Chile entre as extremas

Chile entre as extremas

Primeiro turno da eleição para presidente definiu dois candidatos opostos

Jurandir Soares

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Desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet, em 1990, o Chile tem sido governado por forças que vão da centro-esquerda à centro-direita. Assim foi nos últimos tempos com as alternâncias entre Michelle Bachelet e Sebastián Piñera. Pois, nas eleições do último domingo, pelo menos no que toca à questão presidencial, os chilenos resolveram radicalizar ao eleger para o segundo turno, a 19 de dezembro, um candidato da extrema direita, José Antonio Kast, que obteve 28% dos votos, e outro da extrema esquerda, Gabriel Boric, que chegou a 25,6% na votação. Ou seja, os tradicionais partidos União Democrática Independente, de centro-direita, e Concentração, de centro esquerda, ficaram de fora.

O curioso no processo eleitoral chileno foi o candidato que ficou em terceiro lugar, com cerca de 13% dos votos, Franco Parisi, pois este fez sua campanha do exterior. Não voltou ao país sob pena de ser preso por descumprimento de pagamento de pensão alimentícia. Quanto ao futuro desse país que tem os melhores índices econômicos da América Latina, já se pode prever algumas coisas. Se Kast for o eleito vamos ter uma guinada mais à direita, como acontece no Brasil. Ele já manifestou inclusive sua simpatia por Augusto Pinochet. Também não quer saber de legalização do aborto e pretende construir um muro no Norte do país, para impedir a entrada de migrantes, especialmente, venezuelanos. Na economia, certamente, irá dar novo impulso aos preceitos liberais dos “Chicago Boys”, que deram as cartas nos tempos de Pinochet. Se vencer Boric, já se pode esperar um governo mais voltado para as questões ambientais e de gênero e uma maior presença do Estado na economia. E, certamente, o fim das aposentadorias privadas, fator de múltiplas queixas pelo país.

A direita já largou na frente nesta quarta-feira ao receber o explícito apoio dos quatro partidos que deram sustentação ao candidato governista Sebastián Sichel, que ficou em quarto lugar, com 12,6% dos votos. Os partidos de centro esquerda, sob liderança do Partido Socialista, vieram logo em seguida manifestar seu apoio a Boric. Porém, o fiel da balança passa a ser Parisi, um engenheiro de 54 anos, doutor em Administração pela Universidade de Georgia, nos Estados Unidos, que fundou o Partido da Gente. E como ele tem uma tendência mais à centro-direita, poderá ser o reforço decisivo se Kast conseguir arrastá-lo para o seu lado.

Seja quem for o vencedor, terá a difícil missão de resgatar o crescimento econômico, abalado pela pandemia de Covid-19, que fez a inflação chegar a 6%, o dobro da meta estabelecida. E o crescimento do PIB projetado para 2022 não passa de 2%. Porém, não é um desafio maior do que o dos demais países da América Latina. O maior perigo para o Chile será a radicalização, pois nos últimos tempos têm ocorrido múltiplas manifestações que, de um modo geral, tem escorregado para a violência. A intolerância poderá levar ao incremento deste tipo de ação.

 


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