na própria coluna vertebral da Evolução. Esta, enquanto noosfera, abraça e contém toda a Terra/Universo. Assim, da pré-vida à vida, desta ao pensamento e deste à sobrevida se chegaria à salvação coletiva hiperpessoal aportando na “Terra Final”, ou seja, em “Ômega”. Saliente-se que o processo espiralado em “passos” ascensionais complexificantes e convergentes não aconteceria a partir do “caos nihilizado” mas do “nada criável”, condição em que o gérmen da energia radial (“dedans”, estofo do universo) já se faria presente. A figuração esquematizada pretende demonstrar a megassíntese Teilhardiana. 

Aos pressupostos de Chardin, podemos paralelizar, ao menos em alguma medida, os pensamentos básicos de Rambo. Conforme a transcrição de seu diário, promovida pelo historiador Arthur Rabuske, seguem os quatro alinhamentos de Balduíno Rambo que organizariam uma possível síntese vindoura: 
“1º. Toda a Natureza é uma Revelação exteriorizada (ad extra) de Deus. A cópia (no sentido de riqueza!) infinda de formas, acontecimentos e figuras é um análogo criativo para a Infinitude de Deus.
2º. A Natureza tende, toda ela, do múltiplo da matéria para uma unidade cada vez mais perfeita, dando-se isso de forma gradual até Cristo e por Cristo acima, rumo ao trono de Deus.
3º. Há no espaço e tempo um desenvolvimento progressivo cuja finalidade toda é a manifesta geração de um número possivelmente grande de formas. Uma sua ordenação exclusiva para o homem seria exagerada, pois tem a Natureza em si mesma um sentido seu essencial. Por ser uma representação objetiva da plenitude incriada de Deus ela (a Natureza) preenche sua finalidade de existência essencial por si.
4º. Querendo chegar-se mais perto do cerne ou coração da Natureza, para além do intelecto seco e puro, devem utilizar-se todas as energias psíquicas do homem, pois apenas assim que resulta a crescente globalidade científica.” (4)
Isso posto, para entendermos o pensamento basilar de Balduíno Rambo nos auxilia a representação a seguir figurada: 
5º Todavia, mais do que pressupostos e pensamentos foi a reverência amorosa dedicada à natureza que melhor une aos dois holistas. Dedicação muito bem expressa por Arthur Blásio Rambo, irmão de Balduino, ao dizer que “a natureza é uma síntese de alta complexidade.” (5) 

Acrescente-se que Chardin e Rambo deixaram lacunas, entre as quais o aprofundamento da questão fulcral da morte. Porém, esta não lhes é uma precariedade exclusiva. O é da imensa maioria das pessoas e das tentativas de sínteses. Com o que permanece um grande desafio: intentar uma Nova Síntese que leve em conta também a morte e a energização cósmica, enquanto interações imanentes à natureza, da qual não somos apenas parte, mas fluxo contínuo. 

O mesmo sentimento de carência por uma síntese, ou sínteses – o que nos seria mais palatável –, que invadira profundamente aos naturalistas Rambo e Chardin, reverbera em cada existência, particularmente agora neste tempo de eloquente insanidade humana. 

BIBLIOGRAFIA
(1)- CHARDIN, Pierre Teilhard de. O fenômeno Humano. São Paulo: Cultrix, 2006.
(2)- CHARDIN, Pierre Teilhard de. O meio divino. São Paulo: Cultrix, 2006.
(3)- RAMBO, Balduino. Fisionomia do Rio Grande do Sul. Ensaio de monografia natural. Porto Alegre: Livraria Selbach, 1942.
(4)- RABUSCKE, Arthur. Balduino Rambo: cientista e religioso. IN: Pe. Balduino Rambo – A pluralidade na unidade: memória, religião, ciência e cultura/ organização: Arthur Blasio Rambo, Imgart Grützmann, Isabel Cristina Arendt. São Leopoldo: Ed. Unisinos, 2007, pg. 46.
(5)- RAMBO, Arthur Blásio. A natureza como síntese. São Leopoldo: Oikos, 2017, pg. 15.

 

Geólogo e analista ambiental. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras

 



Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895