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Casinhas de cachorros dividem moradores de condomínio no Jardim do Salso

Defensores da continuidade das estruturas, que são maioria, alegam que local serve de abrigo para uma dezena de animais e os contrários reclamam do barulho e da sujeira

Por
Felipe Samuel

Defensores da continuidade das casas esperam ser notificado pela prefeitura, uma vez que uma pessoa denunciou a instalação das casas na calçada

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Moradores de um condomínio localizado na rua Ângelo Crivellaro, no Jardim do Salso, na zona Leste, estão divididos entre a permanência de três casas de cachorros, instaladas na calçada em 2016, e a retirada das estruturas. Os defensores da continuidade das casas, que são maioria, alegam que o local serve de abrigo para uma dezena de animais e não prejudica o ambiente. O grupo contrário às estruturas garante que os cães, atraídos pela comida, fazem barulho cedo da manhã e deixam um rastro de sujeira logo nas primeiras horas do dia.

Subsíndica do condomínio Tulipa, Ana Beatriz Lemos Marques, garante que de um total de 32 moradores, apenas sete são contra a manutenção das estruturas. Ana explica que um abaixo-assinado via internet em defesa das casinhas contabilizou o apoio de 37 mil pessoas. Apesar do esforço, o grupo espera ser notificado pela prefeitura, uma vez que uma pessoa denunciou a instalação das casas na calçada, cujo regramento competiria à prefeitura.

"Estamos aguardando notificação da prefeitura (para retirada das casas) para entrar com liminar para manter as casinhas", observa. De acordo com Ana, as casas foram montadas a partir da mobilização de moradores do prédio. "Desde então nunca teve problema, porque não tem lixo, não tem fezes, porque onde o cachorro está ele não faz xixi nem cocô, ele faz em outro lugar. Então é tudo limpo, não tem sujeira", ressalta.

A rotina dos cuidadores dos cães começa a partir das 5h30min, quando Ana e a síndica acordam para dar comida ao grupo que se forma na entrada do prédio. "A gente junta o que tem de sujeira, dá alimentação para mais ou menos uns 8, pois esses só vêm para se alimentar e vão embora. Ficam apenas as duas ali (nas casinhas), a Velha e a Filha", explica.

Preocupada com uma suposta tentativa de envenenamento, há duas semanas a dupla foi retirada das instalações e levada para dentro do condomínio. No prédio, elas foram abrigadas temporariamente debaixo da churrasqueira. Os moradores se revezam para levá-los para passear durante o dia e à noite. "Compramos guias para elas. Como elas são de rua ficam desnorteadas, mas são muito queridas e mansas. Comentaram que elas mordiam, mas elas não têm dentes".

A professora de Inglês, Patrícia Marques, defende a permanência das casas e diz que os desentendimentos no condomínio não têm relação com a obstrução das calçadas, mas com desavenças entre moradores. Patrícia afirma que o grupo contrário à presença das casinhas alega que as duas cadelas que estão abrigadas na churrasqueira produzem sujeira no local.

"Das pessoas que participaram de reunião na secretaria, apenas três são moradoras dos apartamentos de frente. Nenhuma tem contato com a churrasqueira, não sei que cheiro elas sentem. Sou moradora dos fundos e não sinto cheiro nenhum", critica.

Patrícia explica que as instalações são como 'casas de passagem' e servem para acomodar os cães 'comunitários'. Ela reconhece, contudo, que o ideal é que os animais sejam adotados. "São cachorros velhos, de grande porte. Moro num apartamento pequeno, tenho dois gatos, não posso botar um cachorro desse tamanho num apartamento", salienta. Ela ressalta que nem todas as pessoas têm disponibilidade para adotar. "Outros têm disponibilidade mas não têm condições financeiras para manter. Vai pegar para dizer que pegou e abandonar em outro local?", indaga.

Contrária à continuidade das casinhas na calçada, Rosemary Freitas Gomes garante que os cachorros que frequentam o local deixam um rastro de sujeira após comerem pela manhã. Ela afirma que as sobras deixadas pelos cães atraem pombas ao local, que aproveitam os restos de comidas. Conforme Rosemary, as aves deixam o local ainda mais sujo. Revoltada com a situação, ela foi à prefeitura cobrar informações de uma autuação do poder público ao condomínio. E confirmou que o prédio havia sido notificado no dia 13 de abril para retirar as estruturas ou os condôminos seriam multados. "A síndica recebeu intimação e não comunicou a nenhum condômino, não afixou na porta de entrada que nós estávamos sendo autuados em função dessas casinhas. Ela entrou com ação e com recurso", critica.

Durante a semana, em reunião com o secretário adjunto Marcelo Gazen, Rosemary sugeriu instalar as casinhas em praças da região, mas recebeu negativa do poder público. "O secretário já tinha dito que tudo leva a crer que as casinhas vão ser retiradas para fazer cumprir a lei. Pensei em colocar casinhas nas praças, mas ele disse que não pode ter, que é preciso ter uma lei para isso", explica. Na prefeitura, ela tomou conhecimento do valor da multa a que o condomínio pode ter de pagar: entre R$ 4 mil e R$ 400 mil. "Não tenho condições de pagar essa multa", acrescenta.

Além disso, há outro problema: a lei 15.254/19 sancionada pelo governador Eduardo Leite, que determina que os animais comunitários, que estabelecem vínculos de dependência com a comunidade onde vivem, mesmo que não estejam sob responsabilidade de um único tutor, recebam cuidados nos locais em que se encontram. A lei prevê que qualquer pessoa que estabeleça um vínculo com o animal e que se disponha voluntariamente a tomar conta dele será vista como um tutor. "Existe uma lei municipal onde o estado não impera", contesta Rosemary.

O impasse motivou reunião, no final da tarde, entre o secretário de Infraestrutura e Mobilidade, Luciano Marcantônio, e o prefeito Nelson Marchezan. No encontro foi discutida a permanência de Marcantônio à frente da pasta. Em nota, a assessoria do prefeito informou que há semanas o secretário Luciano Marcantônio tem manifestado ao prefeito “desejo de retomar o seu mandato na Câmara de Vereadores. A sua saída do governo, entretanto, ainda não está definida”. Conforme o comunicado, o prefeito “admira e conta com o trabalho do secretário desde que era vice-líder do governo no legislativo municipal”.