Campo se volta para a qualidade e produtos funcionais
capa

Campo se volta para a qualidade e produtos funcionais

Setor agropecuário se adapta às lições trazidas pela pandemia do novo coronavírus e deve passar a investir mais em inovação e tecnologia

Por
Correio do Povo

O agronegócio brasileiro será responsável por uma produção de 251 milhões de toneladas de grãos


publicidade

Considerado um segmento produtivo dos mais tradicionais, o agronegócio brasileiro será responsável pela produção de 251,4 milhões de toneladas de grãos e, apesar de todos os obstáculos do clima, continua superando a produção de safras anteriores. A pandemia do coronavírus, entretanto, trouxe lições que mudarão o setor ainda pouco acostumado com inovação e tecnologia fora do maquinário empregado no plantio e colheita de grãos.

Ainda em processo de finalização, um projeto da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado do Rio Grande do Sul (Fecoagro) reúne 30 associadas que respondem por um faturamento anual de R$ 25 bilhões e terá uma primeira entrega em setembro desse ano. “Estão sendo analisados diferente aspectos que podem contribuir para a evolução do sistema. A assistência técnica e a comercialização devem ser áreas beneficiadas com esse projeto. Temos que preparar a modernização do cooperativismo para novas gerações que pensam diferente de nós”, comenta Paulo Pires, presidente da Federação.

Esse preparo do terreno futuro também está no horizonte da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul). De sua fazenda no município de Bagé, o presidente Gedeão Silveira Pereira avisa que as lives reunindo diretoria e área estratégica da entidade vieram para ficar. “Vamos desenvolver esse tipo de iniciativa”, comenta o dirigente, lembrando que inovações no ensino a distância poderão contribuir para que o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural do Estado (Senar-RS) possa evoluir em seus cursos de aprimoramento do homem do campo, como a assistência técnica e gerencial. Para o economista chefe da Farsul, Antonio da Luz, o principal legado dessa pandemia é a forma como as pessoas vão sair desse cenário. “Poderá ser melhor enquanto indivíduo, sabendo que as atividades e atitudes podem ser feitas de outra forma, diferente e mais barato”, diz. Para Da Luz, ninguém poderia imaginar no começo de 2020 que as atividades econômicas poderiam ser feitas em home office ou as viagens substituídas por reuniões digitais.

Com raros casos, ou inexistentes, de contaminação, o campo procura superar os efeitos da pandemia olhando para o futuro. Para o economista chefe da Farsul, será preciso esperar recursos que garantam acesso ao crédito para um produtor endividado. “A queda na comercialização vai obrigar a uma renegociação senão a próxima safra será afetada. Se tivermos recursos viramos a página em 2021”, diz. Esse cenário é compartilhado pelo deputado Federal (PSB), Heitor Schuch, agricultor de origem e ligado à produção do campo na região de Santa Cruz do Sul e da pequena propriedade. Para ele, os efeitos do clima no campo serão percebidos mais para frente provocando queda na renda do agricultor que pode chegar a 50%. Isso porque a preocupação ou a busca de soluções não está apenas no campo ou no produtor “O obstáculo a superar é com a renda do consumidor. De onde ele vai tirar dinheiro para comprar alimentos?”, questiona. Para ele, uma tendência que ficará desse período de distanciamento social é uma atividade mais cooperada e agroecológica, comportamento que saiu fortalecido a partir de preferências dos consumidores. O parlamentar cita um exemplo da cidade de Vera Cruz e de Itaqui, onde um grupo de agricultores concentra a produção em apenas uma propriedade e abre, uma vez por semana, a venda para que o público urbano faça a “feira” da semana. “Com isso não há custos de deslocamento, há uma centralização dos itens em apenas um local e atrai compradores. Penso que esse comportamento vai se proliferar em vários pontos do Rio Grande do Sul”, diz.

Essa preocupação em seguir o comportamento e preferências do consumidor também está na lista de ensinamentos resultantes desse período na Cooperativa Santa Clara, a mais antiga do setor leiteiro no Brasil. Seu diretor, Alexandre Guerra, diz que estão em desenvolvimento produtos mais funcionais ligados no fortalecimento da imunidade dos consumidores. “Aumentamos nossa preocupação com a qualidade e criamos canais digitais de relacionamento com os produtores. Isso veio para ficar pois a preocupação com a saúde, sejam elas produtores ou consumidores, tornou-se fundamental”, comenta Guerra. A operação da cooperativa no recolhimento do leite foi a principal mudança resultante da pandemia do novo coronavírus. A Santa Clara ampliou os canais de comunicação via aplicativos de mensagens orientando sobre o recolhimento do leite e as normas de segurança que deveriam ser seguidas pelo novo sistema, e isso veio para ficar. “Seremos pessoas mais produtivas com menos gastos”, diz. Com crescimento de 4% na captação do leite no campo, o consumo teve o mesmo aumento, contribuindo para substituir a queda de 20% da produção que era direcionada para o segmento de food service (hotéis, bares, restaurantes e eventos). “O fundamental é a recuperação da economia para os próximos meses”, conclui.