Ruy Castro: Um escritor onipresente

Ruy Castro: Um escritor onipresente

Eduardo Rodrigues

Jornalista e escritor Ruy Castro

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O jornalista Ruy Castro, que lançará em agosto sua quarta obra de ficção (“Os perigos do Imperador – Um romance do Segundo Reinado”, Companhia das Letras, 2022), é um dos poucos escritores brasileiros – senão o único – a participar de todas as fases da produção e edição de um livro. Ou seja, ele não se limita apenas ao ato de escrever a obra e entregar os originais para a editora, o que já seria um portento. Seu olhar e a marca de suas digitais perpassam todo o processo.
Do título na capa ao ponto final no texto que atiça a curiosidade dos leitores, na quarta capa, tudo passa por seu crivo, inclusive o projeto gráfico. Sim, até nisso ele dá seus pitacos; sem falar que é ele também quem escolhe e define a disposição das fotos que ilustrarão o projeto editorial e, ato contínuo, escreve todas as legendas, tarefa geralmente relegada aos editores.
Pensa que é só isso? Não. Após definir títulos e subtítulos dos capítulos que constarão no sumário, Ruy exige que as fotos sejam apresentadas em alentados cadernos de imagens, geralmente em papel couché ou de cor e gramatura diferenciadas, para fazer brilhar os olhos dos leitores.
Quando sai da gráfica, o conteúdo presente em centenas de páginas, sobretudo nos livros de reconstituição história de um período, ganha uma espécie de sobrevida para além da obra em si, não se esgota no trivial “Começo, Meio e Fim” de toda a narrativa; gera continuidades. Novos títulos são gestados a partir da matriz que o autor acabou de entregar, preenchendo estantes e gôndolas de livrarias com material novo. 
E assim "Chega de Saudade" inspirou "Ela é carioca", "A onda que se ergueu no mar" e "A noite do meu bem", todos gravitando sobre a aura boêmia do Rio de Janeiro, cidade-tema que rendeu outras obras de sua lavra. 
Tomos de perfis e seletas de frases recolhidas da bibliografia de personagens citados em títulos recém-publicados também entram em produção. Um exemplo: em 2021, a Companhia das Letras lançou, por sugestão do autor, antologia de frases viperinas do ensaísta e crítico literário Agripino Grieco, e de outras figuras venenosas da época, mencionadas em Metrópole à beira-mar: o Rio moderno dos anos 20, publicado em 2019.
Com tamanha liberdade e poder de influência, Ruy usa esse trunfo para convencer publishers a reeditar obras antigas como o livro que mapeou a Bossa Nova (1990/2016), ou fora de catálogo, como o que reuniu perfis de célebres moradores de Ipanema (1999/2021). Projetos que voltam ao mercado repaginados, revistos, ampliados – e sempre mais bonitos.
Sua onipresença no processo de criação de objetos lúdicos – “que não têm fios, circuitos elétricos, pilhas”, como brincou Millôr em “L.I.V.R.O.”, me leva a crer que Ruy Castro é mesmo um caso raro no mercado editorial brasileiro a ponto de me fazer lembrar de uma frase usada no futebol para definir jogadores talentosos e versáteis: “ele bate o escanteio e vai pra área cabecear”. Sendo ele quem é e fazendo o que faz, o percurso é mais longo. O craque das letras bate tiro de meta, atravessa todas as partes do campo e estufa as redes no final.
Os leitores, claro, agradecem, pois os anos passam e ele fica cada dia melhor, mais seletivo e menos tolerante com a mediocridade que viceja como erva daninha nesse país. Seus detratores, que não são poucos, preferem enquadrá-lo com adjetivos espezinhantes ao carimbar o escritor de rabugento, preconceituoso e saudosista. Mas contra fatos não há argumentos, e os números estão aí para provar.
Por ter esse cuidado minucioso com a qualidade das obras que levam seu nome, Ruy desfruta de merecido reconhecimento. É lido, citado, comentado. Num país de invejosos, no qual sucesso é considerado ofensa pessoal, como notou Tom Jobim, não é pouca coisa. 
Além de receber adiantamentos polpudos para narrar histórias que propõe ou é contratado para escrever, seus livros chegam ao mercado com tiragens muito superiores às demais, boa recepção da crítica e consagrados de antemão pelo público. Sabem por quê? Porque eles contêm duas características essenciais em obras de valor: são impecáveis na forma e fascinantes no conteúdo.

* Jornalista

 



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