Dólar se descola de emergentes e fecha perto da estabilidade com reforma do IR

Dólar se descola de emergentes e fecha perto da estabilidade com reforma do IR

Moeda norte-americana encerrou o dia cotada a R$ 5,18

AE

Moeda fechou no maior patamar em nove meses

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A deterioração aguda dos ativos domésticos ao longo do período da tarde desta quinta-feira, com aprofundamento das perdas do Ibovespa e a escalada dos juros futuros, acabou respingando no mercado de câmbio e impediu que o real se beneficiasse de forma mais abrangente da onda global de enfraquecimento da moeda norte-americana, na véspera da divulgação do relatório de emprego (payroll) de agosto nos Estados Unidos.

Segundo operadores, à medida que avançavam as votações dos destaques da reforma do Imposto de Renda (aprovada na quarta à noite de supetão na Câmara), crescia a percepção de aumento da fragilidade das contas públicas. A avaliação preliminar é a de que os ganhos com a taxação de dividendos (que caiu de 20% para 15% em votação dos destaques ao texto-base) não vão compensar a perda de receita com os cortes de alíquotas de IR para pessoas jurídicas. Isso em meio à busca de uma solução para o imbróglio dos precatórios e de espaço no Orçamento de 2022 para o reajuste do Bolsa Família, rebatizado de Auxílio Brasil.

Ao desgaste provocado pela votação da reforma do IR soma-se uma postura mais cautelosa dos agentes à medida que se aproxima o feriado de 7 de setembro, em que estão marcadas manifestações populares a favor do governo Jair Bolsonaro. Teme-se que haja um recrudescimento das tensões institucionais, com novos ataques ao Supremo Tribunal Federal, e declarações populistas de Bolsonaro.

O dólar chacoalhou pela manhã e chegou até a operar em alta, correndo até a máxima de R$ 5,2006. Mas perdeu força ainda na etapa matutina, seguindo a maré positiva para emergentes, e desceu até a mínima de R$ 5,1431. Depois de passar a maior parte da tarde em queda firme, a moeda norte-americana se recuperou e acabou fechando a R$ 5,1832 (-0,03%).

O gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo, observa que o mercado se sente mais confortável para trabalhar com o dólar próximo de R$ 5,20 e acaba corrigindo excessos no fim do dia, com realização de lucros e recomposição de posições defensiva.

"A tendência seria de dólar para baixo com o exterior e o fluxo que está vindo. Mas o dólar não cai mais porque existe essa apreensão com a questão política e tem gente já ajustando posições de olho no feriado de 7 de setembro", afirma Galhardo, acrescendo que ainda há certo receio de que haja um embate dentro do Congresso que prejudique o andamento das reformas, após a derrota do governo na quarta no Senado na MP da minirreforma trabalhista. "Gera muita dúvida no mercado essa dinâmica de morde e assopra. A Câmara está empenhada em avançar nas reformas, mas o Senado dá uma paulada no governo", diz.

Além do revés na minirreforma trabalhista, o governo também foi derrotado no projeto de revogação de mudanças em planos de saúde de estatais, o que pode ser um empecilho à privatização dos Correios. Não bastasse os problemas no Senado, a reforma administrativa, em tramitação na Câmara, deve manter a estabilidade dos servidores público, ao contrário do pretendido pelo Planalto.

O diretor da Wagner Investimentos, José Faria Júnior, vê esses fatos como negativos e alerta sobre a importância de acompanhar as votações no Senado, "uma casa pouco amistosa com Bolsonaro", mesmo com a ida do senador Ciro Nogueira (PP-PI), um dos próceres do Centrão, para a Casa Civil.

Para o economista-chefe da Integral Group, Daniel Miraglia, a dinâmica de preços dos ativos domésticos está totalmente ligada à aprovação inesperada, na quarta à noite, da reforma do IR, que é "extremamente populista" e torna o sistema tributário ainda mais complexo. "A taxa de câmbio não está reagindo tão negativamente porque ainda existe a esperança de que o Senado breque este texto", afirma Miraglia, acrescentando que a reforma do IR, do jeito que está, diminui o crescimento potencial da economia brasileira. "Temos um cenário muito desafiador para os ativos domésticos, com revisões para baixo do PIB e para cima de inflação, a crise hídrica e essa instabilidade institucional, com o 7 de setembro."

No exterior, o índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a seis divisas fortes - operou em queda de mais de 0,20% ao longo do dia, na casa de 92,200. A moeda norte-americana também apanhou em relação à maioria dos emergentes, à exceção do rand sul-africano, que vinha de um forte rali de alta e acabou cedendo nesta quinta.

Nos Estados Unidos, os pedidos de auxílio desemprego tiveram queda de 14 mil na semana encerrada em 28 de agosto, para 340 mil, abaixo da previsão dos analistas, de 345 mil. A grande expectativa, contudo, é para o payroll de agosto, já que o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, afirmou, em diversas ocasiões, que a recuperação do mercado de trabalho é fator fundamental para definição tanto do início quanto do ritmo de redução de compra de títulos.

Juros

As preocupações fiscais não dão trégua para a curva de juros e a ponta longa voltou subir nesta quinta-feira, refletindo a leitura negativa das votações no Congresso. Após a dupla derrota no Senado na quarta-feira, o governo não conseguiu no período da tarde desta quinta emplacar na votação dos destaques à reforma do Imposto de Renda (IR) na Câmara a proposta de taxação de dividendos de 20% defendida pelo ministro Paulo Guedes, que acabou sendo reduzida para 15%. A avaliação é de impacto negativo sobre a arrecadação, dado que a alíquota de cobrança do IR da Pessoa Jurídica já havia sido cortada. Ainda que em menor magnitude, as taxas curtas também subiram. A queda da produção industrial de julho maior do que a esperada não foi capaz de trazer alívio de prêmios nem de suavizar a apostas no orçamento da alta da Selic.

A maioria das taxas fechou a sessão regular nas máximas. A do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para 2027, referência entre os longos, voltou a encerrar nos dois dígitos, a 10,20% (máxima), de 9,974% no ajuste anterior. A do DI para janeiro de 2023 subiu de 8,53% para 8,665%, e a do DI para janeiro de 2022, de 6,825% para 6,86% (máxima). O DI para janeiro de 2025 terminou com taxa de 9,78% (máxima), de 9,565%.

O mercado já amanheceu azedo pelos eventos da quarta no Senado. A MP 1.045, da minirreforma trabalhista, não passou, inviabilizando as pretensões de Guedes e do ministro do Trabalho, Onyx Lorenzoni, que viam no projeto potencial de criação de ao menos 2 milhões de empregos. A proposta de limitação dos gastos com planos de saúde de estatais também foi rejeitada e pode travar a privatização dos Correios.

Além desses reveses do governo, o economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Camargo Rosa, atribuiu o ganho de inclinação da curva nesta quinta também ao agravamento do quadro fiscal com a votação da reforma do IR, que deve resultar em expressiva perda de receita, num momento de elevada pressão para aumento de gastos. Além de o governo não conseguir emplacar os 20% para taxação de dividendos, haverá queda de arrecadação com a redução das alíquotas do IRPJ e com o fim da restrição ao uso do desconto simplificado na tabela do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF). "Tudo isso ficou sem compensação do outro lado", destacou o economista.

Os deputados encerraram a votação dos destaques no período da tarde e o texto segue agora para o Senado, onde pode ser ainda mais desfigurado na medida em que naquela Casa o governo tem maior rejeição.

Um dia após a decepção com o PIB do segundo trimestre, o IBGE informou nesta quinta que a produção industrial teve retração de 1,3% em julho na margem, refletindo a crise de oferta de insumos, recuo da demanda em meio ao desemprego e queda, inflação e redução no valor do auxílio emergencial. A queda foi maior do que previa a mediana das estimativas, negativa em 0,7%.

"É um cenário de estagflação", pontuou Camargo Rosa, da SulAmérica. Para ele, apesar do resultado fraco da indústria, na curva prevalece a aposta de perpetuidade dos fatores que estão pressionando os preços. "Não alivia o ônus do BC. Agora é ver o quanto o PIB terá de ser sacrificado", disse.

Bolsa

Enquanto Nova York caminhava em passo moderado para novos recordes, mesmo tendo sido inundada na madrugada pelas águas trazidas por Ida, o Ibovespa patinava e caía desde cedo com as surpreendentes derrotas colhidas pelo governo na noite anterior, especialmente no Senado. Pela manhã veio pitada adicional de cautela, com a leitura abaixo do esperado sobre a produção industrial em julho (-1,3%, na margem), no dia seguinte ao anúncio de leve retração de 0,1% no PIB do segundo trimestre, que havia resultado em revisões sobre a expectativa de crescimento e também de inflação.

Nesta quinta-feira, o índice da B3 fechou em queda de 2,28%, aos 116.677,08 pontos, entre mínima de 116.534,32 e máxima de 119.396,59, saindo de abertura aos 119.394,46 pontos.

O giro financeiro foi de R$ 34,0 bilhões na sessão e, na semana, o Ibovespa amplia as perdas a 3,32%, com 1,77% de baixa nestes dois primeiros dias de setembro - no ano, mais uma vez o índice oscila para o negativo (-1,97%).

Foi a primeira vez desde 20 de agosto que a referência da B3 voltou a operar abaixo de 117 mil pontos no intradia, atingindo nesta quinta o menor fechamento desde 18 de agosto (116.642,62), que havia sido o pior desde 1º de abril (115.253,31). Em porcentual, foi a maior queda desde 30 de julho (-3,08%).

Nem a recuperação do petróleo, em alta em torno de 2%, contribuiu para que Petrobras (PN -1,63%, ON -1,73%, esta na mínima do dia no fechamento) mitigasse perdas que se espalharam por empresas e setores na B3, principalmente à tarde, quando o mercado acompanhou 'pari passu' a votação dos destaques à reforma do IR.

Na ponta negativa do Ibovespa, setores com exposição à economia doméstica, como Cielo (-6,47%), Via Varejo (-6,13%) e Lojas Americanas (-5,86%), refletindo também os fracos dados. No lado oposto, poucas empresas se descolaram do sentimento negativo, entre as quais Assaí (+2,99%), Engie (+1,03%) e PetroRio (+0,75%).

Entre os maiores perdedores do dia, os bancos, caindo "no fato", pressionados pelo "fim do JCP (juros sobre capital próprio) e o corte menor do que o esperado da CSLL", observa Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora. Entre as maiores instituições, destaque para queda de 5,23% na Unit do Santander, de 4,14% para BB ON e de 3,81% em Bradesco ON.

A decepção do mercado com a aprovação do relatório do deputado Celso Sabino (PSDB-PA) se acresce à derrubada de minirreforma trabalhista no Senado, com a qual o governo pretendia estimular a geração de empregos, e a aprovação de mudança em planos de saúde de estatais, que pode dificultar privatizações como a dos Correios.

O conjunto da obra contribui para reforçar a percepção de dificuldade do governo em dar direção à agenda, perdendo precedência sobre o Congresso, como também visto em episódios recentes, como o da inclusão de 'jabutis' na MP da Eletrobras.

"Democracia é isso: você chega com uma proposta e ela sofre alteração", disse nesta quinta o ministro da Economia, Paulo Guedes, já antecipando que a reforma tributária também deve ter "um ajuste ou outro" quando for ao Senado.

Para o economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato, o risco fiscal sentido pelo mercado, que afeta condições financeiras e previsões para atividade, resulta de um conjunto de fatores, como a questão dos precatórios, a fonte de financiamento do Bolsa Família e a reforma do Imposto de Renda.

Segundo ele, o "desvio da rota" na reforma do IR e no projeto que permitiu a privatização da Eletrobras decorre da falta de esforço do governo para chegar ao desenho correto.

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