Inteligência contra a tráfico
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Inteligência contra a tráfico

No ano passado, com ações pontuais a partir de informações e estatísticas, a RF praticamente dobrou as apreensões de cocaína e crack em relação a 2018

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Felipe Samuel/Foto: Ricardo Giusti

O serviço de inteligência da Polícia Rodoviária Federal (PRF) se transformou em aliado no combate ao tráfico de drogas no Rio Grande do Sul. No ano passado, com ações pontuais a partir de informações e estatísticas, a PRF praticamente dobrou as apreensões de cocaína e crack em relação a 2018. No ano passado, durante barreiras e atividades de fiscalização, os agentes apreenderam 916,4 quilos de cocaína, crescimento de 96,9% em relação ao ano anterior, quando foram retirados de circulação 465,1 quilos da droga.

O transporte de outro entorpecente também chamou atenção dos policiais: o crack. O aumento da circulação da droga, além de revelar a ousadia dos criminosos, mostra que a PRF apertou o cerco contra o tráfico. Em 2019, os policiais rodoviários federais tiraram de circulação 379,8 quilos da droga, mais do que o dobro do recolhido em 2018, quando capturaram 158,5 quilos. A PRF mantém ações de fiscalização de rotina nas principais vias do Estado, mesmo com defasagem de efetivo histórica. São quase 700 policiais para cobrir mais de 5,8 mil quilômetros de rodovias no estado, além de 1,7 mil quilômetros de fronteira. Em duas operações em janeiro, a corporação apreendeu 511 quilos de cocaína, o que representa mais da metade do total recolhido ano passado, além de 125 quilos de crack.

Cocaína em fundo falso de caminhão

Em uma operação de fiscalização, que contou com apoio do serviço de inteligência, em 31 de janeiro, policiais apreenderam 300 quilos de cocaína e 125 quilos de crack, escondidos em um caminhão, na BR 386, em Triunfo. Ao verificar o caminhão, emplacado em Santa Catarina, os agentes encontraram os tabletes das drogas na carroceria do veículo, em um fundo falso. De acordo com a PRF, com essa apreensão, quase meio milhão de pinos de cocaína e pedras de crack deixaram de chegar ao mercado de drogas no RS. Em outra ocorrência na BR 386, em Lajeado, a PRF apreendeu 211 quilos de cocaína escondidos em fundo falso da cabine de um caminhão. De acordo com a PRF, o nervosismo do condutor do veículo, também emplacado em Santa Catarina e que tinha a caçamba vazia, denunciou que havia algo de errado. Ao suspeitar da atitude do motorista, os policiais fizeram busca minuciosa no compartimento, onde encontraram 200 tabletes da droga. O homem, de 38 anos e morador de Camboriú, disse que pegou o entorpecente no Paraná e que seria pago para levá-lo até Novo Hamburgo.

A abordagem criteriosa e o serviço de inteligência da PRF contribuíram para a apreensão de mais de meia tonelada de cocaína no primeiro mês do ano. "Se alguns anos atrás a gente fazia policiamento em uma fiscalização baseada no aleatório principalmente, a gente transformou o combate ao crime com base no serviço de inteligência. Com isso as apreensões aumentam, principalmente porque grande parte da droga que entra no Estado vem escondida ou em receptáculo de veículo ou embaixo de carga. Veículos que antes eram fiscalizados aleatoriamente e não se tinha informação de crime seguiam embora sem ser achada a droga, hoje são desmontados e a droga é achada", explica o chefe de comunicação da PRF gaúcha, Felipe Barth.

Conforme Barth, com relação ao combate ao crime, é preciso desenvolver cada vez mais a inteligência policial e atividades operacionais, principais ferramentas utilizadas para realizar prisões e apreensões. Para impedir que o crime organizado se adapte a métodos e técnicas do serviço da PRF, Barth diz que há investimentos em sistemas de inteligência policial. “Isso faz com que nossas prisões e apreensões aumentem, porque a gente faz abordagens mais focadas em detrimento de abordagens aleatórias. É uma abordagem mais qualificada”, avalia. Apesar de continuar efetuando ações aleatórias de fiscalização de trânsito, os policiais reforçam as atividades junto a veículos apontados pelo serviço de inteligência com maior chance de envolvimento criminal.

Redução de mortes por acidentes

Se as operações de fiscalização passaram a ser realizadas com maior precisão, as ações de conscientização também foram reforçadas nos trechos cujos índices de acidentalidade são elevados, como nas BRs 290, 116 e 386. O objetivo é evitar as principais causas de acidentes nas rodovias federais do Rio Grande do Sul: falta de atenção, ultrapassagem indevida e embriaguez ao volante. Conforme a PRF, a Região Metropolitana é a que registra, historicamente, a maior parte dos acidentes. No ano passado, 305 pessoas perderam a vida em acidentes de trânsito nas BRs gaúchas, o que representa quase uma morte por dia. Mesmo que os números apontem para uma carnificina no trânsito em 2019, o resultado é levemente menor (2,8%) do que no ano anterior, quando foram registrados 315 óbitos em função de acidentes.

Com base em estatísticas, os policiais reforçaram a presença nos trechos entre Camaquã e Cristal, na BR 116; Montenegro e Vila Nova, na BR 386; e Eldorado do Sul, na BR 290, considerados locais com alto índice de acidentes. As obras intermináveis em alguns trechos e o movimento de caminhões e operários são considerados agravantes das condições da pista. “Os trechos de Eldorado do Sul e Camaquã e Cristal são de pista simples, alto movimento e não comportam mais movimento. E, para completar, ainda estão em obras”, observa. “Obra é sujeira na pista, desvios, caminhões com material transitando e isso aumenta risco de acidentes. Por isso esses dois trechos são campeões”, completa.

Entre as metas estabelecidas para este ano, estão a redução de mortes nas estradas federais gaúchas e aumento da sensação de segurança do usuário na rodovia. Com base nesses objetivos, a PRF vai reforçar ações de conscientização e fiscalização do trânsito. “Dar sensação de segurança para os usuários da rodovia para que eles possam rodar na rodovia observando que as leis de trânsito estão sendo mais respeitadas e que a criminalidade está sendo reduzida. Esses são nossos objetivos, além de reduzir mortes no trânsito”, justifica. “Quase todos os acidentes são provocados pelos motoristas, não pela estrada. Pouquíssimos (acidentes)são registrados em função das condições da estrada, quase todos são causados por imprudência e negligência”, complementa o inspetor Cássio Garcez, que também integra a comunicação social da PRF.

Ocorrências evitáveis 

A presença dos policiais nas estradas federais resultou em mais de 321 mil pessoas e veículos fiscalizados. Mesmo assim, houve aumento do número de acidentes (3,4%) e de pessoas feridas (12,2%) em relação a 2018. Ao todo, no ano passado, foram 4.615 acidentes, o que significa 3,4% a mais em relação a 2018, quando ocorreram 4.459. Durante 2019, 5.377 pessoas ficaram feridas em função de acidentes, enquanto em 2018 foram 4.790. Para diminuir o número de acidentes e mortes nas rodovias federais, cada policial trabalha com metas de fiscalização. Em algumas ações, os policiais contam com equipamento capaz de detectar no ar a presença de álcool dentro da cabine do veículo. O uso do aparelho visa dar agilidade na abordagem a motoristas com suspeita de consumo de álcool. “Varia de situação para situação, de local para local, mas os policiais têm metas de pessoas e veículos a serem abordados. Dependendo da situação, passageiros também são identificados e consultados e o condutor, submetido ao teste com bafômetro”, explica Barth.

As ações são concentradas na Região Metropolitana, onde há grande fluxo de veículos. “Policiamento é mais focado na RM, não adianta a gente aumentar o policiamento em uma rodovia onde dá um acidente com morte a cada três meses e deixar uma rodovia que dá um acidente com morte por semana com pouco policiamento. Temos que equilibrar, tanto com relação aos acidentes e mortes quanto à criminalidade. A criminalidade é maior aqui também”, observa Barth. Em contrapartida, Garcez afirma que existe volume enorme de infrações cometidas diariamente. “O termo ‘acidente’ é inadequado, porque acidente dá a entender que a ocorrência foi algo que não teria como evitar. As ocorrências de trânsito quase todas são evitáveis com adoção de uma postura mais defensiva na direção, por respeitar a velocidade, os pontos de ultrapassagem, as cadeirinhas para crianças, a questão do consumo de bebidas alcoólicas e substâncias entorpecentes. É o estado dos motoristas que causa a colisão do veículo”, alerta.