Avanço da Covid-19 no Brasil é ameaça para Uruguai e Argentina retomarem a normalidade

Avanço da Covid-19 no Brasil é ameaça para Uruguai e Argentina retomarem a normalidade

Países vizinhos têm adotado cuidados sanitários rigorosos para evitarem perder o controle da doença

Por
Gabriel Guedes

Com mais de 1.700 quilômetros de fronteira, o Rio Grande do Sul é a face do Brasil que os argentinos e uruguaios enxergam. Mesmo sendo o segundo melhor estado, entre os 26 e o Distrito Federal, no combate à pandemia da Covid-19, os nossos vizinhos não se sentem tranquilos. A forma com que o Brasil, como nação, vem conduzindo a crise sanitária, causa temor nas áreas mais próximas ao nosso país. Mais do que isso, para as províncias argentinas de Misiones e Corrientes, por exemplo, o aumento de casos no interior do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, tem corroborado para não retomarem plenamente a normalidade. Enquanto o lado gaúcho tem 162 casos de contágio em cidades da linha de fronteira, os argentinos somam apenas 147 casos, sendo só 3 em uma cidade ribeirinha ao Rio Uruguai e o restante nas capitais e interior das províncias argentinas. No começo deste mês, o governador de Misiones, Oscar Herrera Ahuad, à imprensa local, descartou relaxar as medidas de distanciamento social por causa do “contexto regional bastante complexo”, em uma referência à multiplicação de casos no Brasil. Segundo ele, qualquer brasileiro que atravessar a fronteira poderia provocar maiores contágios e prejudicar todo o trabalho já realizado, que se não tivesse esta ameaça, já poderia estar em condições de ingressar em outra fase da retomada. Ao sul, a apreensão dos uruguaios não é diferente. Com mais quilômetros de fronteira seca e também com um número maior de cidades-gêmeas, a fronteira do Uruguai com o Brasil tem somente 1 caso ativo no país vizinho. Mas, no lado de cá, já são pelo menos 283. Um quadro que tem preocupado as autoridades do Departamento de Rivera, que têm observado com atenção o aumento no número de casos em Santana do Livramento.

O presidente argentino, Alberto Fernández tem expressado preocupação e afirmou, em uma emissora de rádio argentina, no começo de maio, que o Brasil representa uma ameaça para a América do Sul. “É um risco muito grande. A nós vêm entrando caminhões do Brasil transportando cargas desde São Paulo, que é um dos (locais) mais infectados. Por isso digo, eu não entendo quando se fala com tanta irresponsabilidade, na verdade, não entendo”, avaliou Fernández. Opinião compartilhada pelo presidente paraguaio, Mário Abdo Benitez. "É algo que nos preocupa muito, mas nós decidimos defender a vida dos paraguaios e compatriotas e sabemos que o Brasil, não é culpa nossa, é uma realidade, é uma grande ameaça a propagação do coronavírus" comentou durante. visita à cidade de Pedro Juan Caballero, na fronteira com o estado do Mato Grosso do Sul, no dia 13 de maio. Apenas o presidente uruguaio, Luis Lacalle Pou, evitou dar declarações mais incisivas. No entanto, a preocupação não é diferente: “Não temos só um problema em Rivera, temos um problema no país. Neste momento, Rivera tem uma complexidade distinta de outras zonas”, disse o presidente uruguaio, Luis Lacalle Pou, durante visita a Santana do Livramento, no dia 24 de maio.

Com uma população de cerca de 3,5 milhões de pessoas, o Uruguai tinha até a última sexta-feira, 12 casos e 24 óbitos. A maior quantidade dos casos está na região de Montevidéu e nos departamentos que fazem fronteira com o Brasil, como o de Rivera, que tinha 1 pessoa com o novo coronavírus, ficando atrás apenas da capital e do departamento de Canelones em número de casos, que segundo dados do “Sistema Nacional de Emergencias” (Sinae)”, somavam 5 casos. Para uma comparação, somente em Santana do Livramento há 83 casos. Na Argentina, país com quase 45 milhões de habitantes, pouco mais de 2 milhões moram nas províncias de Corrientes e Misiones, vizinhos ao Rio Grande do Sul. A primeira tem 108 contaminados e a segunda 39, respectivamente, segundo dados do ““Ministerio de Salud”. Neste cenário, uma situação emblemática são as cidades de San Javier e a gaúcha Porto Xavier. Separadas pelo rio Uruguai, estão a cidade argentina de 17 mil habitantes e nenhum caso e a brasileira, de cerca de 10 mil moradores e 27 contaminados. Quadro que se repete em dezenas de outros pares fronteiriços, como Uruguaiana e Paso de Los Libres e São Borja e Santo Tomé.

O primeiro caso de Covid-19 na Argentina foi registrado em Buenos Aires no dia 3 de março, uma semana depois do primeiro caso do Brasil e também da América Latina, observado em São Paulo no dia 26 de fevereiro. Tudo de pessoas que tinham recém chegado de viagem da Europa. Mas foi no dia 7 de março, na Argentina, que aconteceu a primeira morte pela doença. Mas desde então, os dois países tomaram caminhos bem diferentes e têm chegado a resultados igualmente distantes. Enquanto no Brasil, as medidas de precaução tiveram que ser tomadas pelos estados e municípios, sem uma atitude unificada do governo federal, da Casa Rosada, a Argentina impôs uma quarentena obrigatória, iniciada em 20 de março. Também foi determinado fechamento das fronteiras. Em um primeiro momento, os argentinos que ainda estavam no Brasil só poderiam retornar ao seu país por meio de Uruguaiana. Agora, apenas o transporte de cargas pode atravessar de um lado ao outro, mas ainda assim com uma grande fiscalização. Na travessia entre Porto Xavier e San Javier, por exemplo, somente uma pessoa pode estar acompanhando o caminhoneiro. A estratégia argentina, desde o começo tem sido a de acatar as recomendações dos epidemiologistas em detrimento das atividades econômicas. O presidente Fernández assumiu pessoalmente a guerra contra o novo coronavírus, e segundo a imprensa argentina, sua popularidade cresceu à medida que os resultados das medidas sanitárias surtiam efeito. Até a última sexta-feira, eram 37.506 casos e 948 mortos, um número cerca de 50 vezes menor que os 47.869 mil óbitos contabilizados no Brasil na mesma data.

Mas entre os dois países que fazem fronteira com o Rio Grande do Sul, o Uruguai é o que vem se destacando ao redor do mundo pelo sucesso no combate ao novo coronavírus, causador da Covid-19. Até o momento, o país registrou 850 casos da doença e 24 mortes. Apesar de não ter decretado quarentena obrigatória, desde muito cedo uma série de medidas foram tomadas para evitar a disseminação do vírus. No dia 13 de março, foram registrados os quatro primeiros casos de contaminação pelo novo coronavírus por lá. No mesmo dia, o governo anunciava a suspensão das aulas por 15 dias. As escolas permaneceram fechadas até o dia 22 de maio, mas ainda em meados de março, o governo determinou também o fechamento de todos os estabelecimentos comerciais, exceto farmácias e os de venda de alimentos. De acordo com especialistas, outra das ações uruguaias que tem ajudado a conter a disseminação da doença foi a ampla testagem. O país fez, até o momento, mais de 55 mil testes. O fechamento total das fronteiras com a Argentina, e parcialmente com o Brasil - pela dificuldade de controle das chamadas fronteiras secas, quando não há um rio, por exemplo, separando os países, mas apenas uma linha simbólica - impediu o ingresso de estrangeiros não residentes no país.

Balsa entre Porto Xavier e San Javier, agora só atravessa com caminhões de carga por causa da pandemia. Foto: Prefeitura de Porto Xavier

De acordo com o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), André Reis da Silva, o relacionamento dos argentinos e uruguaios só não é pior por causa do Rio Grande do Sul, que assim como os estados de Santa Catarina e Paraná, têm mantido a Covid-19 em patamares mais controláveis, diferente de estados do Norte, Nordeste e da região Sudeste, com destaque negativo para Rio de Janeiro e São Paulo, onde o número de casos não para de crescer. Juntos, os três estados do Sul tinham mais de 45 mil casos, o que equivale praticamente ao número de contaminados só em Pernambuco, por exemplo. “Os países vizinhos estão conseguindo controlar um pouco mais a doença. Aquilo que a gente chamaria de Conesul - incluindo o Paraguai - está com níveis mais baixos de contaminação, que se assemelham um pouco ao que está sendo feito na região Sul do Brasil. Por isso que não fizeram bloqueio total das fronteiras. Mas ao passo que se aumenta mais casos, novas sanções serão inevitáveis”, acredita o especialista. Mas as províncias de Corrientes e Misiones seguem mantendo o cerco à Covid-19. No caso da primeira, além de olhar para o grande número de casos do Brasil, observa também a situação na província do Chaco, na margem oeste do Rio Paraná, onde já há quase 1,5 mil contaminados. Por isso, todo corredor do Rio Uruguai, entre Santo Tomé e Paso de Los Libres, passando por Alvear - que fica em frente a Itaqui - tem rigorosos protocolos para manejo e testagem de pacientes e também para circulação de veículos de cargas. Em Misiones, que já avançou com a abertura de bares, restaurantes e sorveterias, e estabeleceu dias para que a população faça caminhadas ao ar livre, autoridades locais temem que casos que estejam no interior da faixa de fronteira brasileira, nos três estados do sul do Brasil, elevem os índices de contaminação e estrague o resultado do esforço feito pela população. “Em Barracão (Brasil) há pelo menos cinco casos de coronavírus, todos recuperados. O problema é a 100 quilômetros da fronteira e o Brasil é tão grande que tem muitos casos. A gente tem que pensar que ao passarem pela fronteira para levar ou trazer um produto, podemos estar assumindo um risco”, disse há cerca de uma semana, o intendente Guillermo Fernández, que administra a cidade de Bernardo de Irigoyen, que pertence à mesma província, mas que se situa na fronteira com a cidade catarinense de Dionísio Cerqueira e a paranaense de Barracão.

PONTOS DE TRAVESSIA

Os locais que mais tiram o sono das autoridades de duas das províncias argentinas e de cinco dos departamentos uruguaios são aquelas em que há a possibilidade de passagem para o Rio Grande do Sul e vice-versa, em particular as cidades-gêmeas. Dos 497 municípios gaúchos, 196 deles - ou 39,43% - se situam dentro dos 150 quilômetros da faixa de fronteira, estabelecida pela lei federal 6.634, de 2 de maio de 1979.

Até a manhã da última sexta-feira, estas localidades somavam 2.962 casos de Covid-19, o que corresponde a uma parcela de 16% dos 17.822 contaminados em 363 municípios que tiveram pelo menos um caso do novo coronavírus. Entretanto, a preocupação de argentinos se entende por existirem lugares nesta área com altíssima disseminação da doença entre a população. Saldanha Marinho, com 2.650 moradores, no dia 19, tinha 34 casos e uma incidência de 1.283 infectados a cada 100 mil habitantes. O município fica às margens da BR 285, importante rodovia que faz a ligação com o país por meio de São Borja. Entretanto, Esperança do Sul, Porto Xavier e Tiradentes do Sul, os três limítrofes à Argentina, também possuem incidência elevada por 100 mil habitantes, de 410,1, 263,5 e 175,3, respectivamente, e somam 49 casos. Em compensação, no outro lado do Rio Uruguai, são apenas três casos, no município de Guaraní.

 

Na cidade argentina de San Javier, onde mora José Rigo, não há nenhum caso de Covid-19

O diretor da rádio FM Alto Uruguay e do portal de notícias La Mission Digital, José Rigo, que mora em San Javier, conta que há um histórico de convivência plena entre os moradores argentinos e brasileiros da região das Missões, com um intercâmbio cultural e comercial de ambas margens do Rio Uruguai. Mas a pandemia tem dificultado as relações. Apenas o transporte de cargas segue com permissão de cruzar a fronteira. “Mas somente uma pessoa além do motorista do caminhão. Os turistas estão proibidos. Nem daqui e nem daí podem passar”, conta. Para não seguir o mesmo caminho da gêmea brasileira, Rigo conta que os moradores de San Javier tem seguido fielmente as recomendações de distanciamento social. “Ao pé da letra. Eu acho que até demais. As pessoas estavam com muito medo quando começou tudo”, lembra. A localização da província de Misiones, de acordo com o argentino, situado entre o Brasil e o Paraguai, tem deixado a retomada mais cautelosa e decorrente disso, mais lenta. “Agora começou a aumentar os casos na capital, Posadas, e a província depende do que decidir o governo federal. Há muita preocupação com o Brasil, mas não é só por isso que depende nosso isolamento”, pondera. Mesmo assim, a situação de Porto Xavier, com 27 casos, tem sido observada de perto pelo governador de Misiones, que chegou ir a San Javier no dia 10. Para impedir problemas à cidade, as autoridades argentinas estão reforçando as medidas de segurança na aduana e redobrando as medidas para coibir a passagem clandestina de pessoas de um país ao outro.

DUAS NAÇÕES, UM VÍRUS

O Brasil e Uruguai tem uma fronteira de mais de 1 mil quilômetros. A região, que vai do Chuí à Barra do Quaraí tem uma das menores densidades populacionais do RS, mas possui cidades maiores que as da região vizinha à Argentina. Considerando os 150 quilômetros de faixa da fronteira, Pelotas, Rio Grande, Bagé e Santana do Livramento, duas estão com menos de 100 casos de Covid-19 e quase todas possuem reduzidas taxas de incidência. Pelotas, inclusive, é a única cidade brasileira com mais de 200 mil habitantes sem mortes pela doença. Mas a situação se mostra mais descontrolada em cidades menores, como Lavras do Sul - com 20 casos e uma incidência de 267,4 casos a cada 100 mil habitantes -, e também Vila Nova do Sul, situada à beira da BR 290, que tem 4.280 moradores e 12 casos, uma incidência de 280,4 contaminados por uma população de 100 mil. Contudo, diferente dos argentinos, as autoridades uruguaias têm suas atenções voltadas ao que acontece na linha de fronteira, em Livramento e Rivera, mais especificamente. Juntas, somam mais de 155 mil pessoas, que levam basicamente uma vida de dupla nacionalidade, em uma economia conurbada. Entretanto, apesar de serem parecidas e compartilharem muitas coisas, a situação de Rivera, ainda que seja a terceira pior do país vizinho, era de apenas um caso ativo e duas mortes na última sexta-feira. No total, 56 moradores se infectaram pela doença. Separada por uma rua e uma praça, Santana do Livramento coleciona pelo menos 83 infectados e dois óbitos pelo novo coronavírus. Contrastando com a cidade uruguaia, são 45 santanenses que estão com a doença no momento.

Mas na impossibilidade de fechar a fronteira entre as duas cidades, na saída de Rivera, em direção à Ruta 5, o governo uruguaio implantou um bloqueio para impedir o avanço de estrangeiros, fazer controle de temperatura dos uruguaios e consequentemente reduzir a propagação do novo coronavírus. No 1° Webinar Internacional sobre a Covid-19, com foco na experiência de Brasil e Uruguai, promovido pela Associação Médica Brasileira (AMB) no começo do mês, o governador do RS, Eduardo Leite falou sobre a cooperação, entre as equipes de saúde gaúchas e uruguaias, na elaboração conjunta de protocolos a serem adotados nos municípios da fronteira. “Temos uma relação próxima e antiga com os vizinhos uruguaios e este trabalho de cooperação é muito importante para contermos o vírus e somarmos as forças para combatê-lo”, ressaltou. Parceria ressaltada pelo ministro da Saúde Pública do Uruguai, Daniel Salinas. “Não é porque parece tudo bem que podemos relaxar. Precisamos persistir nas ações e considerar as cidades binacionais como uma unidade sanitária é muito importante. Toda a cooperação deve estar a serviço das nossas populações que, afinal, são uma só, os humanos, os hermanos”, afirmou Salinas. Umas destas medidas conjuntas, é a realização de testes pelo método RT-PCR nos moradores duas cidades, que são os exames de detecção que já foram aplicados em mais de 55 mil uruguaios. Isso foi necessário, para que não fosse utilizado apenas testes rápidos - método que fornece resultados menos confiáveis. Também na entrada de Livramento, pela BR 158 e BR 293, há barreiras sanitárias, onde veículos são desinfetados e sintomas dos condutores e passageiros são monitorados.

A ideia é que as duas cidades tenham um decreto binacional, segundo o prefeito de Livramento, Ico Charopen, reforçando as ações conjuntas com Rivera. Contudo, a entrada da Fronteira Oeste na bandeira vermelha do Distanciamento Controlado do RS nesta última semana, mostrou que esta unificação de normas não é uma tarefa tão simples. Além da restrição às atividades comerciais, determinadas pelo decreto gaúcho, o prefeito estabeleceu ainda um toque de recolher, das 22 horas às 5 horas da manhã por 15 dias. Também estão restritas à circulação de ônibus de turismo e a realização de eventos de qualquer tipo. O prefeito tem defendido na mídia da região que “não se vai conseguir controlar o vírus se não for feita uma ação conjunta”. Mas a intendente de Rivera, Alma Galup prefere aguardar uma posição da Chancelaria e do Ministério da Saúde Pública para decidir que rumo pretende seguir no combate à doença. Até o momento, as lojas de Rivera estão trabalhando com expedientes de 4 horas diárias e devem cumprir os protocolos sanitários. Mas a situação, por exemplo, acabou provocando enormes filas fora dos free shops no feriado de Corpus Christi. Segundo dados do “Centro Coordinador de Emergencias Departamentales (Cecoed)” de Rivera, houve algo entre 3.500 e 4 mil veículos no feriadão na cidade. Para o advogado Thomaz Britto, 30 anos, que se mudou da capital gaúcha para Santana do Livramento há um mês, vê os dois lados com várias medidas semelhantes, mas observa o lado uruguaio um pouco mais flexibilizado. “Tinha muitas filas, mas ainda assim muito controlado em relação à distância. A gente até se surpreendeu, no começo da quarentena, que aqui em Livramento estavam obrigado todo mundo usar máscara, enquanto em Porto Alegre não precisava. Mas tenho achado o centro de Livramento mais vazio que o de Rivera, com pessoas se cruzando, usando máscara. Mas isso é uma questão dos turistas, mais do que dos moradores”, relata. Britto conta que não há nenhum controle de passagem entre os dois países na zona urbana. “Mas não dá para sair para fora de Rivera”, pontua.

SAÚDE X ECONOMIA

Caminhões, único meio de atravessar a ponte internacional entre Uruguaiana e Paso de Los Libres, na Argentina, são desinfectados na chegada aos países. Foto: Everaldo Jacques/ASSCOM/PMU/CP

O professor de Relações Internacionais da UFRGS, lembra que a economia nesta área tem um aspecto peculiar, por ter brasileiros trabalhando no Uruguai e uruguaios trabalhando no Brasil. Por isso ele avalia que as medidas mais cautelosas assumidas pelo prefeito de Santana do Livramento visam proteger o conjunto urbano. “Se Livramento se mostra descontrolada, Rivera fecha e os prejuízos serão muitos”, sugere. E embora não pareça, a questão sanitária está intimamente ligada à economia e às relações com outras nações. “O negacionismo tem origem na extrema direita. Até alguns líderes globais, como Donald Trump, vem se dobrando. Mas contraditoriamente no Brasil, Bolsonaro está dobrando aposta. E choveu no colo dos governadores e prefeitos as medidas mais duras. Mas com o descontrole sanitário de saúde, vamos ter um efeito mais prolongado da pandemia”, explica. De acordo com Silva, o Brasil está ficando cada vez mais isolado no cenário internacional e a falta de controle sanitário e de transparência, como a tentativa de ocultação de dados da pandemia de Covid-19, pode levar o país até mesmo a sofrer com embargos internacionais, que vão desde a proibição de entrada de cidadãos em outros países - como já anunciado por Estados Unidos e União Européia - até o bloqueio de exportações. “A Europa, por exemplo é mais sensível a isso. Antes usava a questão sanitária com muita frequência para suspender a importação de carne brasileira, para impor uma negociação comercial. Mas agora eles podem ampliar isso”, analisa o professor. “Então, tudo vai inviabilizando boa parte dos negócios internacionais com o país. No RS temos frigoríficos que abatem frango e carne bovina com procedimentos rituais Halal (muçulmano/islâmico) e Kosher (judaico). Daqui a pouco a certificação caduca e como faz para os inspectores virem ao Brasil?”, questiona. Por isso, para Silva, se for necessário os países vizinhos, em uma medida mais drástica, poderão inclusive barrar a entrada de veículos de carga brasileiros para evitar a propagação do novo coronavírus. Ao mesmo tempo, se a crise se estender ao verão, é provável que o litoral gaúcho e catarinense não tenha turistas argentinos e uruguaios na próxima temporada. “A política externa do Brasil vai contra os vizinhos, com o esvaziamento do Mercosul e da Unasul (União das Nações Sul-Americanas). Sim, também tinha um envolvimento nos assuntos internos dos outros países, como a intromissão de Bolsonaro nas eleições argentinas. Então há um aumento da tensão e das dificuldades políticas. Mas acho difícil. Não interessa nem ao Brasil, nem aos vizinhos colocar barreiras comerciais”, afirma. O Mercosul representa 25% da economia brasileira, segundo o professor, mas para alguns países, como o Uruguai, é uma participação de 40%. Por isso, Silva acredita que país precisa virar a chave no enfrentamento à pandemia, hoje feita de um retalho de medidas assumidas por administrações regionais. “No momento estamos presos no Brasil. E o isolamento do Brasil pode significar que fiquemos em último na fila da vacina”, conclui.