Coronavírus pressiona Erdogan e desafia economia anêmica

Coronavírus pressiona Erdogan e desafia economia anêmica

Economistas acreditam que país será obrigado a recorrer ao FMI

AFP

Erdogan tem ainda algumas cartas na manga para tentar minimizar efeitos da pandemia na economia

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A pandemia do novo coronavírus atingiu a economia da Turquia, que estava se recuperando de sua primeira recessão em dez anos, deixando o presidente Recep Tayyip Erdogan, cuja capacidade de ação é muito limitada, em uma posição difícil.

Com desemprego em massa, colapso do turismo e moeda instável, "a situação é extremamente ruim", resume Atilla Yesilada, economista do grupo de especialistas GlobalSource Partners.

O presidente turco anunciou em março um plano de recuperação e a suspensão gradual das restrições em maio e junho para injetar cerca de 710 bilhões de euros na economia. Os economistas antecipam uma recessão dolorosa, porém, e alguns deles até mencionam um recurso ao Fundo Monetário Internacional (FMI) - uma opção que Erdogan sempre rejeitou.

Há muito tempo, Erdogan é sinônimo de prosperidade para os turcos, mas agora eles percebem que a economia se tornou o "calcanhar de Aquiles" do presidente, diz Soner Cagaptay, do Instituto de Política do Oriente Próximo, de Washington.

Crescimento fraco (0,9% em 2019), alto desemprego (13,6% em fevereiro) e inflação de dois dígitos (10,97% em abril) fizeram da economia a principal preocupação dos turcos. Por esse motivo, o partido de Erdogan sofreu um revés retumbante nas eleições municipais do ano passado, perdendo em Istambul e em Ancara, as principais cidades do país.

"Não há eleições agendadas na Turquia antes de 2023, mas sua popularidade está se deteriorando, e ele sabe que será difícil (...) ignorar os pedidos de eleições antecipadas, se a economia entrar em colapso", diz Cagaptay.

Enquanto Ancara contava com um crescimento de 5% para 2020, o FMI agora prevê uma contração de 5% com desemprego de 17,2% este ano. A depreciação da lira turca, que perdeu cerca de 15% de seu valor em relação ao dólar desde o início do ano, ilustra a preocupação dos mercados.

No início de maio, chegou ao ponto mais baixo de todos os tempos, sendo negociada a 7,24 por um dólar. A desvalorização da lira é ainda mais alarmante, porque aumenta a dívida esmagadora em moedas estrangeiras que pesa no setor privado.

Último recurso

Para não interromper a atividade, Erdogan optou por medidas específicas durante a pandemia, como confinamento limitado aos fins de semana. No sábado, ele prestou homenagem aos 4 mil trabalhadores que continuaram trabalhando, apesar da epidemia, na maior ponte suspensa do mundo, construída no oeste do país.

O turismo, que no ano passado representou mais de 31 bilhões de euros, também é fortemente afetado pela suspensão dos voos. Diante desse panorama sombrio, os economistas acreditam que Ancara não terá escolha a não ser pedir ajuda ao FMI.

A Turquia já recorreu ao fundo 19 vezes em sua história, Para Erdogan, um defensor da soberania, tal iniciativa seria uma humilhação."Será seu último recurso (...) Ele esgotará todas as outras opções antes de solicitar um plano de resgate", aponta a consultoria Capital Economics.

No momento, a Turquia está apostando em acordos de "swap", um tipo de mecanismo de segurança destinado a impedir escassez de moeda, junto aos bancos centrais estrangeiros, especialmente dos Estados Unidos.

É isso que explica a reaproximação de Ancara a Washington, especialmente com o envio de equipamentos médicos, enfatiza Cagaptay. Erdogan também tem algumas cartas restantes para jogar.

A queda dos preços do petróleo deve atenuar a inflação na Turquia, de acordo com o Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (BERD), que espera uma "forte recuperação" do crescimento turco em 2021. O país também pode aproveitar o desejo das empresas europeias de aproximarem suas cadeias produtivas para ganhar participação de mercado e atrair investimentos.

A Turquia registra um número relativamente baixo de mortes relacionadas à Covid-19, com cerca de 4,2 mil óbitos em 150 mil casos, segundo balanço oficial.


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