Holocausto, para não esquecer
capa

Holocausto, para não esquecer

Há 75 anos, em 27 de janeiro de 1945, era liberado, pelo exército soviético, o campo de concentração de Auschwitz, um símbolo dos horrores do regime nazista. Confira os relatos de sobreviventes que conversaram com uma equipe da agência AFP

Por
AFP

O extermínio dos judeus pelo regime nazista causou 6 milhões de mortes. Os massacres começaram em 1939 na Polônia ocupada. Os primeiros guetos se formaram durante o inverno de 1939-1940 e os judeus que moravam nesses bairros fechados foram expostos à fome extrema.

Clique aqui para ler relatos dos sobreviventes do Holocausto

Após a ruptura do pacto germano-soviético e a invasão da URSS (22 de junho de 1941), os exércitos do Reich que se movem para o Leste são seguidos por “grupos de intervenção” (Einsatzgruppen), que realizam execuções nos territórios conquistados. Este “Holocausto por balas” levará ao assassinato de um milhão de pessoas, principalmente judeus e prisioneiros de guerra soviéticos.

Industrialização do genocídio

A este primeiro genocídio por fome e balas, se segue o por gás, já experimentado na Alemanha na eliminação de pessoas com deficiências físicas e mentais. Na União Soviética, os comandos da morte acompanham o avanço do exército alemão com caminhões a gás. Na Polônia, as vítimas são levadas para locais de extermínio. O campo de Auschwitz-Birkenau, perto de Cracóvia, usou o gás Zyklon B no verão de 1941 com prisioneiros soviéticos e doentes.

Os judeus de Warthegau são exterminados no campo de Chelmno. No outono de 1941, o governo geral (nome da parte do território da Polônia ocupada pela Alemanha, mas não diretamente anexada) elaborou um plano para liquidar 2 milhões de judeus. Era o Aktion Reinhardt, que recebeu o nome de Reinhardt Heydrich, adjunto do chefe das SS, Heinrich Himmler. As SS eram uma organização paramilitar ligada ao partido nazista. Três campos de extermínio são construídos: Belzec, Sobibor e Treblinka. Quando estão operacionais, as SS e a força policial liquidam os guetos e transferem seus habitantes para lá.

No final de 1941, enquanto o programa sistemático de extermínio estava em andamento, era importante para Himmler e Heydrich esclarecer as responsabilidades do que estava sendo preparado. Dessa maneira, é organizada reunião de planejamento sobre “a Solução Final para a questão judaica” com os diretores dos principais ministérios e líderes das SS. Em 20 de janeiro de 1942, em Wannsee, perto de Berlim, 15 altos funcionários do Partido Nazista e do governo alemão ratificaram a deportação de judeus da Europa Ocidental, cujo número estimavam em 11 milhões, e destacaram o papel central das SS. Judeus de toda a Europa foram sistematicamente deportados para seis campos de extermínio, todos localizados na Polônia (Auschwitz, Majdanek, Chelmno, Belzec, Sobibor e Treblinka) desde o verão de 1942.

Auschwitz-Birkenau, que se tornou o símbolo do Holocausto, ocupa um lugar especial. Era um centro de extermínio, onde mais de 1,1 milhão de pessoas morreram, a maioria judias, mas também ciganos, além de também ser um campo de trabalho, onde a indústria alemã, particularmente a IG Farben, empregava deportados "selecionados" como escravos.

Os principais acontecimentos de 1945

Da libertação do campo de concentração de Auschwitz, ocorrida em janeiro, ao julgamento dos líderes nazistas em Nuremberg, dez meses depois, confira os acontecimentos-chave do ano de 1945, que marcaram o fim da Segunda Guerra Mundial.

27 de janeiro: Auschwitz libertado

Os soviéticos entram no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, onde foram encontrados cerca de 7 mil sobreviventes, homens e mulheres.

As forças alemãs, diante do avanço do Exército Vermelho, tinham evacuado os 60 mil prisioneiros do local por meio das "marchas da morte" a campos situados mais a oeste. Mais de 1,1 milhão de pessoas, entre eles 1 milhão de judeus, foram exterminados nesse imenso complexo de 42 km² construído no sul da Polônia a partir de 1940. O local se tornou símbolo do Holocausto. Em 24 de julho de 1944, após a descoberta soviética do campo Majdanek, próximo a Lublin, na Polônia, as tropas aliadas começaram o processo de liberação dos campos de concentração e extermínio. A última unidade a ser libertada foi Theresienstadt, situada ao norte de Praga.

4 a 11 de fevereiro: Conferência de Yalta 

Acontece em Yalta, na Crimeia, a conferência sobre o futuro da Europa, visando o cenário de rendição da Alemanha. Entre as autoridades presentes, estiveram Joseph Stalin, Franklin D. Roosevelt e Winston Churchill, que respondiam pela União Soviética, os Estados Unidos eoReino Unido. Em acordo, as três potências aliadas discutem, entre outras coisas, sobre a divisão da Alemanha em quatro zonas de ocupação, uma delas para a França. O problema da fronteira oriental da Polônia (cuja invasão em 1º de setembro de 1939 desencadeou o início da guerra) também é resolvido. Stalin consegue o reconhecimento da linha Curzon, criada na Conferência de Paz de Versalhes em 1919, o que permite que os soviéticos tenham 40% do território polonês.

13 a 15 de fevereiro: Dresden bombardeada 

Durante três dias, 650 mil bombas são lançadas por britânicos e americanos em Dresden, leste da Alemanha. Esses bombardeios deixam 25 mil mortos e destroem grande parte da cidade conhecida como a “Florença do Elba”, por causa do vale do rio de mesmo nome.

30 de abril: Morte de Hitler 

Adolf Hitler se suicida em um bunker, após supostamente ter ingerido veneno junto com sua mulher, Eva Braun, momentos antes de as tropas soviéticas bombardearem a sede do governo. Como os corpos nunca foram enterrados, há divergências quanto à causa da morte do Führer. No dia seguinte, Joseph Goebbels, segunda maior autoridade nazista, se mata ao ingerir cianeto junto a sua mulher e seus seis filhos. Após ser preso pelos ingleses em maio de 1945, Heinrich Himmler, chefe do Esquadrão de Proteção (Schutzstaffel), conhecido como SS, também acaba se suicidando com cianeto.

8 de maio: Alemanha derrotada

O suicídio de Hitler eoavanço do Exército Vermelho antecipam a rendição alemã. A primeira ata é firmada entre 6 e 7 de maio em Reims, na França, no quartel das forças aliadas na Europa, local comandado pelo general americano Dwight Eisenhower. A ata impõe que as tropas alemãs cessem os combates dia 8 de maio, às 23h01, no horário local. Trata-se também da data em que os americanos são escolhidos para anunciar oficialmente a vitória sobre a Alemanha nazista. A rendição total marca o final da guerra na Europa, mas os conflitos continuam na Ásia e no Pacífico.

17 de julho a 2 de agosto: Conferência de Potsdam

No sul de Berlim, no castelo Cecilienhof, em Potsdam, ocorreu a última conferência entre os líderes das três grandes potências vitoriosas: o novo presidente americano na época, Harry S. Truman, além de Stálin e Churchill, esse último substituído em 28 de julho por Clement Attlee, eleito após uma nova eleição no Reino Unido. Os acordos incluem, entre outros temas, o desarmamento, desnazificação e a democratização da Alemanha. As potências vencedoras definem também a linha Oder-Neisse como nova fronteira entre a Alemanha e a Polônia. No dia 26 de julho, os aliados lançam um ultimato ao Japão para exigir sua rendição.

6 e 9 de agosto: Hiroshima e Nagasaki 

Em 6 de agosto, a Força Aérea americana lança sobre a cidade japonesa de Hiroshima uma bomba de urânio de 4,5 toneladas, o primeiro bombardeio atômico da história. A explosão, equivalente a 15 mil toneladas de TNT, devasta a cidade. Cerca de 140 mil pessoas morreram, de imediato e até fim de 1945, por causa do incidente. Três dias depois, em 9 de agosto, uma segunda bomba, dessa vez de plutônio, explode sobre Nagasaki, ocasionando 74 mil mortes no mesmo dia e até o final do mesmo ano. Nesse contexto, Tóquio cede. Anunciada pelo imperador Hirohito em 15 de agosto, a rendição japonesa é confirmada no dia 2 de setembro, a bordo do encouraçado Missouri. A Segunda Guerra Mundial chega ao fim e deixa para trás entre 40 e 60 milhões de mortos, sendo metade civis, segundo historiadores. O número de judeus mortos é estimado em 6 milhões.

24 de outubro: Criação da ONU

Quase 14 meses depois de sua adoção, no dia 26 de junho, durante a conferência de São Francisco, a Carta das Nações Unidas entra oficialmente em vigor. A Organização das Nações Unidas (ONU), cuja sede é em Nova Iorque, substitui a Sociedade das Nações (SDN), que falhou ao não impedir a guerra. De acordo com o documento assinado por 51 países, a nova instituição disporia de um órgão executivo, o Conselho de Segurança, no qual os cinco membros permanentes, os vencedores da guerra (Estados Unidos, Reino Unido, União Soviética, além da França e China) teriam poder de veto.

20 de novembro: Julgamento de Nuremberg

É aberto em Nuremberg, Alemanha, o primeiro dos julgamentos da Alemanha hitleriana, que levará 218 dias. Responderiam pelos crimes contra a paz, crimes de guerra e contra a humanidade 22 dos mais altos dirigentes do regime nazista, entre eles o sucessor do Führer, Hermann Goering. No entanto, a sentença foi dada somente em 1º de outubro de 1946: 12 condenações à morte, três à prisão perpétua, duas a 20 anos de prisão, uma a 15 anos de prisão e outra a 10 anos de cárcere. Em 16 de outubro, dez dos condenados à morte são enforcados. Goering se matou poucas horas antes em sua cela.