Consumo de alimentos orgânicos em expansão

Orgânicos em expansão

Consumo de alimentos sem agrotóxicos cresceu durante a pandemia e, segundo entidades ligadas à produção, tende a dar novos saltos nos próximos tempos porque a demanda segue em alta e deve atrair mais agricultores para o cultivo

Por
Patrícia Feiten

Lockdown não funciona. Esse vírus não existe. Vacinas não são seguras. Amplificadas pelas redes sociais, as mensagens baseadas na rejeição da ciência ficarão na história como um dos elementos mais nefastos da pandemia de Covid-19. Mas, enquanto o negacionismo conspirava contra o bem-estar dos brasileiros, uma parcela expressiva deles disse “sim” ao estilo de vida saudável. Com as medidas de isolamento social, as pessoas ficaram mais tempo em casa e redescobriram a cozinha, impulsionando o mercado de alimentos orgânicos. É o que mostra uma pesquisa da Organis, entidade que promove o setor no país.

Segundo o estudo “Panorama do consumo de orgânicos no Brasil”, realizado em 2021 pela Organis em parceria com a Brain Inteligência Estratégica e a iniciativa Unir Orgânicos, 31% dos brasileiros disseram consumir pelo menos um item orgânico nos 30 dias que antecederam a sondagem – no levantamento anterior, de 2019, esse percentual era de 19%. A preocupação com a saúde foi o principal motivo para esse aumento, tendo sido mencionada por 73% dos entrevistados. “Na pandemia, muita gente se preocupou com o autocuidado e encontrou no orgânico uma forma de melhorar a imunidade”, afirma o diretor da Organis, Cobi Cruz, destacando que, desses consumidores, 37% começaram a comprar esse tipo de alimento durante a crise sanitária.

Os hortifrutigranjeiros foram os itens mais consumidos, com 75% da preferência. Por região, o Centro-Oeste e o Sul concentram a maior parte (39%) dos entrevistados que disseram se alimentar de orgânicos. “O Rio Grande do Sul e o Paraná são estados que têm uma expressão muito forte em extensão rural dedicada aos orgânicos”, observa Cobi. 

Segundo a Organis, o mercado de orgânicos cresceu cerca de 30% no país em 2020. No ano passado, estima-se que tenha avançado até 15% e movimentado R$ 6,5 bilhões – a cifra considera não apenas as vendas de alimentos e insumos agroecológicos, mas também investimentos em certificação de produtores e promoção. Para este ano, a projeção é de crescimento de 10% a 15%. 

O presidente da Associação dos Produtores da Rede Agroecológica Metropolitana (Rama), Idemar da Rocha Nunes, confirma o bom momento do setor. A rede comercializa seus produtos principalmente em feiras agroecológicas – em Porto Alegre, são realizadas pelo menos oito por semana. Com cem associados, dos quais mais de 60 já conquistaram o selo de produtores orgânicos, a entidade quer atrair mais agricultores para atender à demanda crescente. “Não estamos dando conta dos pedidos para mais feiras, inclusive shopping centers querem nos dar espaço”, relata Nunes. 

No primeiro ano da pandemia, a rede viu crescer a venda direta de alimentos pelo Whatsapp. Com a retomada das feiras, a demanda pelas tele-entregas caiu um pouco, mas o serviço se manteve. “O pessoal gostou, pois recebe tudo fresquinho em casa, colhemos na segunda de manhã e entregamos depois do meio-dia”, explica Nunes. A oferta ampla de hortigranjeiros é um dos diferenciais que facilitam os negócios das famílias produtoras, segundo Nunes. “Os (agricultores) convencionais plantam só tomate ou alface, por exemplo, e nós temos uma grande variedade”, afirma. 

Único produtor de uva orgânica registrado na Rama, o agrimensor Rogério Salomoni (foto acima) também percebeu um crescimento no interesse pelos alimentos “naturebas” desde 2020. No Sítio da Pedra, propriedade de 3,5 hectares herdada de seus bisavôs no bairro Vila Nova, em Porto Alegre, ele cultiva as variedades bordô, Niágara rosada, Niágara branca e francesa. Nesta safra, já colheu 5 mil quilos da fruta. Parte do volume é vendida na tradicional Festa da Uva e da Ameixa, promovida em janeiro no bairro Belém Velho, na Capital. O restante é destinado à produção própria de suco e vinho e a distribuidores de cestas de orgânicos. 

No sistema agroecológico, o sítio cultiva também a noz-pecã. “São 145 nogueiras, estão com 14 anos e já estão produzindo bem”, diz Salomoni. Após investir em obras na propriedade, o que inclui um estacionamento, ele planeja receber visitantes para promover os vinhos, sucos e doces preparados com as frutas orgânicas e ampliar as vendas. “Quero começar com grupos pequenos, de cinco a oito pessoas, trazê-los para a cantina, apresentar os produtos que tenho”, adianta. 

De acordo com o Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos, do Ministério da Agricultura, o Brasil tem 26,7 mil produtores e organizações de controle e qualidade de orgânicos. No Rio Grande do Sul, a Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag-RS) estima que 2 mil agricultores cultivem frutas, verduras e hortaliças sem agrotóxicos. Um número baixo, avalia o presidente da entidade, Carlos Joel da Silva. “Cada vez mais produtores estão buscando tecnologias para poder entrar na produção, mas se incentiva pouco”, observa Joel. Para o dirigente, ainda há pouco conhecimento, entre os pequenos produtores, sobre os recursos e o potencial da agricultura agroecológica. “Precisa haver uma aproximação desse campo com os técnicos, ampliar essa discussão na ponta”, avalia. 

Um pomar exótico na Zona Sul da metrópole

Pitaia rende 20 toneladas por hectare a cada safra e deixa mais colorida a paisagem do Sítio do Sol, que também cultiva milho, feijão, abóbora, pimentão, mandioca e frutas cítricas exóticas seguindo os preceitos da agricultura orgânica

Patrícia Cirne Lima com uma pitaia cultivada na propriedade familiar. Frutas, que pesam de 600 gramas a um quilo, são vendidas em feiras agroecológicas e também em uma rede de supermercados. Foto: Patrícia Cirne Lima

Situado no bairro Belém Novo, na Zona Sul de Porto Alegre, o Sítio do Sol abriga um pomar orgânico de encher os olhos. São quase 2 mil pés de pitaia que se erguem como ornamentos, em linhas paralelas, ao longo de dois dos 15 hectares da propriedade administrada pelos irmãos Patrícia, Rafael e Rodrigo Cirne Lima. Pioneiros no cultivo da planta no Rio Grande do Sul, eles assumiram o espaço após a morte do pai e investiram na produção em grande escala da fruta, que é nativa do México e da América Central e popular em países asiáticos, mas ainda pouco disseminada no Brasil. Como a resposta do mercado é positiva, o plano agora é expandir a área para 5 hectares. 

“É uma planta perene e, se for bem conduzida, vai produzir muito bem ao longo de 10, 15 anos”, afirma Patrícia. Conhecida como fruta-do-dragão, devido ao aspecto escamoso, a pitaia pertence à família das cactáceas. Seu manejo é cheio de cuidados. As mudas são geradas por meio da remoção de estacas da planta-mãe, explica a agricultora. 
Como se trata de uma espécie trepadeira, o cultivo é feito com o suporte de mourões de concreto (chamados de tutores), que orientam o crescimento dos pés. No alto desses pilares são instalados pneus usados para dar suporte à pesada copa da pitaia e aproveitar o material descartado no sítio. 

Toda a plantação é irrigada, com água de poço artesiano. “A partir do primeiro ano, você já pode ter uma pequena produção, de uma a quatro frutas por pé”, diz Patrícia. Segundo a agricultora, a colheita no sítio ocorre de dezembro a maio e rende em média 20 toneladas de frutas por hectare – cada pitaia pesa de 600 gramas a um quilo. A safra é destinada a feiras agroecológicas e a uma rede de supermercados. 

Antes da fruta, cerca de 15 mil flores brancas e grandes são um espetáculo à parte no pomar a cada florada. Foto: Patrícia Cirne Lima / Divulgação / CP

Se o visual da fruta impressiona, as flores brancas e grandes são um espetáculo à parte. O pomar dos Cirne Lima exibe de oito a nove floradas por safra. A partir do terceiro ano, dependendo da cultivar utilizada, do tutoramento e da maturidade da planta, as cactáceas chegam a produzir em torno de 40 botões por pé a cada floração. “Na última florada, que foi de quatro dias, tivemos mais de 15 mil flores”, recorda Patrícia. 

Na escolha das cultivares foram selecionados tipos diferentes de pitaia para testar a adaptação e a aceitação do consumidor. “Temos em produção comercial quatro ou cinco variedades e outras 12 em observação para fins específicos”, diz Patrícia. A perspectiva orgânica na propriedade, porém, não se limita à fruta-do-dragão. Sob o mesmo conceito, os irmãos cultivam milho, feijão, abóbora, pimentão e mandioca, além de frutas cítricas exóticas, como laranja-champagne, tangerina murcote, limão-caviar e limão makrut. Entre os projetos da família para o próximo ano, segundo Patrícia, está a produção de suco de marca própria, em parceria com uma agroindústria de alimentos.

Migração saudável e planos de expansão

Maior produtor de hortifrutigranjeiros entre os filiados à Associação dos Produtores da Rede Agroecológica Metropolitana (Rana), Maurício Rech planta cerca de 30 itens, entre culturas de verão e inverno, nos seis hectares que dedica aos orgânicos em Viamão. O agricultor colhe 600 dúzias de hortaliças folhosas por semana e, neste ano, seus tomateiros deverão entregar 10 toneladas de frutos da variedade cereja. Recentemente, essas estrelas da horta ganharam a companhia de vegetais exóticos e versões reduzidas, como tomate grape amarelo, pimentão baby, melancia baby e miniabóbora. “A gente tem apostado em produtos diferenciados”, afirma Rech. 

Com formação em agronomia, o produtor conta que a família trabalhava com o plantio convencional quando decidiu se aventurar na agricultura agroecológica em busca de maior retorno financeiro. “Sempre aplicamos boas práticas de produção, só que nunca conseguíamos ser valorizados por isso”, lembra. A produção orgânica foi iniciada em 2018, em uma área de dois hectares adquirida três anos antes, e depois foi expandida para quatro hectares arrendados. O selo de alimento livre de agroquímicos veio em 2019. “Optamos pela certificação participativa, (pelo fato de) o custo ser mais acessível, para ter contato com outros produtores e acesso ao mercado”, explica o agricultor.

Rech com folhosas e pimentões baby, itens de uma oferta que tem cerca de 30 produtos, entre os quais estão alguns diferenciados e de valor agregado maior. Foto: Patrícia Silveira / Divulgação / CP

Parte da mão de obra que atuava no sistema convencional foi transferida para o manejo orgânico. “Fizemos essa migração de forma lenta, para não perder ninguém no caminho e ter certeza de que conseguiríamos produzir e ter onde vender”, destaca o produtor. Com a opção pelo plantio diversificado, ele diz que o resultado tem sido compensador. A família vende a produção em feiras agroecológicas em Porto Alegre e, após o início da pandemia, passou a fornecer itens de sua horta a redes de supermercados, sob a marca Semeares. “A inadimplência é muito baixa, esse é um ponto positivo (da atividade)”, avalia Rech. 

O cultivo agroecológico também permitiu a ele escapar da disparada dos custos associada ao manejo com insumos químicos, queixa de dez a cada dez agricultores na gestão da safra 2021/2022. Para o controle de pragas e adubação do solo, Rech usa defensivos biológicos de produção nacional e fertilizantes conhecidos como “cama de aviário”, que foram pouco impactados por aumentos no período.

Além de expandir a área de plantio, Rech planeja agora estender o sistema orgânico à pecuária. No ano passado, a família adquiriu uma área de 60 hectares, onde já investe na criação de búfalos com a perspectiva de produção de carne e leite. Segundo o agricultor, a ideia é alternar o plantio de hortaliças com a implantação de pastagens, favorecendo a recuperação do solo. “É um projeto embrionário, para daqui a três anos”, revela. 

Depois da pandemia, vendas on-line e pelo Whatsapp estão consolidadas

Com as restrições adotadas para conter o avanço do coronavírus e a suspensão temporária das feiras livres, foi através de caminhos alternativos que os produtores de alimentos orgânicos conseguiram chegar ao consumidor na fase mais crítica da pandemia de Covid-19. No período, ganharam força as plataformas de venda on-line, os serviços de delivery de cestas e encomendas pelo WhatsApp. A expansão desses serviços é abordada no livro Mercados Alimentares Digitais – Inclusão Produtiva, Cooperativas e Políticas Públicas, publicado pela editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). 

Segundo o pesquisador Paulo Niederle, professor do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-Graduação de Desenvolvimento Rural (PGDR) da universidade e um dos organizadores do estudo, a preocupação em sobreviver na pandemia acelerou a digitalização do mercado de orgânicos, fomentando startups focadas nesse segmento em Porto Alegre e no interior do Estado. Após a retomada das feiras, parte dessas iniciativas deixou de operar. “Mas é uma dinâmica que veio para ficar e alguns atores têm se dado muito bem”, afirma Niederle. 

No período analisado no estudo, a venda direta via WhatsApp foi o recurso mais utilizado pelos consumidores, superando o alcance de sistemas mais elaborados, como sites e aplicativos de e-commerce. “Os sites se mostraram mais complicados do que a simples ferramenta do Whatsapp”, avalia Nierdele. 

Nesse tipo de atendimento, a pesquisa também detectou um aumento nos gastos médios com orgânicos no início da pandemia. “Pessoas que compravam R$ 50, R$ 80 passaram a consumir R$ 150, R$ 200; isso foi muito importante para os agricultores”, destaca Nierdele.

Martini tem planos de expandir o serviço de entregas e acredita que a aprovação da chamada PL 6.299/02 deve atrair mais atenção para os orgânicos. Foto: João Vitor Lima Wentz / Divulgação / CP

Um dos serviços que cresceram na pandemia, a plataforma Mais Quitanda, de Porto Alegre, oferece planos de assinatura de orgânicos e kits avulsos de diferentes tamanhos. Segundo o proprietário da loja on-line, Ricardo Martini, o empreendimento atua em parceria com 20 agricultores e atualmente tem 150 assinantes. Os clientes escolhem a periodicidade com que desejam receber os produtos – semanal, quinzenal ou mensal –, e os alimentos são entregues acondicionados em caixas retornáveis de madeira, explica o comerciante. 

Toda semana, Martini faz em média 150 entregas em Porto Alegre e Canoas. Ele tem planos de expandir o serviço e acredita que a aprovação, na Câmara dos Deputados, do projeto de lei 6.299/02, apelidado de “PL do Veneno”, deve atrair mais atenção para os orgânicos. “Estamos projetando um aumento de mercado, já temos muita demanda para a Grande Porto Alegre, o Vale do Sinos e cidades maiores do interior”, afirma o empreendedor. 

Criada como uma loja física em 2015 em Porto Alegre, a Seja Santo Verde abandonou o modelo inicial e migrou para o delivery de cestas durante a pandemia. Pelo WhatsApp, seus clientes solicitam listas dos orgânicos disponíveis a cada semana e fazem encomendas de acordo com suas necessidades. O negócio é administrado pelo casal Maurício Damasceno e Maira Gil, que trabalha em parceria com mais de 700 famílias de agricultores da Região Metropolitana, da Serra Gaúcha, de Nova Santa Rita e de Eldorado do Sul. 

Com mais de 900 clientes cadastrados, o serviço entrega diariamente de 12 a 15 encomendas na Capital. “Na época do lockdown (em 2020), a gente chegava a fazer 40 entregas por dia, até às 10 horas da noite”, relata Maira. Segundo a comerciante, o valor médio dos pedidos fica em torno de R$ 200 e as frutas são os itens mais procurados. “(A maioria dos clientes) são jovens, mulheres com filhos pequenos ou grávidas que não têm tempo para ir a uma loja”, diz Maira. 

 Luis Augusto Paim Terra faz entregas na Região Metropolitana e também no Litoral e diz que pandemia trouxe maior aproximação com os agricultores certificados. Foto: Alessandra Correa / Divulgação / CP

Quem também aderiu às vendas pelo aplicativo é o comerciante Luis Augusto Paim Terra, da Gabella Orgânicos. Toda quarta-feira, ele envia aos clientes uma lista de produtos orgânicos, adquiridos em cooperativas de agricultores certificados. O consumidor pode optar por um kit sugerido, no valor de R$ 79,90, ou montar uma cesta personalizada. As encomendas são encaminhadas até a sexta-feira, e os kits são entregues na segunda-feira em Porto Alegre, Gravataí, Viamão, Cachoeirinha, Alvorada – Canoas e Esteio. A terça-feira é reservada para entregas no Litoral. Paim Terra diz que, em razão do teletrabalho, muitos clientes se mudaram para a praia. “Fizemos esse canal para não perdê-los”, justifica. 

Para o comerciante, a pandemia trouxe uma aproximação maior com os produtores, que precisaram encontrar outros canais para manter suas vendas após a suspensão das feiras agroecológicas. “Aumentou nossa demanda, eles passaram a nos ver como parceiros, e não mais como concorrentes”, observa Paim Terra.

Máquinas reduzem o trabalho braçal na horta

Referência no cultivo orgânico em Morro Redondo, agricultora diz que rotina “na colônia” se tornou menos fatigante com o uso de tratores e equipamentos adequados ao manejo dos cultivos feitos pelos produtores familiares

Márcia optou pelo plantio simultâneo de diversas espécies na mesma área. Foto: Arquivo Pessoal

Se a imagem que você tem da horticultura é a de uma atividade penosa, condenada ao trabalho braçal, saiba que esse retrato pertence ao passado. Segundo a agricultora Márcia Denise Rodrigues Scheer, a rotina na colônia, como ela gosta de dizer, hoje é muito menos fatigante graças às máquinas ao alcance dos produtores familiares. “Tendo a documentação da tua terra, tu consegues um Pronaf, pode comprar tratores e equipamentos que facilitam a vida no campo”, garante Márcia, que cultiva orgânicos em uma propriedade de 36,5 hectares na localidade de São Domingos, no município de Morro Redondo.

O pesquisador Luís Fernando Wolff, da Embrapa Clima Temperado, respalda a percepção da agricultora. Coordenador da Estação Experimental Cascata da empresa, que faz estudos em agricultura familiar e agroecológica, Wolff diz que umas das frentes de pesquisa da unidade é o desenvolvimento de soluções de larga escala para reduzir a penosidade na atividade agrícola. “Há cada vez menos disponibilidade de gente para trabalhar nas famílias, então já é uma realidade essa necessidade de estratégias que associem máquinas ao trabalho”, explica Wolff.

Referência em manejo orgânico em sua região, Márcia produz de tudo – alface, couve, rúcula, espinafre, tomate, cebola, batata, cenoura, beterraba, brócolis, couve-flor, pepino, mostarda, abóbora, azedinha, feijão, alho-poró, bergamota, morango e até amora. 

Consórcio

Na busca da horta perfeita, a agricultora diz ter optado pelo consórcio de culturas, técnica que consiste no plantio simultâneo de diferentes espécies na mesma área, para favorecer a biodiversidade e facilitar o controle de pragas e doenças. “Com isso, a gente consegue um equilíbrio muito bom”, afirma Márcia. A produção é vendida em feiras agroecológicas nos municípios de Canguçu e Pelotas. 

A propriedade também começou a produzir soja e trigo orgânicos. A ideia, explica Márcia, é dar sustentabilidade e agregar valor ao negócio familiar, que aos poucos tenta estabelecer uma pequena agroindústria de pães, geleias e doces. “A gente busca o aproveitamento daquilo que temos dentro da propriedade, não precisamos buscar muita coisa fora”, diz.

Márcia conta que sempre gostou de trabalhar com hortaliças e se entusiasmou pela agroecologia após ter contato com a Associação Regional dos Produtores Agroecológicos da Região Sul (Arpasul) de Morro Redondo, que organiza feiras na região. Hoje na liderança da entidade, ela quer inspirar outras mulheres a prosperar na agricultura e incentivar os jovens a permanecer no campo. Para se consolidar na produção orgânica, a agricultora destaca o suporte recebido do Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia (Capa), que atua em parceria com a Rede Ecovida na certificação de agricultores familiares. 

 

Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895