Venezuela e o narcotráfico

Venezuela e o narcotráfico

Começam a ser esclarecidas as ligações do governo com traficantes e financiamento de partidos

Jurandir Soares

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Três extradições para os Estados Unidos que estão em desenvolvimento poderão colocar às claras as ligações do governo da Venezuela com o narcotráfico e com o financiamento de partidos de esquerda na América Latina e na Europa. Uma delas já aconteceu. Chegou a Miami no sábado passado aquele que o presidente da Colômbia, Ivan Duque, denominou de o “banqueiro do chavismo”, Alex Saab, que foi o grande operador dos negócios do regime venezuelano. Ele estava detido em Cabo Verde, onde permaneceu por 16 meses tentando escapar da Justiça americana. Nas próximas horas deverão ser extraditados da Espanha outros dois figurões, acusados de manter intermediações com o narcotráfico e com a guerrilha das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). São eles Claudia Diaz, que fora enfermeira de Hugo Chávez e que atuava como tesoureira do sistema, e o general Hugo Armando Carvajal, conhecido como Pollo (frango em espanhol) Carvajal. Ele foi apontado como integrante do “Cartel dos Sóis”, formado por militares e integrantes do governo venezuelano. Entre outras, uma de suas funções na Espanha era fazer chegar dinheiro para o partido Podemos, de esquerda, que faz parte do governo.

Entre os negócios nebulosos feitos por Claudia Díaz estaria a compra de 250 lingotes de ouro, avaliados em 10 milhões de dólares. Ela teria também servido de escada para os negócios do empresário Raúl Gorrín, acusado de ser parte de um esquema de corrupção associado ao controle cambial que restringiu a economia venezuelana durante 15 anos e enriqueceu pessoas próximas do governo. Gorrín é dono da Globovisión, o único canal de notícias 24 horas que havia no país, que inicialmente era muito crítico ao governo. Quando Gorrín o comprou, em 2014, a linha editorial mudou para um apoio total ao chavismo, como um eco da emissora estatal.

Quem viu algum dos seriados sobre Pablo Escobar lembra de que o pior que poderia acontecer para aquele narcotraficante era ser extraditado para os EUA. Pois esta mesma batalha vinha sendo desenvolvida pelos três que agora estão sendo entregues às autoridades norte-americanas. Em meio às acusações que pesam contra eles está a de fazerem o dinheiro seguir o seu curso utilizando malotes diplomáticos de representações de países amigos do chavismo. Segundo a jornalista Elisa Robson, a embaixada de Cuba e até o consulado do Brasil em Caracas teriam participado desse esquema. Fato que, evidentemente, vai exigir uma investigação dessa denúncia em nosso país.

Com base em dados da ONG Transparência Venezuela, o jornal El País noticia que, quando estava nas mãos da oposição, o Parlamento venezuelano calculou que a trama de corrupção em torno do chavismo superasse os 400 bilhões de dólares, associados principalmente à empresa petroleira estatal e ao controle cambial, uma sangria do patrimônio público que levou ao colapso econômico e à atual crise humanitária na Venezuela. Só o escândalo da Banca Privada d’Andorra (BPA) envolve 2,3 bilhões de dólares em subornos relativos a contratos da PDVSA. Outro 1,5 bilhão estaria congelado em contas e propriedades nos Estados Unidos, de acordo com organizações que promovem a recuperação desses ativos. Enfim, nos Estados Unidos os extraditados, seguramente, irão revelar o que sabem.

 


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