O fracasso da retirada

O fracasso da retirada

Os EUA acertaram a data para a saída das tropas, mas não pensaram na evacuação dos civis

Jurandir Soares

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Parece incrível. Os Estados Unidos estiveram por 20 anos no Afeganistão, juntamente com as forças da Otan, e não souberam planejar sua saída daquele país. O primeiro ponto: acreditaram em promessas do Talibã. Isto ainda no governo de Donald Trump, que, em fevereiro de 2020, fez um acordo com o grupo radical islâmico no Catar, pelo qual as tropas americanas se retirariam sem ser molestadas. Tanto acreditaram que já em outubro do ano passado Trump promoveu uma leva de retirada. Aí veio Joe Biden e resolveu dar conclusão ao processo. A data-limite que estabeleceu para a saída foi 11 de setembro, para coincidir com o aniversário do fato que deu origem à invasão do Afeganistão, ou seja, para caçar Bin Laden e seus asseclas da Al Qaeda, responsáveis pelos atentados de Nova Iorque e Washington. Porém, entenderam que a data não era conveniente, e resolveram antecipar a saída para 31 de agosto.

Aí veio o problema maior. Acertaram a data para a saída das tropas, mas não pensaram na retirada dos civis. Cerca de 20 mil norte-americanos e cidadãos de países da Aliança Atlântica. E o dobro desse número em cidadãos afegãos que prestavam trabalho para os EUA e para o governo de Ashraf Ghani. O que se viu foi o caos generalizado no aeroporto de Cabul, com gente desesperada se amontoando à espera de um avião para sair do país. Em meio a essa situação, vieram os dois atentados da quinta-feira, que mataram mais de uma dezena de soldados norte-americanos e várias dezenas de cidadãos afegãos. Atos que fizeram surgir um novo personagem no contexto da desorganização naquele país, o Estado Islâmico Khorasan. Célula afegã do nefasto Estado Islâmico, que chegou a criar um califado, em meados da década passada, em terras da Síria e do Iraque. Grupo que se opõe ao Talibã e, logicamente, aos Estados Unidos, daí o duplo objetivo nos atentados.

O mais vexatório é que antes disso, na segunda-feira, o diretor da CIA, a agência de Inteligência norte-americana, William Burns, se reuniu com o cofundador do Talibã Abdul Ghani Baradar, para acertar uma prorrogação na data para a saída das forças norte-americanas. Recebeu como resposta um sonoro não. Baradar enfatizou que não aceitava mudança no acordo, mas fez uma concessão. Deu mais prazo para a saída de civis.

Assim é que, salvo se houver uma mudança em função dos atentados, os Estados Unidos saem do Afeganistão como um cachorro acuado com o rabo entre as pernas. E deixam à mercê da China um território rico em minerais como cobre, cobalto e o cobiçadíssimo lítio, cada vez mais requisitado para as baterias de automóveis e de celulares. Nem isto os Estados Unidos souberam aproveitar nos 20 anos de presença no Afeganistão.

 


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