Empenho incansável dos profissionais da medicina

Empenho incansável dos profissionais da medicina

No Dia do Médico, CP homenageia a profissão com cinco histórias de quem enfrentou os receios em meio à pandemia para honrar o juramento de Hipócrates

Por
Christian Bueller

Bem que Maria Luisa Aronis tentou, mas não conseguiu fugir da medicina. O pai e o avô materno seguiram nessa profissão e se tornaram psiquiatras. Muito mais pela admiração aos dois do que por qualquer pressão, acabou seguindo o mesmo caminho. “Foi muita vocação mesmo, não poderia ter feito outra faculdade. Tenho muito amor à medicina”, diz Malu, como é conhecida. Só que, diferente dos dois, preferiu cursar o que mais gostava de estudar na área, a infectologia. “Bactérias, fungos, vírus, é um mundo bastante encantador na ciência”, brinca. Formada na Ufrgs em 2007, poucos anos depois já estava em um ambulatório na sua área. Há oito anos, está no Grupo Hospitalar Conceição. Ela está entre os milhares de profissionais na linha de frente no combate à Covid-19. A categoria comemora o seu dia, neste 18 de outubro, com muito trabalho e dedicação. Segundo o Conselho Federal de Medicina, somente no RS, mais de 25 mil médicos com menos de 60 anos estão em atividade. Somando horas e mais horas de trabalho, seguem o juramento de Hipócrates que fizeram na formatura para aplicar “os regimes para o bem do doente”.

Não foi a primeira pandemia de Malu, que já havia enfrentado o H1N1 em 2009. No início, em março deste ano, a autodenominada corajosa infectologista se assustou com a doença desconhecida. “Tive um estresse do tipo ‘meu trabalho pode me matar’. Uma sensação muito estranha”, reconhece. Mas quanto mais aumentavam os casos, mais se envolvia. “Foi bom porque alguns dos mais experientes foram afastados. Desde então, me dedico 100% ao hospital para os doentes da Covid-19. Cheguei a trabalhar semanas seguidas, de domingo a domingo”.

Malu preferiu se distanciar das pessoas por trabalhar em uma unidade de isolamento e lidar diariamente com pacientes do novo coronavírus. “Tinha, inclusive, um relacionamento mas, por ele ter uma mãe idosa, também nos afastamos e, com a distância, acabamos terminando”, conta. Também pelo tempo exíguo, precisou parar com uma das atividades que mais a ajudavam a drenar a energia, o remo, sua “paixão e terapia”. Se por um lado, ficava distante dos amigos, cultivou outros, dentro do hospital. A união entre as equipes é uma das boas lembranças até aqui. “Estamos afinados, todos pegando junto. E a relação com pacientes também é muito intensa, uma lição de garra e de resiliência. É impressionante”, relata. Do que poderia ser a ponta mais frágil emocionalmente, vem grande parte da força que Malu carrega para enfrentar a pandemia. “As famílias dos pacientes têm dado um suporte imenso, sempre transmitindo mensagens de apoio”, lembra ela.

Momentos bonitos não faltaram. Mas nesse tempo todo, a única vez que Malu realmente chorou foi na internação de um colega bem próximo de outra especialidade. “Nos encontrávamos sempre nos corredores. Ele foi infectado e ficou bem mal na UTI. Tive crises de choro em casa. Muito triste, fiquei acabada. Graças a Deus, teve alta. Mas fiquei fragilizada”, confessa. De legado da pandemia, Malu viu pessoas que antes não se cuidavam e, atualmente, têm se preocupado com a própria saúde. “Isso engloba saúde mental. Tiveram tempo para o autoconhecimento. Valorizar as coisas boas e o afeto. O próprio afastamento foi uma forma de afeto.” Ela agradece o apoio recebido, mesmo à distância, da família e dos amigos: “Muita gente que me transmitiu muitas mensagens de força, que me incentivou e continua me incentivando”.

Ainda não acabou

Colega de Malu no Conceição, a médica intensivista Taiani Vargas é uma das coordenadoras da UTI. Desde cedo, já queria exercer a profissão. “A escolha veio da convivência com a minha avó, que morava com a gente. Gostava de acompanhá-la nas consultas e entender o que estava acontecendo. Aquilo foi crescendo e o desafio da medicina ficando mais intenso na minha vida”, relembra. Pensava em trabalhar com cardiologia, mas, durante os estágios, conheceu o lado da terapia intensiva. E por lá ficou: “Na UTI, os pacientes são muito graves. Lidar com o risco de óbito é uma constante. As famílias, carentes, passam por um momento de angústia. Ali, percebi um lugar onde pudesse desempenhar melhor o que conhecia por medicina”.

Taiani, que também é coordenadora da UTI do Hospital Pavilhão Pereira Filho na Santa Casa, logo passou por uma experiência que colocaria o seu dom à prova. “Logo que vieram as primeiras notícias da China, o primeiro pensamento é o da negação. ‘Não vai chegar aqui’”, recorda. Com o passar dos dias, e a noção da proporção que a Covid-19 poderia tomar, a insegurança e o medo fizeram parte do dia a dia. “Vimos que algumas medidas precisariam ser tomadas e tivemos tranquilidade, coerência e sanidade mental para enfrentar tudo isso”, conta.

Desde março, quando a pandemia foi declarada, a médica só não foi sete dias para o hospital. Buscou manter o distanciamento de todo mundo e assim foi. Mas em julho, uma ligação da irmã mudou o rumo dessa história. “Disse que meu pai teve um AVC. Com este problema grave em casa, tive que modificar a programação. É um período de recuperação ainda, em que não tem como ficar longe”, explica. Foi aí quando percebeu que a vida continuava fora do hospital e que há outros problemas não relacionados ao coronavírus. “No início, eu mesma tinha dificuldade de entender que outras doenças continuavam acontecendo”.

Entre as lembranças, as positivas se sobrepõem às negativas. “Prevaleceu o espírito de grupo. Sempre que alguém ficava sintomático e não poderia trabalhar, havia quem se prontificava para substituir”, ressalta. Taiani volta no tempo ao pensar no primeiro paciente de Covid-19 que chegou ao Conceição: “Estava muito doente, ficou internado por 36 dias na UTI. Mas saiu superbem. Hoje em dia, até dá entrevistas para TV e jornal”. A intensivista ainda tem dificuldade de avaliar os efeitos da pandemia “Até porque não acabou. Mas acredito que a gente cresce com crises. O aprendizado é imensurável. O pensamento deve caminhar para a coletividade”, lembra.

Readaptação da rotina

Médico intensivista, mas do CTI do HCPA, José Augusto Santos Pellegrini lembra a preocupação quando a pandemia chegou. “Começou muito cedo no Hemisfério Norte e nos outros continentes. E a gente, aqui, acompanhando cada passo dessa história, mas ainda sem conhecer a realidade”. Para ele, a demora também foi boa para que a equipe se organizasse. Mas tudo tem dois lados. “Pudemos nos preparar quanto a conhecimento, recursos humanos, arsenal terapêutico e equipamentos de proteção individual. Por outro lado, foi um tanto quanto apreensivo porque não sabíamos que tipo de reflexo teríamos no nosso meio, nosso trabalho, nosso dia a dia”, diz.

A rotina em casa também foi um exercício de adaptação. “Logo cedo, decidimos que iríamos suspender temporariamente a nossa funcionária doméstica, então tivemos que nos organizar em vários aspectos até porque minha esposa é minha colega, médica intensivista”, lembra Pellegini. Com duas crianças em casa, o casal reprogramou horários, aulas on-line e compromissos pessoais. Para isso, contou com a disposição para dar atenção às lides da casa. “Não foi fácil. Mas a experiência foi interessante, pois não tínhamos tanto contato com os filhos de uma maneira tão continuada, sem idas para escola e outros eventos”. Os finais de semana foram intensos, de uma convivência importante com os pequenos, ainda que chegassem em casa fatigados, física e mentalmente, do trabalho.

Das lembranças da pandemia, ficará a crença em um mundo melhor. “Tenho esperança de que construamos coisas boas dessas dificuldades. O hospital amadureceu muito no sentido do acolhimento, comunicação, humanização, tentando trazer um ambiente um pouco mais próximo do normal neste cenário de contingência”, diz. Para Pellegrini, foi também necessário fortalecer vínculos e trabalhar em equipe para possibilitar a busca de soluções. Ele destaca ainda a inovação tecnológica e o papel da pesquisa científica. “Houve colaboração entre grupos de pesquisa, fazendo que o conhecimento crescesse nesse intervalo. Temos uma doença e sabemos razoavelmente sobre ela, como se portar, o que funciona ou não, graças ao compartilhamento mútuo de experiências”.

José Augusto Santos Pellegrini afirma que tanto a atividade profissional como também a rotina em casa precisaram ser reinventadas com a quarentena Foto: Ricardo Giusti

Janelas para a paciência

Quando criança, Ana Claudia Tonelli Oliveira morava atrás do hospital onde trabalhavam os pais. “Meu pátio de brincar dava para as janelas dos quartos de lá. Volta e meia, eu via rostos de pessoas tristes pela janela. Outras vezes, eram feições tranquilas e eu ficava curiosa”, conta a atual hospitalista do Serviço de Medicina Interna do HCPA da Unidade Covid-19. Olhando em retrospecto, aquela curiosidade fez Ana Claudia querer cursar medicina. “Queria ver se eu poderia interferir nessa história, entre quem fica doente e os visitantes que vão lá”.

Corta a cena. O ano é 2020 e ela está lendo um artigo do New York Times sobre a Covid-19. “Minha sensação era de incerteza, de medo de não saber cuidar, de ficar doente, de transmitir a doença e de como eu passaria por tudo isso”, conta. Ana foi uma das médicas voluntárias quando o hospital começou a se organizar. Em abril, o local era referência e ela cuidava da unidade para internados graves. “Eu e um colega fomos a primeira equipe e trabalhamos junto com o pessoal da infectologia, porque não conhecíamos nada sobre a doença”.

A vida pessoal também mudou radicalmente com a pandemia. “Em casa, tudo mudou porque eu que fazia as compras no supermercado, na feira. Passou a ser responsabilidade do meu esposo, Gustavo”. As mudanças tiveram que ir além. “Meu local dentro de casa foi diferente, eu sempre ficava muito afastada, especialmente no início, quando a gente tinha dificuldade de entender como se transmitia a doença. Teve uma época que nem dormia na mesma cama com o meu marido”, ri. Ela não vê os pais desde março. Mas com o tempo, relata mais segurança por seguir todos os protocolos sanitários: “Fiz várias exames, não por estar com sintomas, mas por estar em contato com pessoas doentes. Todos deram negativos”.

Das tantas lembranças, difícil escolher a mais marcante. Para Ana, o mais triste é ver pessoas da mesma família se contaminando, ao mesmo tempo, da mesma doença. “Outro caso doído foi um paciente prestes a ser entubado que quis fazer um vídeo para se despedir da família. Ligava, ligava e ninguém atendia. Ele acabou gravando. Graças a Deus, teve alta”.

Missão: permanecer

Para a gerente médica da Emergência do HCPA, Giordanna Guerra Andrioli, as dúvidas no início do ano eram bem maiores do que as certezas. “Em janeiro, quando foram veiculadas as primeiras informações sobre o Covid-19, ficamos apreensivos. Que vírus era aquele? Que alcance teria? Será que chegaria a nós?”, lembra. Com a expansão da pandemia no Brasil em março, o sentimento se tornou um só: “Sentimos medo. Tememos pelas nossas vidas e das nossas famílias. Mas não recuamos. Era nossa missão, éramos nós que estaríamos na linha de frente. E então, tudo mudou”, salienta.

Giordanna cita as mudanças no cotidiano do hospital com o cenário que se apresentou, como os equipamentos de proteção individual e a necessidade de decisões ainda mais rápidas. Foram desenvolvidos novos protocolos e fluxos de atendimento. Ainda assim, o pior ainda estava por vir. “E, então o inverno chegou, e com ele o pico da pandemia no Estado. Parte da equipe também adoeceu. Mas permanecemos aqui”, frisa. Meses depois, ainda que haja uma diminuição no número de casos de Covid-19, Giordanna avalia que a batalha prossegue. “Estamos exaustos, física e mentalmente, mas com sensação de termos ajudado muitas pessoas. É a nossa missão”, afirma

Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895