Um bioma que é só nosso
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Um bioma que é só nosso

No Brasil, o Pampa existe apenas no Rio Grande do Sul, mas a paisagem campestre que emoldura o Estado se perde ano após ano

Por
Simone Schimidt

Retratada na literatura e no cinema, cantada e poetizada, a luta Farroupilha também é emoldurada por uma paisagem muito particular: o Pampa. O bioma ocupa dois terços do território gaúcho, mas é mínimo se comparado com outros biomas brasileiros e, por isso mesmo, pode ser tão encantador. Enquanto o bioma Amazônia, com densas florestas e gigantescas árvores, representa metade da cobertura vegetal do país, precisamente 49,5%, o Pampa, marcado por campos e pastagens, ocupa muito menos: 2,1%, índice semelhante ao do Pantanal, com 1,8%. Os dados estão na mais recente atualização do Mapbiomas.org, portal que reúne informações entre 1985 e 2018.

O Rio Grande do Sul é o único estado brasileiro caracterizado por essa vegetação típica, ainda que os vizinhos argentinos e uruguaios também estejam dentro desse mesmo ecossistema. Além do Pampa, da Amazônia e do Pantanal, o Brasil é composto por Cerrado (23,8% de cobertura), Mata Atlântica (13%) e Caatinga (9,8%). Para os menos habituados à expressão “bioma”, é importante esclarecer que, nestes dois terços do Rio Grande do Sul ocupados pelo Pampa, considera-se tudo que está dentro da paisagem e não só os campos. O meio urbano, com suas vias asfaltadas e edifícios, e o meio rural, com fauna, flora, agricultura e pecuária.

Em 2018, último ano apurado pelo Mapbiomas, mostra que pela primeira vez, em 34 anos de análises, a área de uso da agricultura ultrapassou a formação campestre. Enquanto a primeira já soma 6,57 milhões de hectares, a segunda registra 6,23 milhões de hectares. No ano anterior, em 2017, essa realidade era diferente. A formação campestre ainda liderava com 6,51 milhões de hectares, um pouco mais que os 6,24 milhões de hectares apurados na agricultura. Para que se tenha uma ideia das dimensões, um hectare corresponde a um campo de futebol. Retrocedendo a 1985, temos um outro quadro. A formação campestre chegava a 8,12 milhões de hectares contra 5,14 milhões da agricultura. Ou seja, há apenas três décadas, a presença dos campos era muito superior à das plantações.

O total de 178 mil quilômetros quadrados, ou 17,8 milhões de hectares, ocupado pelo Pampa aqui no Estado até pode ser ínfimo em termos de país, mas o gaúcho que mora em cidades menores, e com mais espaços verdes ao redor, ou que vive em áreas rurais, conhece bem esse ambiente que vai do extremo sul até parte da metade norte do Rio Grande do Sul. As áreas com vegetação rasteira permitem estender o olhar para um horizonte distante e foi essa paisagem de campo que ajudou a emoldurar a vida dos que aqui chegaram há séculos.

O Pampa e a cultura indígena estão intimamente ligados. Tanto que a palavra “pampa”, que significa “região plana”, é um termo de origem quíchua que veio de tribos da América do Sul.

O livro “Os campos do Sul”, editado em 2015 pelos pesquisadores Valério De Patta Pillar e Omara Lange, traz diferentes aspectos dessa paisagem. Aborda a fauna, a flora, a economia, questões relacionadas com sustentabilidade e cidadania, além da história e da cultura que se formaram sobre o Pampa. O capítulo 2 da obra, por exemplo, intitulado “Valor histórico e econômico da pecuária”, é de autoria de Cláudio Marques Ribeiro e Fernando Luiz Ferreira de Quadros. O texto nos conta que essa região formada por campos que mais tarde compuseram o Rio Grande do Sul não despertava interesse econômico de espanhóis ou portugueses até 1640. Só os jesuítas espanhóis tinham se estabelecido para cristianizar grupos indígenas, introduzindo o gado bovino e equino que acabou se espalhando naturalmente, já que a região a leste do rio Uruguai era vasta. O território era habitado pelos índios tupi-guaranis, estando os tapes, carijós, arachanes e guaianás ao Norte e Nordeste. Guenoas, minuanos e charruas ao Oeste e ao Sul. Os minuanos e charruas foram aqueles que, por seus hábitos e objetos de uso, deram as principais contribuições para a formação do tipo humano e social mais tarde identificado como “gaúcho”. Percebe-se que a expressão “índio velho”, tão popular entre grupos que cultuam a tradição gaúcha, não surgiu à toa.

O Pampa e a cultura indígena estão intimamente ligados. Tanto que a palavra “pampa”, que significa “região plana”, é um termo de origem quíchua que veio de tribos da América do Sul. A tradução está no site da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). E se a região se mostrou adequada para a criação de gado, é também um espaço de riqueza em fauna e flora. A Embrapa informa que esse local característico de campo e pasto do Rio Grande do Sul foi visto pelos primeiros seres humanos há 12 mil anos. O bioma Pampa, além de ser famoso pelos campos, abriga também arbustos nas margens dos rios, 150 espécies de leguminosas, bromélias e 70 tipos de cactos. Ema, perdiz, joão-de-barro, quero-quero e caturrita são algumas das aves que escolhem o Pampa como lar. Entre os anfíbios, se destaca o sapinho-debarriga-vermelha. Já entre os mamíferos há tuco-tucos, furões e veados-campeiros. O zorrilho, nome que vem do espanhol e que significa “raposinha”, é um dos mais curiosos. Ao se sentir ameaçado, libera um cheiro forte que em geral afasta a presença humana.

O campo e o gaúcho

Foto: Mauro Schaefer

O Pampa foi perdendo vegetação ao longo dos anos, conforme mostram os números do Mapbiomas. Essa diminuição, observa o professor Eduardo Vélez, chega a 1,94 milhão de hectares entre 1985 e 2018, o que corresponderia a 11 vezes o tamanho do município de Santa Maria. Biólogo por formação, mestre e doutor em Ecologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Vélez vai além da ciência e encontra conexões históricas e sociais quando questionado sobre a importância do bioma Pampa na cultura. “Se não tivesse campo nativo, não teria gaúcho”, destaca.

O professor e pesquisador, que participa da construção dos dados do Mapbiomas por meio de seu trabalho na Ufrgs, lembra que foi exatamente o ambiente de pasto e campo que levou os habitantes da região às atividades de cuidados com os animais. E a figura do cavalo como companheiro desse personagem é uma das mais emblemáticas. Agrônomo e titular do Instituto de Biociências, mestre em Zootecnia pela Ufrgs, doutor em Plant Sciences pela University of Western Ontario e pesquisador dos campos do Rio Grande do Sul, o professor Valério Pillar lembra a identidade entre o campo e a construção do movimento tradicionalista. E, por isso, destaca, é importante preservar a paisagem, uma missão que fica mais difícil quando se pensa nas estatísticas e na redução das áreas campestres naturais à medida que a agricultura avança. Eduardo Vélez, entretanto, acrescenta: “Tem um aspecto importante a esclarecer sobre a área total de agricultura mapeada. O que nós mapeamos são as áreas sob uso agrícola e não a safra agrícola de um determinado ano. Algumas áreas sob uso agrícola podem tanto ficar sem safra em um determinado ano (pousio) como também podem apresentar mais de uma safra em alguns casos. Por isso essa distinção é importante de ser feita”.

Vélez e Pillar citam a soja como a cultura que mais estaria tomando espaço. “A soja é o principal cultivo que avança sobre o campo”, reforça outro professor, o geógrafo Heinrich Hasenack, também integrante da equipe que contribui com o Mapbiomas ano a ano junto com outras universidades e entidades pelo país. Quanto à silvicultura, cultivo de florestas e árvores por meio do manejo agrícola, os três pesquisadores concordam em dizer que este é o menor dos problemas para a preservação, o que é demonstrado também nos números do Mapbiomas.

Nos últimos dois anos foram regis - trados respectivos 478 mil e 479 mil hectares ocupados. “Silvicultura tem zoneamento, o que dá um limite”, assinala Vélez. Sobre a soja e seu avanço pelo campo, o presidente da afiliada gaúcha da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja/RS), Luiz Fernando Fucks, faz algumas considerações e lembra que o setor tem reserva legal. “O bioma Pampa não vai ser destruído”, afirma.

Fucks pondera, no entanto, que, com o progresso, as paisagens mudam inevitavelmente e que é preciso alimentar a população não só do RS mas do mundo, crescendo ano a ano. “A própria existência do homem compreende a transformação do ambiente”, observa. Além disso, Fucks ressalta o potencial da região sul do Estado, onde está grande parte do bioma Pampa e para onde agricultores do ramo da soja têm se voltado nos últimos anos. “Uma planta industrial é difícil, envolve toda uma logística”, compara. “Seria uma forma mais rápida e prática de aproveitar as condições naturais. Agora é a vez dessa região (Sul), tem clima e solo propícios e o porto está próximo”, ressalta o dirigente, lembrando ainda que cultivar soja é uma atividade que dá retorno e “paga as contas”.

Animais atuam na integração e proteção

Conservar os campos nativos do Rio Grande do Sul é uma tarefa especial, porque a vegetação é muito diferente do resto do país. Na Amazônia ou na Mata Atlântica, por exemplo, quando a floresta se perde por corte de árvores ou por queimadas, essa ocorrência é o que se chama de desmatamento. Por aqui, entretanto, há que se observar que campo não é mato. Portanto, aquilo que morre no campo não é desmatamento, mas perda de vegetação. E que perda. O professor Valério Pillar, da Ufrgs, traz um exemplo prático ao relembrar uma pesquisa. Em apenas um metro quadrado de campo foram verificadas 57 espécies de plantas. E se, em outros tipos de biomas, como os que abrigam florestas, são as Unidades de Conservação (UCs) que protegem por lei os locais que não podem ser destruídos pela ação do homem, nos espaços campestres, preservar pode ser uma tarefa mais simples e a presença humana não seria um obstáculo. A riqueza do pasto permite, por exemplo, a criação de gado sem que isso interfira na “saúde” do ambiente. Os animais se alimentam do que já está naturalmente no solo e h á ainda um outro ponto positivo. De acordo com Pillar, os animais e a vegetação dos campos são muito resistentes a ocorrências como as secas. A prática da pecuária como algo positivo nas zonas campestres é inclusive defendida por Pillar e por Eduardo Vélez.

A produção de carne a partir da biodiversidade em campo nativo, ressaltam os professores, poderia trazer renda e qualidade de vida a muitas comunidades. “Existe espaço para a pecuária ter rendimento e melhorar a cadeia produtiva. Teria que ter uma política voltada para isso”, sugere Vélez, seguido por Valério:

“Reserva legal pode e deve ser usada na pecuária”. A consideração final vem do professor Hasenack: "Unidades de Conservação são parques para proteger florestas. No Interior não tem proteção de campo porque campo requer uso. Temos todas as oportunidades para conservar com uso.” Os pesquisadores acreditam que a atividade pecuária ainda é pouco explorada, mas alertam que não haveria necessidade de grandes quantidades de cabeças de gado para que essas iniciativas dessem certo. Menos animais, alimentados de maneira balanceada, correta e sustentável, sugerem, poderiam trazer rendimento mais satisfatório na produção tanto em relação aos pesos e quantidades vendidas quanto em relação à qualidade da carne, medidas que poderiam ser adotadas sem prejuízo aos espaços dos campos nativos.

Aquífero Guarani

O Pampa é uma das áreas de campos temperados mais importantes do planeta. Parcela de 25% da superfície terrestre, abrange regiões com cobertura vegetal com predomínio de campos. Entretanto, estes ecossistemas estão entre os menos valorizados em todo o planeta. Na América do Sul, o Pampa se estende por uma área de aproximadamente 750 mil quilômetros quadrados quando considerados, além do Brasil, o Uruguai e a Argentina. É também no Pampa que se localiza a maior parte do Aquífero Guarani, segundo informações no site do Ministério do Meio Ambiente. A estrutura da vegetação dos campos, se comparada à das florestas e das savanas, é mais simples e menos exuberante, mas não menos relevante do ponto de vista da biodiversidade e dos serviços ambientais. Os campos têm uma importante contribuição no sequestro de carbono e no controle da erosão.

A biodiversidade do Pampa ainda não estaria completamente descrita pela ciência, tamanha a grandeza. Estimativas indicam 3 mil espécies de plantas “com notável diversidade de gramíneas”, segundo o ministério. Entre as espécies há campim-forquilha, gramatapete, flechilhas, barba-de-bode e cabelo-de-porco. Nas áreas de campo natural se destacam babosa-do-campo, amendoim-nativo e trevo-nativo. Nas áreas de afloramentos rochosos imperam os cactus. E entre as várias espécies vegetais típicas do Pampa se destacam o algarrobo e o nhandavaí, arbustos já remanescentes, hoje só encontrados no Parque Estadual do Espinilho, em Barra do Quaraí. Na fauna, há quase 500 espécies de aves, entre elas a ema, o perdigão, a perdiz, o quero-quero, o joão-de-barro, o sabiá-docampo e o pica-pau do campo. Também ocorrem mais de 100 exemplares de mamíferos terrestres, como o graxaim, uma espécie de cachorro, e a preá, um roedor. O veado campeiro e o cervo-do-pantanal estão ameaçados de extinção.

Amor de infância

O Pampa ocupa dois terços ou quase 70% do território gaúcho. Há quem tenha na lembrança a imagem dos campos sulinos nas regiões da Campanha e Fronteira-Oeste. Compreensível, porque nestes locais essa paisagem é mais exuberante e presente. Entretanto, o Pampa se espalha pelo Rio Grande do Sul desde o extremo-sul até a Região Metropolitana, ainda que em uma área muito menor. Logo acima da Capital já temos um outro bioma, a Mata Atlântica, que caracteriza principalmente o Litoral Norte e a Serra com seus cenários de floresta e pés de araucária. E em pequenos trechos os dois biomas até se encontram.

Octávio Capuano, 83 anos, que descobriu na infância o amor pela cultura campeira | Foto: Ricardo Giusti

Pois foi nessa linha quase divisória, em Viamão, que Octávio Capuano, 83 anos, descobriu o quanto amava a vida no campo. “Eu tinha uns 10 anos eopai comprou uma fazenda na ponta do Abreu”, relembra. Capuano vivia na cidade porque o pai era médico e tinha consultório em Porto Alegre. O irmão mais velho, então com 20 anos, tornou-se administrador da propriedade e ele, ainda pequeno, esperava ansioso o período das férias escolares. O coração já se dividia entre os meios urbano e rural e o contato com a terra e com os animais trouxe outras visões da figura do gaúcho. Capuano passou a conviver com uma cultura que englobava criação de gado, montaria, doma de cavalos, pesca e muitas outras atividades que na Capital ele jamais conheceria.

A influência desse ambiente e a s muitas histórias que traz foi tão significativa que hoje Capuano preside a Comissão Gaúcha de Folclore. E ele faz questão de lembrar para os menos acostumados ao tema que tradição e folclore são coisas diferentes. Enquanto a tradição reúne informações sobre costumes, hábitos e história do Rio Grande do Sul, o folclore estuda os mitos e lendas. Capuano também trabalhou por 22 anos no Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore entre as décadas de 70 e 90 e lá conviveu com nomes de peso como Paixão Côrtes.

Em outros tipos de biomas, como os que abrigam florestas, são as Unidades de Conservação que protegem por lei os locais que não podem ser destruídos pela ação do homem. Nos espaços campestres preservar pode ser uma tarefa mais simples eapresença humana não seria um obstáculo. A riqueza do pasto permite, por exemplo, a criação de gado sem que isso interfira na “saúde” do ambiente.

Por conta dos compromissos que tem hoje com a direção da Comissão Gaúcha de Folclore, Capuano vive em Porto Alegre, na zona Norte, mas o projeto de morar no campo segue firme. Questionado sobre o que mais sentiria falta se saísse do meio urbano, reponde de forma simples: “Nada”. No campo, observa, havendo a devida estrutura para luz, água e comunicação, avenidas movimentadas e grandes shoppings estão dispensados. Com um grande sorriso, argumenta: “No campo tem outras distrações”. E a primeira que vem à cabeça é a pescaria. A rotina de trabalho do meio rural Capuano também conhece em detalhes. Com os funcionários da fazenda do pai aprendeu cavalgada, doma, gineteada e até tirava leite das vacas quando pequeno. A primeira fazenda do pai tinha plantação de arroz e criação de gado. Anos depois a propriedade foi vendida e uma outra foi adquirida pela família em Itapuã, esta mais voltada à produção de leite. É desse período entre infância e adolescência, décadas de 40 e 50, que Capuano recorda um importante professor que lhe trouxe muitas lições sobre as lidas campeiras.

Seu Pedro Castelhano, não era castelhano, mas tinha esse apelido e era especialista em doma. As memórias são muitas. Questionado sobre um animal silvestre que tenha marcado suas melhores cenas de brincadeiras e correrias, Capuano cita de imediato as emas, divertidas e mansas. Teoricamente selvagens, acabavam se misturando às crianças e aos moradores da região numa convivência pacífica. As recordações de plantas e frutas também são inúmeras, mas há uma referência especial à pitanga. E enquanto a rotina de seu Capuano continua na cidade, o folclorista traz para o quintal da casa em Porto Alegre um pouco dos cenários campestres. Reserva um potinho especial com pedaços de mamão que deixa no jardim, ao lado da porta dos fundos. “É para os sabiás”, explica. Da cozinha, diverte-se observando o pote que já está vazio. “Malandros. Comeram tudo.”

A pátria de três bandeiras

Foto: Eduardo Rocha / Especial / CP

Por Paulo Mendes

No bolicho da Vila Rica tive a alegria de conhecer e conviver com muita gente, pessoas de todos os jeitos e lugares. Birivas serranos, andarengos do Alto Uruguai, tropeiros do Planalto Médio e gauchões largados da Fronteira. Esses últimos tinham um jeito bem característico, usavam bombachas largas, chapéus de abas grandes, esporas com papagaios compridos e de rosetas pontudas. Eram fanfarrões, vestiam tirador enfeitado, guaiaca de prata, e na cintura usavam compridas adagas. Por vezes até revólveres, geralmente um 38 de cano longo, e tinham fama de valentões. E falavam um dialeto quase incompreensível, carregado de palavras em espanhol. No início, tinha medo deles, depois fui constatando que eram pessoas boas, que, na verdade, eram trabalhadores, honestos, educados, apenas carregavam uma tradição no jeito de se vestir e se portar. Lá, na Vila Rica, eram chamados de “correntinos”.

Conheci a terra desses gaúchos alguns anos mais tarde, já guri taludo, quando fui visitar pela primeira vez meu irmão Elias, que era capataz de uma estância em São Borja. Naquela época, nossos produtores rurais já estavam trocando a pecuária pela agricultura. Foi nesse contexto que meu irmão foi fazer o seu destino na Fronteira, dirigindo um trator e levando apenas uma muda de roupa. Nunca mais voltou. Lá casou, teve filhos e trabalhou no ambiente que mais amava, o campo, plantando e criando gado e, nos domingos, se divertindo correndo carreiras de cancha reta. Acostumado ao planalto, fiquei extasiado quando vi aquele mar verde à minha frente. Era o Pampa, aquela imensidão de espaço e sentimentos. “Pampa, matambre esverdeado, dos costilhares do Prata, que se agranda e se dilata, de horizontes estaqueados, couro recém-pelechado, que tem Pátria nas raízes, aos teus bárbaros matizes, os tauras e campeadores, misturaram sangue às cores, pra desenhar três países”, versejou o payador missioneiro Jayme Caetano Braun. Que linda e memorável estrofe! Definição genial, campeira e metafórica do Pampa. Impecável!

Esse espaço que amedrontou tantos visitantes ilustres, botânicos, cientistas, pintores e pesquisadores europeus pela sua grandiosidade foi o berço do gaúcho. Este personagem cantado em prosa e verso, um ser mitológico que viveu teatino, perambulando e serviu de esteio sociológico para a Argentina, o Uruguai e metade do Rio Grande do Sul. A política desenhou países, mas a Pátria “gaúcha” é uma só, embora, obviamente, cada um desses gaúchos apresentem muitas diferenças nos detalhes, de temperamento, no uso das armas, nas pilchas, na música e na poesia. O gaúcho platino gosta de cantar ao som da guitarra, como chamam o violão. O gaúcho brasileiro prefere a sanfona, a gaita, a cordeona. Mas são irmãos, porque a arte desdenha a geografia.

Lembro aqui de um letrista que angariou fama nos festivais nativistas do Estado, o poeta e compositor Sérgio Metz, o Jacaré, líder do grupo Tambo do Bando, que inovou e introduziu temas, ritmos e arranjos modernos na conservadora música regionalista gaúcha. Quando cursávamos o mestrado em Letras na Ufrgs, Jacaré volta e meia recitava um verso do poeta argentino Atahualpa Yupanqui: “O Pampa é o céu pelo avesso”. Este é, de fato, um verso estupendo, porque sim, céu e pampa são diversos e unos. Ele junta aquele gaúcho ancestral que ainda vive no imaginário popular da gente do nosso meridiano, das pessoas das urbes e das zonas rurais. Os antigos cruzadores do pago, os que não tinham querência e depois se transformaram em personagens da literatura e da música. Os que dormiam sobre os pelegos e debaixo das estrelas. Então, tudo era uma coisa só, terra e céu.

O pampa sempre foi verdejante e claro. Próprio para a criação de gado, onde gerações se criaram vendo os terneiros nascer pelas macegas, domando potros e criando ovelhas. Um espaço de aptidão genuína para a pecuária, que não aceitava lavouras. Agora, com as mudanças tecnológicas, o pampa gaúcho começa a ser revolvido e as lavouras começam a mudar sua fotografia. Fico triste, ensimesmado, porque o pampa não pode ser destroçado. Ele é o depositário fiel da nossa história e cultura. Foram nesses campos abertos povoados de gado que tombaram nossos ancestrais defendendo as fronteiras. O progresso é importante, o mundo se modifica. Só peço e rezo que essas mudanças não sejam tão drásticas assim. Que reste em algum ponto um gaúcho bem montado, pastoreando o gado, guardando a memória do pago, o destino e a alma da nossa gente. Guardem e cuidem do pampa, porque ele é a nossa identidade. O palco natural dessa querida e sempre amada “Pátria de três bandeiras”...