Autoridades do Brasil e do Uruguai reúnem-se para discutir potencial da hidrovia da Lagoa Mirim

Autoridades do Brasil e do Uruguai reúnem-se para discutir potencial da hidrovia da Lagoa Mirim

Evento funcionou na dinâmica de diversas palestras ao longo do dia para mostrar o projeto

Henrique Massaro

Autoridades discutem potencial da hidrovia da Lagoa Mirim

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Autoridades do Brasil e do Uruguai estiveram reunidas hoje no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), em Porto Alegre, para a “Jornada de comemoração dos 60 anos do relançamento da navegação na hidrovia da Lagoa Mirim”. O evento funcionou na dinâmica de diversas palestras ao longo do dia para mostrar o projeto da hidrovia, incluído no Plano Nacional de Desestatização (PND) do governo federal, e discutir diversos pontos que envolvem o potencial transporte hidroviário.
O embaixador do Uruguai no Brasil, Guillermo Valles, apresentou uma resenha da visita de estado feita pelo então presidente do conselho nacional de governo uruguaio Eduardo Victor Haedo. Lembrou que, entre 6 e 8 de dezembro de 1961, o contexto internacional e nacional era de crescente tensão. Um ano antes, o então presidente Juscelino Kubitschek havia consolidado seu plano de modernizar o Brasil.

No entanto, a inflação e o endividamento externo continuaram um grande desafio. A Guerra Fria recuperava seu ímpeto, houve a construção do Muro de Berlim, as maiores provas de armas atômicas, a invasão da Baía dos Porcos e a propagação da Revolução Cubana no continente. No Brasil, Jânio Quadros renunciou com apenas oito meses de governo e seu vice, João Goulart, foi chamado às pressas. Porto Alegre resistiu à tentativa de impedi-lo de assumir o cargo e o Uruguai foi sede, em Montevidéu, das conversas entre Tancredo Neves e Goulart.

“Não é entranho que a missão do presidente Haedo tenha começado com toda pompa, com grande cobertura jornalística e grande interesse político aqui mesmo, em Porto Alegre. Essa é a coisa que nos une, a história comum, a defesa das instituições, da democracia, do republicanismo”, afirmou o embaixador. Segundo ele, as conversas entre os chefes de estado revelam um momento histórico.  “Mesmo neste quadro, em que toda a preocupação parecia exclusiva e naturalmente concentrada nas tensões globais e nacionais, no dia 8 de dezembro os ministros de Relações Exteriores e de Transportes e Obras Públicas, com o ministro das Relações Exteriores do Brasil, discutem e acordam assuntos de interesse comum entre os dois países, acho que esse é um importante exemplo de governo.”

“Estamos ressuscitando um sistema que já existiu e que foi realmente muito importante”, lembrou o historiador uruguaio Carlos Prigioni. Ele fez uma apresentação sobre a história da navegação da Lagoa Mirim, contando que há registros históricos de atividades comerciais na lagoa desde 1780. Um dos marcos do comércio entre os dois países, segundo Prigioni, foram as charqueadas, com destaque para as existentes no território de Pelotas, por exemplo.

Importância da hidrovia

O reitor da Ufrgs, Carlos André Bulhões Mendes, abriu os trabalhos da primeira mesa da jornada lembrando a contribuição da instituição para a pesquisa de recursos hídricos através do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH), fundado em 1953. O reitor ainda ressaltou a importância da hidrovia, dizendo que ela tem uma função de segurança logística e de desenvolvimento de regiões mais empobrecidas na fronteira do Brasil com o Uruguai. “Sou o brasileiro mais satisfeito, mas, ao mesmo tempo, insatisfeito. Satisfeito porque estamos dando continuidade a esse momento histórico, mas insatisfeito porque ainda temos muita coisa para fazer diante do desafio que é dar materialidade à hidrovia”, afirmou Bulhões Mendes.

O secretário do Meio Ambiente e Infraestrutura, Luiz Henrique Viana, que esteve no evento representando o governador Eduardo Leite, afirmou que a hidrovia tem uma relevância que vai além das questões logísticas, sendo importante para o desenvolvimento e preservação do meio ambiente. “Que nós possamos, cada vez mais, avançar nesse projeto para que esses 60 anos sejam, quem sabe, o início de um grande desenvolvimento que possa extrapolar as fronteiras de Brasil e Uruguai, para que avancemos mais ainda”, ressaltou. “A efetivação da hidrovia Brasil-Uruguai é um eixo importantíssimo para o desenvolvimento do nosso Rio Grande, do nosso Brasil e do nosso Uruguai.”

O diretor superintendente de Portos RS, Fernando Estima, realizou uma apresentação mostrando que o modal de exportações e importações entre Brasil e Uruguai ainda é predominantemente rodoviário. Ele afirmou que a realização do evento era relevante para chamar a atenção para a capacidade das hidrovias. Segundo ele, há sempre uma mobilização muito grande de esforços e recursos financeiros para a construção de rodovias, e o transporte hidroviário e ferroviário acabam sendo menos valorizados. “O ponto principal é a gente não ficar com a monocultura logística de só fazer por rodovias. Deste evento, aguardamos aquilo que há 60 anos não ocorre, por alguns diagnósticos óbvios. Se tivesse demanda, volume de carga, na minha opinião, isso já teria sido empurrado”, comentou.

Estima se disse otimista por ver um fórum com todas as partes envolvidas, com representantes da Marinha, dos governos e do setor privado. Destacou, por exemplo, a presença do presidente da Farsul, Gedeão Pereira, e da Fiergs, Gilberto Petry. “Não existe desenvolvimentismo sem empreendedor, o Estado é parte de um processo, tem que ser um ambiente favorável, criando infraestrutura para que se desenvolva os empreendimentos”, disse. O diretor superintendente ainda destacou que havia expectativa de conferir as informações preliminares do Estudos de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental (EVTEA) que vem sendo desenvolvido. 


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